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Audiência Pública: comunidade de Valença debate Plano de Contingência

publicado: 06/08/2020 11h15, última modificação: 06/08/2020 12h49

Em uma reunião considerada a maior entre os campi do interior, o campus Valença fez história com presença expressiva da comunidade discente, docente e técnico-administrativa na discussão sobre o plano de contingência diante do contexto da pandemia. O evento ocorreu na tarde de terça-feira (04), por meio da plataforma Microsoft Teams. A audiência realizada em conjunto com o campus Paulo Afonso teve participação da Reitora, Luzia Mota, da Pró-Reitora da PROEX, Nivea Santana, do Pró-Reitor da PRPGI, Jancarlos Lapa, da Diretora-Geral, Genny Ayres, além da gestão do campus.

A conferência durou cerca de três horas, teve mais de 180 participantes e foi uma oportunidade de a comunidade apresentar impressões sobre o documento construído pelo Comitê Central de combate à Covid-19, por meio de câmaras técnicas específicas. Após as audiências públicas, o documento será submetido à apreciação do CONSUP, prevista para o próximo dia 11.

Uma das grandes preocupações apresentadas pelo público discente e docente de Valença consistiu no risco de exclusão digital ocasionado pela forma como será implementado o ensino a distância, tendo em vista que estudantes relataram a ausência de colegas em várias oportunidades de interação on-line devido à precária conectividade.

Pesquisa da PROEN sobre acesso à internet mostrou que houve apenas 41% de participação do alunado do campus Valença. A falta de adesão da maioria do público causou preocupação sobre as condições de acesso dessas pessoas, para que ninguém da comunidade seja deixado de fora.

De acordo com a Reitora, Luzia Mota, que abriu o evento, a chance de discutir diretrizes nestes tempos de crise é um dos momentos que a comunidade tem para analisar qual a posição que o IFBA vai tomar nos momentos posteriores da pandemia, mantendo a comunidade em segurança e conexão. Destacou a importância de as unidades locais tomarem suas próprias decisões a partir de algumas diretrizes, para que se mantenha a experiência institucional, e também salientou o desafio de enfrentar esse debate para que toda a comunidade se faça presente e avalie o documento.

O Pró-Reitor Jancarlos Lapa apresentou as dimensões e eixos do documento, abrangendo ensino, pesquisa, extensão, atividade de administração, gestão de pessoas, comunicação, tecnologia da informação, ações afirmativas e recomendações de saúde. Ele disse que o plano de contingência foi formado por um coletivo dividido em câmaras técnicas e foi desenhado após cerca de 40 dias de trabalho. Jancarlos avaliou que o fato de o IFBA ter um quadro de multicampia precisa ser colocado em pauta na hora da construção de um plano como esse e ressaltou que a flexibilidade e a autonomia dos campi também têm que ser levadas em consideração para garantir a educação inclusiva e de qualidade. Assim, para ele, é preciso muito cuidado com essas diretrizes para manter a referência educacional abrangendo a comunidade, e levando em consideração a saúde dos servidores e estudantes.

Segundo a Diretora-Geral, Genny Ayres, a iniciativa de discutir o plano deixa a comunidade bastante à vontade quanto à discussão sobre as especificidades de cada campus, considerando principalmente a diversidade de modalidades de ensino que são ofertadas.

“Agora é a hora de cada campus  chegar e fazer as perguntas sobre o que temos e para onde podemos ir. Como gestora, estou preocupada com as condições de acessibilidade. Como vamos garantir a inclusão daquelas pessoas que não puderem realizar o ensino remoto emergencial? Não sabemos quando vamos voltar às atividades presenciais. Nossa discussão precisa ser muito cuidadosa, ampliando a noção de acessibilidade para além da conectividade. Questões que precisamos de fato discutir com a nossa base”, reforçou.

A gestora ainda ressaltou que está sensível quanto ao resultado da pesquisa com discentes com um número baixo de respondentes em Valença e mobilizou a gestão para trabalhar na busca ativa desses estudantes para saber em quais condições eles se encontram.

Falas da comunidade – Algumas das preocupações apresentadas pela comunidade de Valença durante a audiência estão sistematizadas a seguir:

Patrícia Moreira, professora de Geografia

Tenho preocupação com os alunos e também com os servidores. O plano de contingência, claro, pensa primeiramente na segurança dos estudantes, mas temos também problemas com nossos colegas servidores na questão do acesso às tecnologias. Sobre a plataforma que pode vir a ser utilizada pelos discentes, temos na região de Valença uma oscilação muito grande na internet e alguns alunos sinalizaram no gráfico que têm acesso por algum dispositivo. Mas, diante da realidade, muitos dos nossos estudantes podem vir a ter acesso às atividades remotas utilizando o celular, e, a depender da plataforma que seja escolhida, talvez não consigamos um êxito efetivo por algumas questões: primeiro, o peso da plataforma no celular do aluno; segundo, a necessidade de uma boa conexão. Fico nessa angústia, pois são questões que não podemos prever, mas que podemos pensar. Estamos lidando com uma situação emergencial para a qual não estávamos preparados. Nunca pensamos no instituto que traz esse nome “tecnologia” e nunca levamos a tecnologia a sério no instituto para o fazer efetivo de uma educação para atingir aqueles que têm maiores necessidades. Agora, no plano emergencial, que estamos quebrando a cabeça tentando ver a melhor forma de dar continuidade às nossas ações. Neste momento, estamos tentando resolver um problema para nossos alunos. Fica a questão: está se pensando essa plataforma no sentido de leveza para a sua utilização? Fico pensando nossos alunos utilizando uma plataforma como o Moodle, que tem vários caminhos de aprendizagem, e eles não tiveram um momento para mexer, assim como nossos colegas que estão utilizando esse tempo livre para a capacitação, mas na prática só saberemos quando começar.

