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Do acesso à permanência: Como o IFBA Seabra constrói relações com as comunidades quilombolas

Programas e políticas institucionais, além de eventos e projetos de extensão, são destaques
publicado: 13/05/2026 10h13, última modificação: 21/05/2026 10h19

Por Ana Novaes*

Garantir o acesso à educação pública é um passo importante, mas o desafio real das instituições de ensino é oferecer condições para que o/a estudante consiga concluir o curso, especialmente quando falamos de grupos que o sistema deixou historicamente de lado, como as comunidades quilombolas. Nesse sentido, o IFBA - Campus Seabra tem buscado fortalecer essa trajetória com ações práticas essa trajetória com ações práticas. 

Semana Preta 2025
Momento de diálogo durante a Semana Preta de 2025.

Em 2026, o campus conta com seis (6) estudantes quilombolas matriculados. O número é um marco recente, já que não havia identificação específica para esse grupo nos processos de seleção; ingressava-se pelas cotas gerais de escola pública ou de pretos e pardos. Essa mudança no mapeamento é o primeiro passo para enxergar quem são esses discentes e do que eles precisam.

Natural da comunidade quilombola Baixão Velho, a estudante Tamires Santos, 3º ano do curso técnico integrado em Meio Ambiente, destaca que o ingresso no IFBA representa o acesso a novas possibilidades educacionais e profissionais.

Tamires Santos
Tamires Santos. Foto: Acervo Pessoal

“Ser uma jovem negra de comunidade quilombola chegando onde eu cheguei é uma grande conquista, não só para mim, mas também para os meus. As experiências proporcionadas pelo curso me fizeram enxergar novas possibilidades para o futuro e para a continuidade dos meus estudos.”

A estudante também relembra os desafios enfrentados na rotina de deslocamento entre a comunidade rural e a instituição, especialmente diante das dificuldades de transporte e da distância percorrida diariamente para frequentar as aulas. Apesar disso, Tamires afirma que a estrutura do campus e a qualidade do ensino contribuíram diretamente para sua permanência e desenvolvimento acadêmico.

A experiência no IFBA fortaleceu sua confiança e ampliou a percepção sobre o papel da educação para estudantes quilombolas: “Hoje entendo que ocupar espaços como esse também é um direito nosso e que a presença de estudantes quilombolas na instituição fortalece a representatividade das nossas comunidades.”

Primeiros Passos

Além do professor Azamor Guedes, o projeto também contou com a colaboração de outros docentes que atuaram no IFBA-Seabra, entre eles Joyce Cristina Holanda, Ana Carla Portela e Maria de Lourdes Militão. A iniciativa ainda envolveu estudantes bolsistas de comunidades quilombolas.

Em 2012, nasce o projeto Semente Crioula. Idealizado por servidores do IFBA em parceria com lideranças comunitárias, a iniciativa buscou fortalecer o acesso de estudantes quilombolas ao Instituto, através de cursos preparatórios, realizados nas próprias comunidades.

Ao longo de sua trajetória, o projeto desenvolveu atividades de acompanhamento estudantil e preparação para os processos seletivos da instituição, aproximando o campus dos remanescentes de quilombo da Chapada Diamantina.

Ação do Projeto Semente Crioula ocorrida em Baixãozinho (2014)
Ação do Projeto Semente Crioula ocorrida em Baixãozinho (2014). Foto: Eric Almeida

Desde 2025, o Programa Nacional de Promoção de Igualdade de Oportunidades para o acesso de estudantes da rede pública de ensino à Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (PartiuIF) tem contribuído para o ingresso de estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental, de baixa renda, autodeclarados pretos, pardos, quilombolas, indígenas ou com deficiência. 

O principal objetivo da iniciativa é a recomposição de aprendizagens, promovendo o acesso de grupos com maior histórico de vulnerabilidade social nos cursos técnicos articulados ao Ensino Médio das instituições da Rede Federal.

No campus Seabra, a 1ª turma do programa contou com 40 estudantes, sendo 15 aprovados no seletivo do IFBA. Neste ano, a aula inaugural da 2ª turma ocorreu em 22 de abril.

Turma de 2026 na Aula Inaugural
Turma de 2026 na Aula Inaugural

Assistência Estudantil

Buscando atender as áreas que apresentam maior déficit de aprendizagem, segundo os dados analisados pelos indicadores do Ministério da Educação, projeto pedagógico do PartiuIF contempla componentes curriculares orientados em dois eixos:
  • I - Língua Portuguesa, Matemática e Ciências da Natureza;

  • II - Práticas Suplementares: composta por atividades complementares como oficina de redação ou de resolução de problema, debates, orientação psicopedagógica, acompanhamento psicossocial e monitoramento acadêmico e emocional dos estudantes, ou outras atividades pertinentes ao contexto específico.

Bolsa-auxílio:

Com recursos do programa, os(as) estudantes selecionados(as), através de sorteio, recebem ajuda de custo no valor de R$ 200 (duzentos reais) pelo período de oito (8) meses.

