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Compromisso coletivo: campus Salvador no enfrentamento ao feminicídio

por Henrique Soares — publicado: 19/03/2026 14h04, última modificação: 02/04/2026 10h17

Materia 18M

Se toda vida humana tem início no abrigo amoroso e gerador do corpo de uma mulher — esse espaço de cuidado, criação e potência que nenhuma tecnologia jamais foi capaz de reproduzir —, por que justamente aquelas que nos dão a possibilidade de existir e habitar o Planeta Terra seguem sendo alvo de violências, silenciamentos e opressões em nossa sociedade?  

“Não basta repudiar o feminicídio quando ele acontece; é preciso agir antes, no cotidiano, desnaturalizando cada piada, cada controle, cada silenciamento (...) “Que cada um de nós se sinta responsável por construir uma sociedade onde nenhuma mulher precise temer pela própria vida”.

Vanessa Mutti
Cipea - campus Salvador

Ontem, 18 de março, o campus Salvador do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) se uniu ao movimento brasileiro que refletiu sobre a memória e mobilização contra o feminicídio — a forma mais extrema da violência de gênero. Mais do que lembrar as vítimas, essa data também convidou nossa sociedade a refletir sobre as estruturas que sustentam essa violência e, sobretudo, a agir para preveni-la.

Cerca de uma década após a promulgação da Lei nº 13.104/2015, que tipificou o feminicídio como um crime específico, os avanços legais convivem com uma realidade ainda alarmante. Só em 2025, o Brasil registrou 6.904 vítimas de casos consumados e tentados de feminicídio, o que representa um aumento de 34% em relação ao ano de 2024, quando houve 5.150 vítimas. Foram 4.755 tentativas e 2.149 assassinatos, totalizando quase seis (5,89) mulheres mortas por dia no país.

Os dados do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem) da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e divulgados pela Agência Brasil, supera em 38,8% o número de vítimas de feminicídio divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), por meio do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Os dados que constam no sistema são informados pelos estados. Segundo a última atualização, em fevereiro, foram 1.548 mulheres mortas por feminicídio em 2025.

Educação como prevenção

Para além dos dados, o enfrentamento ao feminicídio passa necessariamente pela educação — especialmente nas instituições de ensino como o IFBA, onde valores, comportamentos e visões de mundo são construídos.  

Durante o dia de ontem, foram realizados panfletaços entre os/as estudantes com a participação da diretora-geral Luanda Kívia Rodrigues e dos/as integrantes do Grêmio Estudantil Denílson Vasconcelos e do Diretório Acadêmico de Engenharia Química. Na próxima terça-feira (24), a comunidade acadêmica poderá acompanhar na Praça Vermelha e no Bloco D, às 12h e às 18h, o evento "Papo Aberto Cipea: educação e afeto contra as violências de gênero". Já no dia 31 de março, às 18h, no auditório do Bloco D, vai ocorrer a palestra "Enfrentamento ao feminicídio e à violência de gênero. As ações estão sendo organizadas pela Diretoria Geral e pela Comissão Institucional de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio Moral e Sexual do IFBA (Cipea) do campus. São iniciativas que integram a campanha "18M: IFBA pela educação contra o feminicídio". 

Vanessa MuttiPresidente da Cipea, a professora de sociologia do campus Salvador, Vanessa Mutti, destaca que compreender o feminicídio exige reconhecer suas raízes estruturais: “O feminicídio é o assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher, envolvendo violência doméstica, menosprezo ou discriminação”. Ela ressalta ainda que a violência não surge de forma isolada, mas se constrói no cotidiano: “A violência que leva ao feminicídio não nasce grande e explícita: ela nasce pequena, sutil, em gestos, piadas e silenciamentos que vão desumanizando o outro”.

Nesse sentido, ressalta Vanessa, as escolas têm um papel central na desconstrução de comportamentos que naturalizam a desigualdade de gênero. Comentários sexistas, controle sobre o corpo feminino, desvalorização da fala de meninas e a romantização de relações abusivas são exemplos de práticas que precisam ser enfrentadas desde cedo. 

