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Mesa em homenagem ao centenário de Milton Santos marca início das ações do Programa Campus Salvador Antirracista

Ocorrida no dia 28 de maio, a mesa reuniu docentes, estudantes e comunidade externa para discutir a trajetória e a atualidade da obra do intelectual baiano, referência mundial da Geografia e do pensamento social crítico.
publicado: 05/06/2026 19h45, última modificação: 15/06/2026 16h26

Por Sarah Sanches

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Abertura da mesa-redonda. Da esquerda para direita, Camila Reis, representante discente da Licenciatura em Geografia; professor Ricardo Bahia, do DAGEO; Hyngrid Freitas, Pró-Reitora de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação; Luanda Kívia Rodrigues, Diretora-geral do campus Salvador; a professora estadual, Maria Candeias; e professora Aurelielza Santos, coordenadora do Programa Campus Antirracista. Foto: Dicom - IFBA, Campus Salvador.

O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), Campus Salvador, realizou no último dia 28 de maio a mesa-redonda “Celebrando o Centenário Milton Santos: Vida e Obra”, reunindo estudantes, docentes e comunidade externa em homenagem aos 100 anos de nascimento de um dos mais importantes intelectuais brasileiros. A data foi escolhida ainda por sua proximidade com o Dia do/a Geógrafo/a, celebrado anualmente em 29 de maio.    

Promovido pelo Departamento Acadêmico de Geografia (DAGEO) em parceria com o Programa Campus Salvador Antirracista, a atividade marcou o início das ações do programa, que tem como parte dos seus objetivos a valorização da produção intelectual negra e a promoção da educação para as relações étnico-raciais. 

O evento contou com a participação de Clímaco Dias,  professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e de Patrícia Ponte, docente do Departamento de Geografia do campus Salvador, que mediou a mesa.

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Professor Clímaco Dias. Foto: Matteus Freitas (DAGEO).

Milton Santos: trajetória e legado

A trajetória pessoal e acadêmica de Milton Santos foi o fio condutor do debate. De acordo com a mediadora Patrícia Ponte, a discussão buscou descortinar as múltiplas dimensões da vida do geógrafo baiano.

"A partir da fala do professor Clímaco Dias, resgatamos aspectos pessoais e acadêmicos de Milton Santos, desde a sua infância em Brotas de Macaúbas, na Bahia, até a forma como a questão racial atravessou a sua vida e a sua consolidação profissional”, relata a professora.

“A infância do professor Milton Santos foi a infância de uma criança negra baiana, filho de professores. Ele teve uma formação inicial diferenciada da grande maioria porque ele não foi à escola até começar o ginásio. Os pais davam aula para ele em casa. Há debates acadêmicos que sugerem que essa escolha pode ter sido uma forma de protegê-lo das experiências de racismo”, comentou Clímaco durante a mesa.

Geógrafo por vocação e por formação intelectual, Milton Santos graduou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e atuou na advocacia e no jornalismo antes de se tornar Doutor em Geografia e construir uma carreira que o consagraria mundialmente. 

Em razão da relevância de sua obra e trajetória, instituições de ensino e pesquisa de todo o país promoveram, no mês de maio, atividades em celebração ao seu centenário. “Nessa data tão simbólica, a comunidade geográfica se reuniu em todo o Brasil para prestar homenagens ao maior geógrafo brasileiro e um dos maiores intelectuais do país”, destaca Patrícia Ponte.

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Foto da formatura de Milton Santos em Direito, concluída em 1948. Fonte: Acervo pessoal/Site Milton Santos.

Sobre a realização da atividade no campus Salvador, a docente comemora: “Que bom que o IFBA também teve a oportunidade de fazer a sua homenagem e reunir a comunidade acadêmica para celebrar e continuar se inspirando na obra desse grande intelectual”.

Para Joelisson Oliveira, integrante da equipe do Programa Campus Salvador Antirracista, a sua história permanece como legado para as novas gerações.

“Ele enfrentou diferentes formas de exclusão e discriminação, mas nunca deixou que essas barreiras limitassem a sua capacidade de produzir conhecimento e de ocupar espaços de destaque na academia. A sua trajetória é uma poderosa fonte de inspiração para os estudantes negros e negras da nossa instituição”, destaca.

Do exílio à consagração internacional

Perseguido desde o início da ditadura militar, quando atuava como docente da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Milton Santos foi preso em 1964 devido ao seu posicionamento crítico diante das desigualdades sociais e, posteriormente, exilou-se.

“O seu período preso durante a ditadura militar, o exílio na França e a passagem do professor por diferentes continentes também foram debatidos”, comenta a professora Patrícia sobre os pontos destacados durante a mesa.

