Homenagem a Júlio e Jaime Cupertino Vozes de resistência, líderes quilombolas da Chapada Diamantina
Júlio Cupertino nasceu em 1940 e Jaime Cupertino em 1942. Juntos foram os precursores das lutas pelo reconhecimento, certificação e titulação dos territórios quilombolas de Seabra e da Chapada Diamantina. Atuaram firmemente na organização de associações comunitárias, na fundação do Conselho Estadual Quilombola (CEAQ) e do Conselho Regional de Associações e Povos Quilombolas da Chapada Diamantina do qual Júlio Cupertino foi o primeiro a Coordenador.
Júlio Cupertino buscou parcerias e viabilizou a construção de dezenas de casas do Programa Nacional de Habitação Rural PNHR nas comunidades quilombolas de Mucambo e Cachoeira tendo como proponente a Associação Comunitária Quilombola Rural de Baixao Velho, da qual era presidente.
Jaime Cupertino foi um dos idealizadores do Encontro de Cultura e Fé que se encontra em sua 19 edição em 2025. Ao seu lado teve sempre a comissão permanente da qual seu irmão Júlio Cupertino era membro ativo e combativo. Eles lutaram juntos a outros seabrenses pela implantação da Escola Família Agrícola do Território da Chapada, lutaram contra o racismo nas escolas, defenderam alunos que saíram dos quilombos para estudar na Sede do município, adotaram postura antirracista de forma firme e destemida.
Jaime Cupertino, liderança quilombola de Vazante, homem sensível e corajoso lutou ao lado do irmão, Júlio Cupertino, liderança do Baixão Velho, em prol das comunidades quilombolas e do povo negro; ganharam respeitabilidade em todo o Estado da Bahia nos espaços governamentais e nos movimentos da sociedade civil. Júlio Cupertino foi primeiro quilombola com assento no Conselho Estadual de Recursos Hídricos (CONERH) e seu Jaime marcou uma geração de lutas pelas águas com atuação brilhante no Encontro dos Quilombolas pelas Águas quando afirmou: “A água não é quilombola, é universal. A água não tem cor e nem tem sobrenome. O sobrenome pode ser água suja ou água limpa e nós queremos o segundo sobrenome”. Foram anos de lutas, sabores e dissabores. Juntos os Cupertinos abriram caminhos por onde muitas outras lideranças trilham hoje. Parte dessas lutas estão no filme “Terras que Libertam – histórias dos Cupertinos”, obra dirigida e idealizada pelo geógrafo-documentarista Diosmar Filho.
Os Cupertinos foram vozes de resistência que lutaram pela coletividade. Em novembro de 2014 Júlio Cupertino nos deixou. Não chegou a ver o título do Território quilombola do Baixão Velho que foi assinado pelo governador Jaques Wagner. Sem o irmão Jaime Cupertino ainda empreendeu grandes lutas, sobretudo em defesa do território Quilombola de Vazante, onde o governo do Estado decidiu construir uma Barragem. A comunidade, contra a vontade dos seus moradores, foi realocada num processo conflituoso, demorado. Seu Jaime Cupertino faleceu no dia 03 de outubro de 2023 sem receber a chave de sua casa no Capão da vazante. Ambos continuam vivos em cada quilombola que luta inspirado em seus legados.

Seu Júlio Cupertino (Foto/Reprodução: Internet)
“Quilombo é a teoria, negro é a prática”: um legado de luta por identidade e resistência deixado por Júlio Cupertino.
Júlio Cupertino dos Santos nasceu no dia 30 de junho de 1940, na comunidade remanescente de quilombo Baixão Velho, Seabra-Ba, onde cresceu e se engajou na luta pela preservação do direito à terra.
“Seu” Júlio foi uma expressiva liderança quilombola da Bahia, sendo conhecido por seu ativismo em defesa da valorização da cultura, tradição e reconhecimento histórico da resistência do povo negro da Chapada.
Atuou como presidente da Associação Comunitária Quilombola Rural de Baixão Velho, por meio da qual idealizou muitos eventos, dentre eles o Encontro de Cultura e Fé.
Projetado juntamente com outras lideranças locais, o encontro celebra a cultura através de apresentações de grupos de Terno de Reis, sendo esse um dos maiores eventos culturais de Seabra.
Cupertino integrou o Comitê do Programa Fome Zero e foi membro do Conselho Estadual de Quilombolas da Bahia. Em 2014 estampou o slogan da campanha do Novembro Negro promovida pela Secretaria de Promoção da Igualdade Racial da Bahia, SEPROMI.
Faleceu em Seabra, no dia 21 de novembro de 2014, deixando um legado de luta, sobretudo entre os jovens, pela ampliação de políticas públicas para região.
