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Educação através do corpo e da palavra: a trajetória da docente e arte-educadora Guiomar Teixeira Fontes

Especial

Professora titular da disciplina de Artes/Dança, Guiomar Fontes, que lecionou por mais de 40 anos no IFBA, deixa um legado transformador e artístico na instituição através da dança e da arte-educação.
publicado: 04/03/2026 14h33, última modificação: 04/03/2026 14h49

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Ainda adolescente, Guiomar Fontes começou a fazer aulas de jazz em uma academia de dança em Salvador. O encontro do corpo com os movimentos ritmados foi amor à primeira vista. Anos depois, ao ingressar no ensino superior, largou o curso de Arquitetura assim que descobriu que seria possível fazer da sua paixão o seu caminho profissional. Ingressou no curso de Dançarino Profissional e, em seguida, na Licenciatura em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), emendando a graduação com a especialização em Coreografia na mesma instituição. 

Em 1985, tornou-se professora de Dança Moderna da então Escola Técnica Federal da Bahia (ETFBA), hoje Instituto Federal da Bahia (IFBA), substituindo a docente Lívia Serafim. Assim como foi com a dança, encantou-se desde o primeiro momento com a escola técnica, a sua estrutura ampla e arborizada e os espaços artísticos que a compunham. Em entrevista dada ao departamento de comunicação do IFBA, destaca o acolhimento da professora de Música e Chefe da Coordenação de Artes, Marta Delizola e dos demais colegas de departamento, assim como da equipe técnica do ETFBA. "Com toda esta energia envolvente e acolhedora, fui rodeada por um sentimento de afinidade, harmonia e felicidade por iniciar meu trabalho como educadora em Dança", relembra. 

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Guiomar Fontes Teixeira

Foi assim, com afeto, reconhecimento íntimo e senso de propósito e autorrealização que Guiomar Fontes deu início ao seu trabalho no IFBA, vindo a se tornar docente efetiva quatro anos depois, em 1989. Promovida à professora titular em 2018, é também Mestre e Doutora em Ciências da Educação pela Universidad de San Carlos (USC), a mais antiga universidade da Guatemala, tendo seus títulos revalidados pela Escola de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFBA. 

Ao longo dos 40 anos em que lecionou na instituição, teve como motivação o amor à dança e à arte, e o desejo de criação e inovação que lhe são característicos. Foi professora, mas também dançarina, coreógrafa e diretora, contribuindo em sala tanto com os seus conhecimentos teóricos e técnicos a respeito da cultura e arte da Dança, em toda sua complexidade e importância, quanto com a sua paixão, encanto e crença na força da coletividade e do aprendizado mútuo e contínuo. 

"Para mim, é de suma importância, valor e prazer, trabalhar conjuntamente com os alunos, onde estes exercem o papel de dançarinos, intérpretes e criadores, em que corpo-mente atuam conjuntamente com as emoções em trocas culturais professora-alunos”, afirma Guiomar ao responder o que manteve a sua relação com a docência sempre viva.

Além de ser a professora titular da disciplina de Artes/Dança, oferecida a  diversas turmas dos cursos técnicos de distintos campos da ciência e tecnologia, coordenou o Projeto de Extensão Grupo de Dança Moderna, hoje denominado Grupo de Investigação do Conhecimento e Movimento - “Corpo que Dança do IFBA” (CEFET- BA/ IFBA). No âmbito do projeto, selecionou, ao longo dos anos, estudantes com aptidão e inclinação para dança através de testes práticos, atuando como coordenadora, coreógrafa e diretora de apresentações e eventos de dança na instituição. Para ela, a busca dos alunos pela dança se dá não apenas pelo prazer e encontro com a própria capacidade criadora e artística através do corpo, mas também como uma forma de escape da sobrecarga inerente ao processo formativo. Os alunos acabam se estressando e muitas vezes adoecendo e recorrem às Artes para extravasar e relaxar”, comenta Guiomar.

O incentivo à autonomia e à liberdade de expressão, exercidas com responsabilidade, respeito e autoconfiança foi a marca da sua missão enquanto professora. 

Poder fazer do corpo um lugar de expressão, harmonia e prazer, mas também de disciplina, reflexão e aprendizado é uma das muitas facetas da dança enquanto campo prático e de saber, o que implica também desafios. Dentre as dificuldades encontradas ao longo do percurso, Guiomar menciona a tarefa árdua de organizar tantas alunas e alunos dentro de uma aula de dança sem uma estrutura ideal, já que, diferente de outros componentes, a dança exige espaço físico maior e uma atenção mais particular a cada aluna/o.