Comportamentos que merecem atenção no ambiente acadêmico

*Piadas e comentários sexistas, racistas, lgbtfóbicos e capacitistas que humilham, inferiorizam ou objetificam meninas e mulheres em suas múltiplas diferenças;

*A desqualificação da fala e da presença de meninas negras, periféricas, trans ou com deficiência em sala de aula e nos espaços de convivência;

*O controle dos corpos das estudantes, que as responsabiliza por despertar desejo, enquanto comportamentos agressivos e invasivos dos meninos são tolerados ou incentivados.

*A invisibilização e o preconceito contra identidades LGBTQIAP+, que reproduzem a lógica de que existem corpos e afetos "errados" ou "menos válidos";

*Brincadeiras que incentivam a posse, o ciúme e a vigilância como expressões de amor e cuidado, base para relacionamentos abusivos futuros;

*A romantização da violência e da submissão em músicas, séries, discursos e nas interações cotidianas, que ensinam meninos a serem duros e dominadores e meninas a serem dóceis e tolerantes.

Fonte: Cipea do campus Salvador

Materia 18M

Desinformação, cultura e violência 

Entre os fatores que contribuem para o aumento da violência de gênero, destacam-se desigualdades históricas, fragilidade de políticas públicas e a disseminação de discursos de ódio — especialmente nas redes digitais. 

Vanessa Mutti alerta para o impacto desses conteúdos: “Comunidades como ‘redpill’ e ‘incel’ têm ganhado espaço entre jovens, difundindo a ideia de que as mulheres são adversárias a serem controladas ou punidas. Isso não é ‘opinião’, é combustível para a violência”, pontua. 

A desinformação também desempenha um papel crítico, ao perpetuar mitos que culpabilizam as vítimas e deslegitimam denúncias. Narrativas como “ela provocou” ou “em briga de marido e mulher não se mete” contribuem para o silêncio e a perpetuação do ciclo de violência. 

É essa mesma violência que tem mobilizado a atenção do país, sobretudo após o caso recente de estupro coletivo de uma adolescente na zona sul do Rio de Janeiro, que expôs, de maneira brutal, a urgência de enfrentar esses crimes, que violam profundamente a dignidade humana e ferem os direitos, a segurança e a vida de mulheres em toda a sua diversidade — filhas, mães, irmãs — e de toda a sociedade que delas depende e com elas se constrói. Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, mostram que, entre 2022 e 2025, o Brasil registrou 22,8 mil casos de estupro coletivo — uma média alarmante de 15 ocorrências por dia. Desse total, 8,4 mil tiveram como vítimas mulheres adultas, enquanto a maioria, 14,4 mil casos, atingiu crianças e adolescentes do sexo feminino, evidenciando a dimensão e a gravidade do problema. 

O que é redpill e incel?

O termo redpill (pílula vermelha) do filme Matrix (1999), foi apropriado por comunidades online masculinas, conhecidas como "manosfera", para descrever uma suposta percepção de que a sociedade moderna é dominada por um "imperativo feminino" que prejudica os homens. O movimento redpill dissemina discursos machistas e misóginos, muitas vezes disfarçados de "conselhos de masculinidade" ou "despertar para a verdade". A ideologia valoriza traços tradicionalmente masculinos (força, liderança, frieza), critica o feminismo e defende que os homens devem agir de forma estratégica ("macho-alfa") para recuperar seu suposto poder perdido. 

O movimento captura jovens por meio de vídeos curtos em redes sociais (TikTok, Instagram, YouTube), oferecendo respostas simples para frustrações pessoais. 
Especialistas alertam que o movimento redpill normaliza a misoginia e pode incitar violência física e psicológica contra mulheres, além de estar associado a casos de assédio e feminicídio. No Brasil, movimentos e parlamentares têm pressionado pela criminalização da incitação misógina organizada, argumentando que discursos de ódio não são protegidos pela liberdade de expressão.

Termos:


*Alpha/Beta:
 Divisão entre homens dominantes (alfa) e os que agem com sentimentos ou são "submissos" (beta).


