IFMaker fortalece cultura "mão na massa" e mobiliza servidores para ampliar atuação no campus
Por Sarah Sanches
Enquanto estudantes do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) – Campus Salvador se preparam para a Olimpíada Brasileira de Robótica 2026, o Laboratório IFMaker se reafirma como um espaço estratégico de inovação, aprendizagem prática e interdisciplinaridade dentro da instituição.
Mais do que um ambiente voltado apenas para áreas técnicas, o laboratório busca ampliar sua atuação e convida docentes e técnicos-administrativos (TAEs) a integrarem a comissão de gestão e fortalecerem a cultura maker no campus.
Atualmente coordenado pelo professor Antônio Bitencourt, o espaço ainda funciona com equipe reduzida, o que limita o alcance de suas atividades. A proposta é justamente ampliar essa participação para que o laboratório possa atender de forma mais efetiva a comunidade acadêmica e externa.
“O principal objetivo é a difusão da cultura maker, a partir de um espaço colaborativo e inovador, com apoio técnico e científico”, explica Antônio Bitencourt, coordenador do laboratório.
"Esse é um espaço multiusuário, cujo funcionamento depende da participação de todos, os docentes para orientar e os discentes para aprender fazendo. Aqui, o aprendizado é de ambos porque o professor também aprende, a cada dia, uma tecnologia nova, uma metodologia nova, tanto de ensino, quanto da execução de projetos", comenta o coordenador.
Tecnologia e experimentação no processo formativo
A preparação dos estudantes para a Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR), uma das principais olimpíadas científicas do país, é um exemplo prático da atuação do IFMaker. Utilizando impressoras 3D, os alunos desenvolvem robôs e protótipos que serão utilizados durante a competição.
A OBR é uma iniciativa pública, gratuita e sem fins lucrativos que busca incentivar jovens de 6 a 19 anos a seguirem carreiras científico-tecnológicas. A competição integra robótica e inteligência artificial aos conteúdos vistos em sala de aula, mostrando como diferentes áreas do conhecimento podem ser aplicadas na criação de soluções práticas.
Com modalidades teórica e prática, a olimpíada reúne competições em que estudantes constroem e programam robôs para cumprir desafios, além de provas que avaliam, por série, os conhecimentos dos estudantes nas áreas contempladas. As inscrições para a modalidade prática já foram encerradas, e suas etapas regionais e estaduais ocorrem entre 29 de maio e 13 de setembro. Já o prazo para participação nas provas teóricas segue até12 de junho. A premiação inclui medalhas e, para estudantes do ensino médio e técnico, a nota obtida pode ser utilizada para concorrer a vagas olímpicas no ensino superior.
Mais do que uma competição, a experiência reforça a cultura maker ao mostrar que aprender também passa pelo fazer e que a inovação nasce, muitas vezes, da coragem de tentar.
Aprender fazendo: o que é a cultura maker?
“A cultura maker se baseia em ações como fazer, compartilhar, aprender, participar e permitir-se errar”, destaca o professor Antônio Bitencourt.
Inspirada no princípio do “mão na massa”, essa abordagem valoriza o aprendizado ativo e colaborativo, estimulando estudantes a deixarem de ser apenas receptores de conteúdo para se tornarem protagonistas na criação de soluções reais para problemas do cotidiano.
No ambiente maker, o que foi aprendido em sala de aula ganha forma em protótipos, projetos e experiências concretas, o que contribui para tornar o processo formativo mais dinâmico e conectado com os desafios do mundo contemporâneo.
A professora Rafaelle Souza, docente do curso de Física e orientadora de diferentes projetos que utilizam o IFMaker como espaço de criação e execução, destaca como essa vivência amplia as possibilidades de aprendizagem.
“A presença do maker no IFBA contribui para que o aluno venha, imagine uma possível solução e possa executá-la usando os equipamentos que aqui estão disponíveis. Já orientei projetos voltados para a detecção de tremores derivados do Parkinson, questões neurais e início de incêndios, além de iniciativas relacionadas à energia e à sustentabilidade”, comenta a docente, evidenciando a diversidade temática e o potencial interdisciplinar das atividades desenvolvidas no laboratório.
Um espaço de criação para todas as áreas
Para o professor Antônio Bitencourt, o IFMaker não se limita à robótica ou às engenharias. A proposta do laboratório é justamente romper a ideia de que a fabricação digital pertence apenas aos cursos técnicos.
