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Pibid: Seminário discute educação nos espaços de preservação da cultura negra

PIBID

Exposição de trabalhos científicos, mesa institucional e palestras de Ekedy Sinha, Tiago de Xangô e Aurelielza Santos fizeram parte da programação do evento.
por Jamile Teixeira publicado: 18/11/2025 19h31, última modificação: 18/11/2025 19h31

Seminário Territórios de Identidade Negra

O “1° Seminário Territórios de Identidade Negra - Formação para a cidadania”, resultado do trabalho desenvolvido pelo professor Ubiraci Carlúcio Cardoso, o Bira, e seus alunos e alunas, durante o período do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), na área de geografia, culminou em um potente evento, organizado pela Coordenação do Curso de Licenciatura em Geografia, na noite de 13 de novembro no Instituto Federal da Bahia, campus Salvador.

A mesa-redonda foi formada por Gersonice Brandão, a Ekedy Sinha que zela pelo Terreiro da Casa Branca, um dos mais antigos do país; Tiago Coutinho de Xangô, que é fisioterapeuta, sanitarista, mestre e professor universitário e representou o Terreiro do Gantois; a professora do campus da instituição Aurelielza Santos que é mestre em Educação e Contemporaneidade; enquanto que o professor do IFBA Matheus Freitas mediou a mesa.

A educação nos Terreiros de Candomblé é realizada de forma coletiva, em que se desenvolve uma pedagogia própria que pretende a formação integral do indívíduo, preparando, ainda crianças, pessoas com deveres religiosos, éticos e sociais dentro e fora da comunidade. Ekedy Sinha em sua palestra intitulada “Territórios de Identidade Negra: os Terreiros de Candomblé como espaço educador” conta que os terreiros são espaços de resistência, mas espaços que promovem, principalmente, a educação e a saúde. “Duas coisas importantíssimas. O primeiro ponto da educação é você aprender a respeitar o outro. A ser solidário, a amar o outro, todo mundo dentro do Terreiro de Candomblé é parente, ali é uma família de Axé, torna-se uma família de Axé, porque chegam pessoas de todos os lugares. É um espaço para todos dividirem, porque você não come sozinho, você não canta sozinho, você não dança sozinho. Eu acho que esse é o diferencial”, reconhece.

Na palestra “A importância dos Terreiros de Candomblé na preservação do meio ambiente”, Tiago Coutinho explica que “o terreiro é um espaço potencial de vida, de vida em plenitude, de vida em abundância. Tudo tem vida.E quando eu digo isso, eu estou dizendo que até quem está ancestralizado tem vida”. Tiago continua “a gente reconhece se aquela folha é quente, se aquela folha é fria, se é uma folha mais rasteira, se é uma folha que precisa de umidade, se é uma folha que depois de colhida ela precisa descansar, porque aquela folha é um ser vivo, mas ela não é só um elemento vegetal. Ela é encantada. E quando eu digo que aquela folha é encantada, é como uma ensina feita nesse livro, que ela canta para a folha e, ao fazer isso, aquela folha tem o seu poder, além de fitoterápico, fitoenergético, e a gente está falando de ciência”.

“É importante destacar, lá em 2017 Muniz Sodré disse que os terreiros são tecnologias sociais afro-brasileiras, porque a maneira que a gente faz aqui é nossa. Candomblé é um modo de culto brasileiro, e aí existe até uma treta epistêmica, semântica, que diz que o Candomblé é uma religião brasileira de matriz africana. Enquanto que já se discute uma afirmação de que o Candomblé é uma religião brasileira, de matriz brasileira, porque ele se constitui aqui”, explana Tiago de Xangô.

A professora Aurelielza aborda a temática “A importância da Lei 10.639/03 para a formação de professores(as) no ensino da Geografia na educação básica”. A docente pensa a lei na prática. “A geografia que a gente quer é um ato de cruzar as fronteiras, de sair do caminho, de ir além das limitações”. Conforme Aurelielza tanto na obrigatoriedade do ensino de África e cultura afro-brasileira De onde vem esse conhecimento afro-brasileiro, a África que existe presente em nós. “O principal objetivo é valorizar as contribuições dos povos africanos e afro-brasileiros na formação da sociedade brasileira” e argumenta que a lei é um marco legal e pedagógico na luta contra o racismo, na promoção da educação antirracista.