Erahsto Felicio – professor de História

Estou com algumas preocupações. Eu acho que estou com a impressão que não conseguimos contar com esse percentual em Valença, isso é ao mesmo tempo uma situação concreta sobre o questionário. Nós conhecemos nossos estudantes. Já tive estudantes em sala de aula que não faziam atividades por falta de acesso, da zona rural. Com isso eu não quero colocar que temos uma condição de desafio antes de se pensar no elemento aula em si. A outra coisa é que a gradação da pandemia é regional. Valença está com 46 óbitos agora, mas o coronavírus está se escalonando na cidade agora. Em abril, estava “tranquilo” em termos de dados, mas agora é um absurdo de casos. Estamos ultrapassados 400, 500. Nosso campus tem uma natureza bastante diferente, alunos de Vera Cruz até Camamu. Todos esses elementos me fazem ter cautela. Colegas têm dificuldades, eu também. Deveríamos começar experiências pedagógicas livres até como forma de testar e aprender, enquanto vamos conversando sobre as ferramentas. Esse processo não é só estudantil, também é docente.

Vitória Menezes – aluna do 4° Ano

Tenho um pedido para vocês. Nós, do IFBA Valença, criamos uma rede de apoio da comunidade estudantil e essas duas semanas foram as piores para nós, pois tivemos duas reuniões e alguns colegas falaram que estão com Covid e não teriam “psicológico” para participar de aula EAD no momento. Pediria que fosse pensada, cada vez mais, a saúde mental dos estudantes. Antes de qualquer coisa. Sem isso, o EAD não vai conseguir funcionar, vocês não vão conseguir dar uma boa aula e nós não vamos conseguir entender.

Estamos arrasados, colegas perdendo parentes. Cada vez mais vai diminuindo o número de pessoas nas reuniões, que já são poucas, pois nem todo mundo pode participar. Ontem tivemos uma reunião para fazer um relatório e nem metade do grupo pôde participar. Fico extremamente frustrada, pois tentamos falar e não conseguimos. É um desabafo. Pensem na saúde mental da gente.

Rebeca Vivas – professora de História

Eu tive a oportunidade de participar das discussões das câmaras técnicas e é importante parabenizar o esforço de todos. Até onde li, o plano está em coerência como um documento de diretrizes gerais e caberia a cada campus a adaptação. Esse resultado foi alcançado na parte de ensino, ao qual me debrucei mais.

Tenho uma preocupação. A quantidade de pessoas nas câmaras que se disponibilizaram a pensar o Ensino e pouquíssimas para pensar a Assistência Social. Trago essa informação, mesmo ficando satisfeita do sentido geral do documento.

Colocando em diálogo esse documento, em destaque o parecer n° 5 e o parecer n° 11 do Conselho Nacional de Educação, além de uma série de medidas, que me deixam com preocupação como um alerta para a gestão e uma sugestão de discussão. No parecer n° 5, uma coisa me intrigou: ensino fundamental junto com médio, e ensino técnico separado. A impressão é que a oferta de modalidades do IFBA pode gerar prejuízos para a discussão do ensino integrado.

Como algumas modalidades se adéquam melhor ao ensino a distância, há uma tendência a dar uma atenção a essas modalidades.

O ensino integrado vai acumulando desafios, pois as grandes vulnerabilidades sociais estão dentro do integrado. No campus Valença, temos uma discussão muito amadurecida sobre a participação dos estudantes, que é um processo de conquista desse espaço de decisão, escuta e entendimento. Nosso campus aceitou o desafio de pensar que nós temos uma grande maioria em vulnerabilidade. É desafiador, mas fiquemos atentos para uma tendência: quanto menos olhamos para o ensino integrado, mais percebemos que o instituto se afasta de sua função social, que está na lei.

Vamos dar um pouco mais de atenção à função do integrado dentro do IFBA, lá que estão nossos maiores desafios, maior público e lá que está nosso potencial de desenvolvimento tecnológico. Se conseguimos fazer a inclusão de fato desse grupo, que enfrenta índices de evasão, aí nós veremos como esse problema se transformará numa tragédia. É preciso favorecer a voz desses estudantes, com a tecnologia a serviço para fortalecer a voz dos estudantes.

 

 

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