Ainda sobre as diferenças entre a Dança e outros componentes curriculares, destaca que, se outras disciplinas requerem que a/o estudante permaneça sentada/o e com um único foco de atenção, a dança demanda liberdade física, capacidade de expansão e expressão corporal através das práticas de alongamento e condicionamento,  assim como a concentração em si mesma/o, nos demais e no entorno. “Tem que ter jogo de cintura e muito amor à profissão e isto é o que não falta de ambas as partes”, Guiomar afirma entre risos.  

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Guiomar Fontes com as/os estudantes do Grupo Corpo que Dança do IFBA em atividade realizada durante o SIPAT - Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho.

Outro ponto destacado pela docente foi a conciliação de horários entre os componentes e demais atividades exercidas pelas/os alunas/os: “A dificuldade nesta prática corporal, é conciliar dias e horários com as diversas turmas de diferentes áreas (turno matutino, vespertino, noturno) com o treinamento e os ensaios para as apresentações de Dança internas e externas, o que requer tempo e dedicação. Hoje, no IFBA, tornou-se mais complicado ainda, devido ao maior ingresso no IFBA e a ampliação da carga horária curricular”.

Contudo, nenhum dos desafios foram impeditivos para a construção de resultados positivos nas diferentes turmas em que atuou. “Em meio às conversas e brincadeiras, com jogo de cintura, esforço e dedicação de ambas as partes, se superam as dificuldades e sempre me surpreendo com o resultado final: a produção de bons trabalhos”, ressalta a docente. 

 

Foi muito gratificante perceber a sede e a fome daqueles alunos em trabalhar o corpo, alongar, exercitar e exteriorizar as emoções [...] permitindo a descoberta do corpo, sua autonomia, confiança e liberdade, ou seja, o potencial criativo do seu ser”, comenta Guiomar Fontes. 

Convidada a falar sobre as semelhanças e diferenças notadas em suas primeiras e últimas turmas, separadas por quatro décadas de distância no espaço-tempo, Guiomar afirma que aquilo que permanece, a despeito do tempo, é a capacidade criativa das/dos estudantes. "A potencialidade humana da criatividade presente de forma intensa nestes adolescentes que chegam explodindo de energias exteriorizadas através das dinâmicas/técnicas corporais e dos laboratórios criativos exercitados em sala de aula, que possibilitam à criação vir à tona".

De diferente, menciona a distribuição do tempo: se antes, os estudantes tinham atividades apenas durante a manhã ou à  tarde, hoje têm turmas dispersas ao longo de todo o dia, o que, como já mencionado, demanda estratégias para a conciliação e realização das atividades, mas não impede que o encontro com a arte e a dança aconteça. Não só aconteça, mas reverbere positivamente para as/os estudantes e a instituição.

Se, nas palavras dela, o maior desafio, já atravessado e vencido, “sempre foi a persistência, o querer, o acreditar e o fazer, ou seja, pôr as mãos na massa e executar a obra de arte em dança”, é possível afirmar com contundência que ela não apenas o superou com maestria, como também semeou um legado artístico e transformador no campus Salvador do Instituto Federal da Bahia, daqueles que continuam florescendo muito depois que as luzes do palco se apagam.

Aposentada em janeiro deste ano, Guiomar Teixeira Fontes Barreto avalia que a sua trajetória como arte-educadora e professora de Dança no IFBA, junto a turmas de diferentes cursos, “possibilitou uma enriquecedora reflexão criativa no trânsito entre Arte e Ciência, ampliando a visão e o olhar para a Dança em interconexão com outras áreas do saber”. Esse percurso, segundo ela, fortaleceu a articulação entre teoria e prática, pensamento e movimento, consolidando uma conjugação permanente de saberes.

A sua contribuição ao IFBA, nessas quatro décadas em que esteve na instituição, reafirma que arte e ciência, quando caminham lado a lado, se potencializam e revelam a força presente entre o corpo e a mente, o saber e a prática - dimensões interligadas e inseparáveis que ampliam o conhecimento e transformam, de forma sensível e profunda, a experiência educativa.

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Texto por Sarah Sanches

Entrevista realizada por Henrique Soares

Fotografias: Acervo pessoal Guiomar Fontes

 

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