“A implementação da lei depende diretamente da formação crítica, humanizadora das e dos professores. E isso nós estamos fazendo aqui. É uma aula para discutir essa educação que a gente acredita. Dentro desse processo de formação antirracista, a gente precisa ler, precisa se formar, se construir, debater, trazer esses propositivos, porque a lei no domínio técnico deve incluir um conhecimento histórico, cultural, social, que debate as desigualdades raciais, argumenta a professora.

O coordenador do Pibid/IFBA de Geografia, professor Ubiraci Carlúcio, falou sobre o desafio de coordenar o programa na área de geografia neste momento. ”Mas desafio é para ser vivido, experienciado e superado, assim como é a educação”, diz o o professor. O docente afirma que trabalhar além da Lei 10.639/03 e, no caso da geografia, nos territórios de identidade negra, na visão de uma formação mais cidadã, com respeito à diversidade, à pluralidade cultural, ética, a construção do nosso povo foi um desafio, mas que foi possível com um bom planejamento educacional”. O professor mobilizou os estudantes acerca da importância de trabalhar uma educação transgressora, libertadora e crítica. Para ele, esses futuros professores precisam vivenciar novas experiências.

Bira afirma que "o que o IFBA vem fazendo, o que a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) vem fazendo, o projeto do Pibid é um projeto de formação continuada que visa isso, combater a intolerância religiosa, combater o racismo, mas a partir da escola. Não é uma escola burguesa, é uma escola que promove a diversidade, um novo currículo que não seja eurocêntrico, um currículo que atenda toda a diversidade e pluralidade da nossa composição. Então, assim, os resultados foram esses trabalhos científicos lindos, maravilhosos, esses posters científicos, que culminam com esse seminário brilhante com a Ekedy Sinha, com o Tiago de Xangô e com a professora Aurelielza”, valoriza o docente.

Estudantes e trabalhos científicos

Estudantes de geografia que fizeram parte deste Pibid apresentaram seus trabalhos científicos numa exposição de banners na mesma noite. Os trabalhos científicos foram: “Ações sociais nos territórios de identidade negra: Terreiro do Gantois e Terreiro da Casa Branca”; “A jornada dos futuros professores: o papel das visitas ao Mafro e ao Memorial de Mãe Menininha do Gantois na construção da identidade cultural docente”; “As narrativas dos povos tradicionais: memórias e saberes da casa Branca pela voz de Ekedy Sinha”; “Pedagogia do Axé: diálogo entre ancestralidade e o ensino de geografia”; “Sustentabilidade e preservação ambiental no Terreiro Ilê Axé IYã Nassô Okã”.

A estudante da licenciatura em geografia Yasmin Oliveira cita que o Pibid a possibilitou algumas coisas que ela ainda não tinha conseguido vivenciar. “Ter um professor não só comigo em sala de aula, mas também no momento de planejamento, orientando para a gente desenvolver trabalhos científicos, com base no que a gente produzia no programa”. Para ela, o Pibid a fez perceber o quanto “o ensino e a pesquisa estão alinhados”.

Antonio Carlos Batista, também aluno do campus e do curso, conta que o trabalho científico, além do pedagógico, desenvolvido durante o Pibid, focou numa visão decolonial nos territórios de identidade negra. A pesquisa sobre esses territórios tem a ver com a legislação que fala como os professores têm que tratar a história da cultura afro e indígena nas instituições de ensino. Foi muito construtivo entender como é esse território de verdade para construir uma nova maneira de enxergar esses locais e contribuir para uma formação de licenciatura melhor”.

Já o aluno Daniel Nogueira relata que o programa tem sido muito importante desde a primeira fase. “Nesta fase agora realizamos visitas a territórios de cultura negra. Pessoalmente, sou evangélico. Visitar um terreiro foi bacana, senti paz. Isso, tira esse estigma de que são locais pesados. Eu achei bem interessante e voltaria sim ao terreiro. Relacionado com a docência, essa experiência foi importante para que a gente possa compartilhar com nossos alunos no futuro”, conclui.

Mesa institucional

Estiveram presentes na mesa institucional do evento a diretora geral, professora Luanda Kívia Rodrigues, o coordenador do curso de geografia, professor Ricardo Bahia e a coordenadora institucional do Pibid/IFBA, professora Anízia Conceição Oliveira.

O Programa

O Pibid é uma iniciativa que integra a Política Nacional de Formação de Professores do Ministério da Educação e tem por finalidade fomentar a iniciação à docência, contribuindo para o aperfeiçoamento da formação de docentes em nível superior e para a melhoria da qualidade da educação básica pública brasileira.