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Milton Santos em passagem pela Argentina. Foto: Marcelo Escobar/Site Milton Santos.

Durante o período que esteve fora do Brasil, Milton Santos lecionou e desenvolveu pesquisas em universidades da Europa, da África e da América do Norte, travessias que marcaram a sua trajetória e a sua formação intelectual.  

“Longe do Brasil, Milton Santos dedicou-se intensamente aos estudos e à reflexão sobre a Geografia produzida no século XX. Dessa experiência surgiram contribuições fundamentais para o pensamento geográfico brasileiro, especialmente para a consolidação da Geografia Crítica”, comenta o professor Joelisson Oliveira.

Ao retornar ao país, enfrentou dificuldades para se reinserir na academia brasileira, passando por outras instituições até integrar o corpo docente da Universidade de São Paulo (USP), na década de 1980, espaço onde consolidou parte significativa de sua produção teórica e ampliou a sua projeção nacional e internacional.

Único brasileiro e latino-americano a conquistar o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, considerada a maior honraria mundial da área, Milton Santos recebeu em vida 19 títulos de Doutor Honoris Causa, em universidades brasileiras e estrangeiras, sendo essa a mais distinta titulação acadêmica que pode ser concedida a um intelectual. 

"A sua trajetória é uma poderosa fonte de inspiração para os estudantes negros e negras da nossa instituição”, destaca o professor Joelisson Oliveira.

Autor de mais de 40 livros, Milton Santos lecionou até o ano 2000, tendo seguido como docente convidado mesmo depois de aposentado. Desenvolveu, como teórico, conceitos que permanecem fundamentais para a compreensão das desigualdades socioespaciais e dos impactos da globalização.

Vinte e cinco anos após a sua partida, obras como A Natureza do Espaço e Por uma Outra Globalização seguem influenciando gerações de pesquisadores, pesquisadoras e estudantes ao propor uma leitura crítica e humanizada das dinâmicas que moldam os territórios e a vida em sociedade.

Pensamento atual e formação crítica

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Professores Patrícia Ponte e Clímaco Dias. Foto: Dicom - IFBA, Campus Salvador.

Apresentada a trajetória pessoal, acadêmica e política de Milton Santos, a mesa em homenagem ao intelectual discutiu conceitos fundamentais de sua produção teórica, como “globalização”, “território usado”, “fixos e fluxos” e “rugosidades”.

“Estes conceitos foram destacados para se entender as desigualdades socioterritoriais no Brasil e no mundo e para a gente refletir também sobre alternativas para superá-las, ressaltando que Milton Santos sempre manteve uma visão otimista quanto às possibilidades de construção de um outro mundo”, comentou Patrícia Ponte. 

Segundo a docente, não apenas os temas abordados pelo geógrafo permanecem atuais, como têm efeitos pedagógicos importantes quando contextualizados à realidade das e dos estudantes. 

“Milton Santos identificava os usos desiguais dos territórios e como as técnicas estavam sendo utilizadas em benefício de um grupo muito pequeno de pessoas. Quando trabalhamos esse pensamento e o contextualizamos no cotidiano dos estudantes, promovemos uma reflexão crítica sobre o espaço e sobre a sociedade”, afirmou.

"Milton Santos sempre manteve uma visão otimista quanto às possibilidades de construção de um outro mundo”, comentou Patrícia Ponte. 

Sobre a atualidade do pensamento de Milton Santos, o professor Joelisson Oliveira comenta: “A análise proposta por ele em Por uma Outra Globalização, uma de suas obras mais importantes, continua extremamente atual, especialmente quando observamos como as desigualdades sociais, raciais e de gênero ainda estruturam a sociedade contemporânea”. 

A mediadora da mesa também ressaltou a importância de ampliar a visibilidade da produção intelectual negra nos espaços acadêmicos. “A produção intelectual de acadêmicos negros e acadêmicas negras no Brasil é fundamental de ser destacada e valorizada para que fomentemos discussões mais amplas acerca das experiências e das desigualdades em nosso país”, observou Patrícia.

Educação antirracista e valorização de intelectuais negros

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Milton Santos e uma das suas turmas de graduação na USP, em 1996. Fonte: Arquivo pessoal/Site Milton Santos.

De acordo com Joelisson Oliveira, a escolha pela mesa-redonda como primeira ação do Programa Campus Salvador Antirracista, longe de ser uma homenagem pontual, ampara-se na relevância do intelectual baiano para a compreensão das desigualdades sociais, raciais e territoriais, o que o torna uma referência para o programa como um todo.  