*MGTOW:
 Men Going Their Own Way (Homens Seguindo Seu Próprio Caminho), defende o isolamento de mulheres.


*Incel:
 Involuntariamente Celibatários, comunidades de homens que odeiam mulheres por não conseguirem relações sexuais.


*Moai (🗿) e Taça de Vinho (🍷):
 Emojis que, combinados, são frequentemente 
utilizados em comunidades "red pill" para indicar uma visão supostamente mais "inteligente" ou "calculista" das situações, muitas vezes de forma machista.

Fontes: G1 e internet 

Rede de apoio pode salvar vidas 

Identificar sinais de violência e agir pode ser decisivo. Mudanças de comportamento, isolamento, medo constante, marcas físicas ou queda de rendimento são alguns dos indícios que exigem atenção. 

Segundo a pesquisadora, o apoio deve ser baseado em acolhimento e respeito: “Oferecer escuta acolhedora e sem julgamentos, acreditando na palavra da mulher e respeitando seu tempo e decisões”. Oferecer ajuda concreta e orientar sobre os serviços disponíveis são atitudes fundamentais para fortalecer quem está em situação de risco.

Como colegas, amigos ou familiares podem ajudar uma mulher que esteja sofrendo violência? O que fazer ao identificar sinais de violência em alguém próximo? A rede de apoio é fundamental para romper o ciclo da violência. Quem está próximo pode:

*Oferecer escuta acolhedora e sem julgamentos, acreditando na palavra da mulher e respeitando seu tempo e decisões;

*Evitar frases como "por que não denunciou antes?" ou "por que não foi embora?", pois a dinâmica da violência envolve medo, dependência emocional e econômica, além de ameaças;

*Informar sobre os canais de denúncia e serviços de apoio: Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher), Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM), Defensorias Públicas, CRAS, CREAS, e a própria Cipea no caso de violências no âmbito acadêmico;

*Oferecer ajuda concreta: acompanhar a órgãos públicos, auxiliar na busca de informações sobre direitos, ou, se possível, oferecer um local seguro temporário;

*Não revitimizar: evitar perguntas invasivas ou que sugiram que a vítima provocou a violência.

*Sinais de alerta incluem: mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, marcas físicas, queda no rendimento escolar ou profissional, justificativas constantes para lesões, medo do parceiro ou familiares, entre outros. Diante desses sinais, a abordagem deve ser delicada e solidária.

Fonte: Cipea do campus Salvador

Como denunciar

A denúncia é uma ferramenta essencial para interromper o ciclo da violência e proteger vidas. No Brasil, existem canais telefônicos gratuitos e acessíveis: 

  • 180 – Central de Atendimento à Mulher (funciona 24h em todo o país); 
  • 197 – Disque Denúncia da Polícia Civil; 
  • 190 – Polícia Militar (em casos de emergência).
  • FalaBR: https://falabr.cgu.gov.br (canal oficial de denúncia para instituições federais).
  • - Cipea.

Esses serviços oferecem orientação, acolhimento e encaminhamento para redes de proteção. 

Compromisso coletivo com a vida 

Mais do que uma data simbólica, o 18 de março é um chamado à responsabilidade coletiva. Enfrentar o feminicídio exige ação contínua — nas políticas públicas, nas instituições e nas relações cotidianas. 

Como reforça Vanessa Mutti: “Não basta repudiar o feminicídio quando ele acontece; é preciso agir antes, no cotidiano, desnaturalizando cada piada, cada controle, cada silenciamento”. E conclui: “Que cada um de nós se sinta responsável por construir uma sociedade onde nenhuma mulher precise temer pela própria vida”. Por isso, neste 18 de março, a conscientização se transforma em compromisso: proteger a vida das mulheres é dever de todos nós. 

Além de Vanessa, a Cipea também conta com a participação das servidoras e integrantes da comunidade acadêmica Adriana Andrade, Ana Paula Rocha, Anete Otília Cruz, Moema Ferreira e Tícia Viviani de Britto. 

(*) Com informações do  IBDFAM e Estadão

Fotos: Marília Gabriele Bastos, Lêda Xavier e Acervo Pessoal 

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