Para além do acesso, o IFBA-Seabra desenvolve ações voltadas à permanência e ao êxito dos estudantes por meio da Política de Assistência Estudantil (PAE)*

Outra iniciativa recente é a ampliação da Política de Alimentação Escolar (PNAE). Além do almoço, o campus passou a disponibilizar, neste ano, lanche para todos os estudantes, o que contribui diretamente para a permanência estudantil. O apoio a esse público se completa com o trabalho de uma equipe multiprofissional. Psicóloga, assistente social, enfermeira, pedagoga e nutricionista atuam em conjunto para cuidar da saúde e do bem-estar dos discentes. No apoio direto às disciplinas, os professores mantêm horários de atendimento para esclarecer dúvidas e reforçar o conteúdo das aulas.

"A Política de Assistência Estudantil é um arcabouço de princípios e diretrizes que orienta a elaboração e implantação de ações que garantam o acesso, a permanência e a conclusão de curso dos estudantes do IFBA, visando à inclusão social, for mação plena, produção de conhecimento, melhoria do desempenho acadêmico e ao bem estar biopsicossocial" (Diretrizes da PAE - IFBA, 2010).

*Desenvolve ações de seleção e acompanhamento dos discentes em situação de vulnerabilidade socioeconômica, avaliando renda per capita, relações familiares, situação de saúde, habitacional e acadêmica. Entre os auxílios ofertados pelo Campus Seabra, estão transporte, moradia (incluindo uma residência estudantil), alimentação, cópia e impressão.

Identidade, território e pertencimento

No âmbito das ações voltadas às questões étnico-raciais, o campus conta com a atuação permanente do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi), que trabalha a valorização da identidade quilombola dentro da instituição. 

A Semana Preta, realizada anualmente, é um dos principais momentos dessa integração. Desde as primeiras edições, o evento conta com participação ativa de comunidades quilombolas da região, que protagonizam apresentações culturais, oficinas e rodas de conversa.

Capoeira + Educação
Apresentação de capoira com os moradores da comunidade quilombola Baixãozinho durante atividade cultural realizada em parceria com o IFBA Seabra. Foto: Eric Almeida

"A Semana Preta se ampara na Lei nº 10.639/2003, que “altera a Lei nº 9.394/1996, estabelecendo as diretrizes e bases da educação nacional para incluir, no currículo oficial das redes de ensino, a obrigatoriedade da temática ‘História e Cultura Afro-Brasileira’”.

O Instituto também tem atuado em parceria com movimentos e organizações quilombolas da região, apoiando iniciativas construídas pelas próprias comunidades ou em parceria. Esses espaços têm sido importantes para o levantamento de demandas históricas, especialmente no que diz respeito ao acesso e à permanência da juventude quilombola no ensino técnico e superior.

Um exemplo é o projeto extensionista Saberes Medicinais das Comunidades Quilombolas da Chapada Diamantina: ancestralidade, memória, cuidado e resistência, coordenado pelo professor mestre e técnico em assuntos educacionais Robson Menezes, que também está à frente do Partiu IF no campus. Desenvolvido junto à comunidade quilombola Conceição, no município de Boninal, a iniciativa reuniu conhecimentos tradicionais ligados ao uso de plantas medicinais e às práticas de cuidado preservadas pelas comunidades.

Outro destaque é o projeto Guardiões de Memórias das Negras Terras: Formação Sankofa, construído em conjunto com a comunidade Agreste, do qual também participam moradores de outras localidades, como Baixão Velho e Vazante.

Equipe do projeto se apresentando para a comunidade Foto: Acervo da coordenação
Equipe do projeto se apresentando para a comunidade. Foto: Acervo da coordenação

Quem vive o dia a dia

A presença de estudantes quilombolas no campus ultrapassa dados e políticas institucionais e se revela nas trajetórias individuais, marcadas por desafios, conquistas e construção de pertencimento.

Magna Lima
Magna Lima. Foto: Acervo Pessoal

Magna Lima (3º ano de meio ambiente) ingressou no IFBA - Seabra por meio das cotas destinadas a estudantes quilombolas. Para ela, a trajetória dentro da instituição também envolveu desafios relacionados às diferenças educacionais e culturais do ambiente escolar.

“A adaptação ao ritmo acadêmico e aos conteúdos trabalhados no campus exigiu um processo contínuo de aprendizagem e fortalecimento da confiança enquanto estudante. “Tinham assuntos que muitos colegas já dominavam, mas eu nunca tinha visto. Isso gerava insegurança e medo de não conseguir acompanhar”, revela.

A jovem destaca ainda que a participação em projetos, ações do Neabi e atividades da Semana Preta contribuíram para fortalecer sua identidade e ampliar a participação em espaços de pesquisa, extensão e debate. “O IFBA me ajudou a enxergar a riqueza dos meus saberes, da minha cultura e das minhas vivências”, comenta.

Para o mestre e filósofo Azamor Guedes, essa proximidade é o que dá sentido à existência da instituição:

“O campus não é só do IFBA, ele pertence ao território da Chapada Diamantina. É importante que as comunidades possam se sentir pertencentes e também protagonizar as ações que acontecem aqui.”.

 

*Sob supervisão da jornalista Verusa Pinho (IFBA - Jacobina)