“Sua trajetória e seu legado intelectual servem como inspiração e referência para as reflexões e ações que serão desenvolvidas ao longo de todo o projeto, funcionando como um farol para a construção de um campus cada vez mais comprometido com a justiça social e o enfrentamento ao racismo”, afirmou.

Joelisson destacou ainda que a trajetória de Milton Santos representa uma importante referência para a luta antirracista, sobretudo nos espaços educacionais. “Sua presença na ciência, na pesquisa e na universidade demonstra que a produção de conhecimento por pessoas negras não apenas é possível, mas fundamental para a construção de uma sociedade mais democrática”, pontuou.

A coordenadora do programa, professora Aurelielza Santos, ressaltou a importância da construção coletiva do evento e da participação ativa dos estudantes, que contribuíram com a organização das atividades em homenagem ao geógrafo e à produção intelectual negra na academia brasileira. “É importante destacar também a participação dos estudantes da Licenciatura em Geografia, que atuaram como monitores, construindo coletivamente tanto a mesa como a exposição em Homenagem ao Milton Santos, que aconteceu na Biblioteca”, informou a coordenadora. 

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Luanda Kívia Rodrigues, Diretora-Geral do campus Salvador, durante o evento. Foto: Dicom - IFBA, Campus Salvador.

Diálogo entre instituições públicas de ensino

Além dos discentes, docentes e pesquisadores vinculados ao campus, estiveram presentes membros da gestão, como a Diretora-geral, Luanda Kívia de Oliveira Rodrigues, e a Pró-Reitora de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação, Hingryd Inácio de Freitas. 

Em entrevista dada durante o evento à TVE, Luanda Kívia Rodrigues comentou a importância da mesa como atividade inicial do programa antirracista. "Acho que a gente não poderia ter escolhido um evento melhor. O Milton Santos é uma referência, um intelectual que discute o território e que trouxe um olhar diferenciado para a Geografia. E somos uma instituição que tem isso muito forte, a relação com o território e com a comunidade, com uma veia extensionista que dialoga com o pensamento político de Milton Santos", pontuou a diretora. 

Fortalecendo o diálogo entre instituições públicas de ensino no território do Barbalho,  bairro em que está localizado o campus, o evento contou ainda com a participação de estudantes do Centro Estadual de Educação Profissional, Formação e Eventos Isaías Alves (ICEIA), vizinho à instituição. 

"O Milton Santos é uma referência, um intelectual que discute o território e que trouxe um olhar diferenciado para a Geografia. E somos uma instituição que tem isso muito forte, a relação com o território e com a comunidade", Luanda Kívia Rodrigues, Diretora-geral.

Para a professora Maria Candeias, que leciona no ICEIA e acompanhou os estudantes durante a atividade, a experiência representou uma oportunidade de ampliar horizontes e aproximar os jovens de espaços acadêmicos.

“Vi como uma possibilidade de os alunos conhecerem outros espaços de vivência para além dos muros do ICEIA, bem como conhecer a vida e a obra de Milton Santos. Nossos alunos são, em sua maioria, oriundos de bairros periféricos, com pouco acesso a espaços de debates de grandes intelectuais acadêmicos”, destacou.

Segundo a docente, o interesse demonstrado pelos estudantes foi um dos aspectos mais marcantes da atividade. “Foi de grande relevância o convite e a participação dos meninos, que voltaram radiantes a ponto de sugerir que possamos fazer algo similar no ICEIA. Alguns alunos anotavam quase tudo o que os participantes da mesa pronunciavam”, relatou.

Transformar o espaço da educação

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Parte do público e participantes da mesa-redonda, ao final do evento. Foto: Matteus Freitas (DAGEO).

"Estamos tecendo uma rede para fortalecer o maior objetivo do programa: uma educação pautada na equidade e na reparação, onde todas as pessoas importam”, Aurelielza Santos, coordenadora do Programa Campus Salvador Antirracista. 

Ao iniciar as ações do Programa Campus Salvador Antirracista e homenagear Milton Santos, o IFBA - Campus Salvador reforça o compromisso com a valorização da produção intelectual negra e com a construção de uma educação pautada na equidade racial.

Para a professora Aurelielza Santos, o fortalecimento dessa proposta depende da construção coletiva entre estudantes, docentes e diferentes setores da instituição. “Estamos tecendo uma rede para fortalecer o maior objetivo do programa: uma educação pautada na equidade e na reparação, onde todas as pessoas importam”, destaca.

Nesse contexto, o legado de Milton Santos permanece atual não apenas como objeto de estudo, mas também como inspiração para a construção de espaços educacionais mais democráticos, inclusivos e socialmente comprometidos.