Um exemplo disso é a produção de mapa solicitada ao laboratório para o projeto Mapa Cultural, mostrando como o espaço também pode atender demandas das áreas de humanidades, artes e produção cultural.
Segundo Catiane Rocha, coordenadora do projeto, a parceria com o IFMaker surgiu da necessidade de desenvolver materiais acessíveis voltados tanto para a comunidade acadêmica quanto para o entorno do campus, especialmente instituições como o Instituto de Cegos da Bahia e o Centro de Surdos. “Há uma carência de materiais acessíveis voltados à educação e à cultura, e o IFMaker aparece como um espaço fundamental para suprir essa lacuna”, explica.
A iniciativa integra os chamados “Caminhos Culturais”, que mapeiam pontos e agentes culturais dos bairros Barbalho, Lapinha e Santo Antônio Além do Carmo. A partir desse trabalho, já foram desenvolvidos mapas físicos com audiodescrição, e, agora, em parceria com o IFMaker, a equipe avança na criação de mapas sensoriais. “Não serão simples maquetes. Estamos desenvolvendo protótipos que envolvem elementos táteis, como relevos e braile, além de recursos sonoros, térmicos e olfativos”, destaca.
Conforme ressalta a docente, o IFMaker atende a qualquer área do conhecimento, oferecendo suporte técnico para iniciativas inovadoras. “No campo das Humanidades, há grande demanda por esse espaço, pois temos a expertise de elaborar metodologias interdisciplinares visando as questões sociais”, afirma.
Essa versatilidade oferecida pelo laboratório também aparece na experiência da estudante Ariane Benedito, do curso de Licenciatura em Física. Ela utiliza o IFMaker para aprender modelagem e desenvolver brindes para os convidados do podcast Fisicamente, lançado em 2023 e idealizado por ela.
Atualmente vinculado a um projeto de divulgação científica sobre física e mecânica quântica, realizado sob orientação da professora Rafaelle Souza, o programa recebe pesquisadores e estudantes em bate-papos semanais que duram cerca de 30 minutos. “O IFMaker entrou como uma forma de os convidados que participam do podcast terem uma lembrança, algo que remeta ao projeto”, explica a estudante.
De laboratório à biblioteca de tecnologia
Entre os equipamentos disponíveis estão impressoras 3D por filamento (FDM) e resina, escâner 3D, cortadora de vinil, CNC laser e outros recursos de fabricação digital. Segundo o coordenador do espaço, o potencial é amplo, mas a falta de pessoal ainda é um dos principais desafios.
“O IFMaker Salvador deveria funcionar como uma biblioteca de tecnologia”, afirma Bitencourt, retomando e ampliando o conceito defendido pelo professor Davi Rego, um dos fundadores do espaço. A proposta é transformar o laboratório em um ambiente aberto para consulta, aprendizado e experimentação com tecnologias associadas à cultura maker.
De acordo com ele, o principal desafio para que essa ideia se concretize é a falta de mais docentes e servidores atuando no espaço. “Contudo, pela falta de pessoal fixo e pelo número reduzido de professores envolvidos, esse conceito ainda não pôde ser implementado”, explica.
Convite à participação de outros servidores
“O interesse e a disponibilidade em fazer funcionar o IFMaker Salvador por meio da difusão da cultura maker é a única exigência”, reforça Bitencourt.
O comitê local do IFMaker deve ser formado por servidores efetivos, sem exigência de formação técnica específica ou experiência prévia. A participação também conta como atividade de gestão institucional, com carga horária reconhecida pela resolução vigente.
Além da gestão e supervisão do espaço, docentes e TAEs contribuem com capacitações, treinamentos e acompanhamento de projetos, fortalecendo o IFMaker como um ambiente coletivo de criação e inovação.
Como informa Bitencourt, uma chamada será aberta para que os professores possam aderir ao Comitê Geral de Gestão via portaria. Além disso, é possível se somar ao IFMaker a partir de projetos de ensino, pesquisa e extensão que dialoguem com a proposta do laboratório. "As portas estão abertas, os docentes e servidores podem me procurar, para conversarmos e pensar como o espaço pode contribuir com as pesquisas e projetos", convida o coordenador.






