Pesquisas de popularização da física quântica são apresentadas na Nova Zelândia

Se o poeta abolicionista baiano Castro Alves pudesse expressar em versos os objetivos das pesquisas sobre divulgação científica que têm sido desenvolvidas no campus Salvador do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), será que ele declamaria “Oh! Benditos/as os/as que semeiam ciência... ciência à mão cheia... E manda o povo pensar!”?
Espalhadas com a orientação da pesquisadora Rafaelle Souza e participação de estudantes pesquisadores/as, essas sementes científicas foram reconhecidas sob a forma da apresentação presencial da proposta “Divulgação científica em física quântica: uma análise do estado da arte de 2010 a 2022”, no último dia 4 de julho, durante 27º Congresso Internacional de História da Ciência e Tecnologia, que ocorreu na cidade de Dunedin, na Nova Zelândia. O evento foi realizado entre os dias 28 de junho e 5 de julho de 2025, na Universidade de Otago. A pesquisadora foi uma das/os cinco brasileiras/os participantes de um congresso que é considerado o principal encontro mundial de história da ciência e tecnologia. Realizado a cada quatro anos, ele reuniu mais de mil delegados/as, sendo a segunda vez que ocorreu no Hemisfério Sul do planeta.
"Essa trajetória revela que simplificar abordagens matemáticas e adotar uma linguagem acessível são estratégias fundamentais para que o conhecimento científico ultrapasse os muros da academia e alcance efetivamente a sociedade”
Rafaelle Souza
“A aceitação desse trabalho em um evento de grande relevância científica reafirma o impacto da pesquisa desenvolvida no IFBA e sua contribuição para a ampliação do debate sobre a importância da divulgação científica na formação de uma sociedade mais crítica, informada e capaz de compreender os desafios e as possibilidades trazidas pela física quântica. Essa trajetória revela que simplificar abordagens matemáticas e adotar uma linguagem acessível são estratégias fundamentais para que o conhecimento científico ultrapasse os muros da academia e alcance efetivamente a sociedade”, comenta Rafaelle.
Ela avalia que a pesquisa apresentada tem tudo a ver com o evento, "pois enfatiza a importância de situar o conhecimento e as práticas locais em contextos específicos, bem como a história local ou regional da ciência, tecnologia e medicina em um contexto global. A pesquisa também enfatiza a importância da circulação ou do movimento de ida e volta através de fronteiras, envolvendo encontros e trocas de questões destacadas ao mencionar a colaboração com outros pesquisadores. Essa participação é uma forma de dar visibilidade à nossa produção acadêmica e ampliar as conexões internacionais”, explica Souza.
Práticas da Chapada Diamantina
A pesquisadora do campus Salvador recorda que a primeira iniciativa ligada à divulgação científica na instituição foi o projeto “Práticas Charlatãs na Chapada Diamantina – BA: Discutindo o invisível e conceitos fundamentais da Física Quântica”, desenvolvido em 2020 em parceria com o estudante Styves Miranda. A pesquisa é vinculada ao projeto de Iniciação Científica do Ensino Médio aprovado no edital nº 02/2020/PRPGI/IFBA.
“Este trabalho trouxe reflexões sobre o chamado “charlatanismo quântico” e resultou na produção de um e-book, materiais para redes sociais e no artigo publicado na Revista Brasileira de Ensino de Física (RBEF) intitulado “Investigações sobre as possibilidades de reconhecer apropriações indevidas da Mecânica Quântica: o papel da divulgação científica”.”
O trabalho aborda as estratégias de comunicação científica para auxiliar o público a diferenciar “ciência e pseudociência”, enfatizando a importância de ocupar espaços digitais com conteúdos fundamentados. “Como fruto dessas ações surgiu o evento em 2021, a 1ª Semana Quântica que promoveu discussões sobre os riscos da desinformação e do uso indevido dos conceitos da mecânica quântica”.
Divulgação no Instagram
A trajetória de pesquisas para divulgação de dados científicos continuou em 2022. Surgiu o projeto “Divulgação científica em rede social: uma prática no Instagram para entender a mecânica quântica”, com o bolsista Gabriel Reis, que explorou o uso de plataformas digitais para tornar os conceitos da física quântica mais acessíveis.
E foi esse estudo que inspirou o artigo “O estado da arte das pesquisas relacionadas à divulgação científica sobre a Física Quântica entre os anos 2010 e 2022” apresentado na Nova Zelândia. Para Rafaelle, há uma carência de pesquisas sobre o tema no Brasil, e o artigo propõe reflexões sobre a necessidade de adequar a linguagem e os recursos de comunicação científica a públicos não especializados.
E foi com essa ideia que surgiu a segunda edição do evento Semana Quântica, que abordou o tema “Conceitos, Experimentos e Aplicações”. A proposta foi transformar conceitos complexos da física quântica em conteúdos acessíveis, por meio de publicações nas redes sociais, e resultou na elaboração do livro digital "Desvendando o universo quântico", de Gabriel e Rafaelle.
No ano seguinte, a pesquisa ganhou um novo direcionamento. Foi escolhido como foco a valorização das mulheres na história da física quântica. Rafaelle conta que o projeto “Mulheres cientistas na física quântica”, foi desenvolvido com a participação da estudante Micaele dos Santos e abordou a invisibilização de grandes cientistas mulheres na história e a necessidade de promover uma divulgação científica que também combata as desigualdades de gênero, como informa a pesquisadora. “O trabalho foi apresentado no Encontro de Pesquisa em Ensino de Física (EPEF) e contribui significativamente para o fortalecimento da pauta de equidade nas ciências e estão disponíveis no site Get Up Science. A terceira edição da Semana Quântica trouxe uma abordagem inédita ao destacar a participação feminina na construção da física quântica buscando o reconhecimento e a valorização de mulheres que contribuíram de forma significativa para essa área do conhecimento", ressalta Rafaelle.
Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) celebra em 2025 o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quânticas. É por isso que neste ano a pesquisadora Rafaelle e o estudante Gabriel publicaram o artigo "Avaliação do conhecimento prévio sobre a física quântica de pessoas em meio web: uma análise utilizando escala Likert e alfa de Cronbach” que tem como objetivo avaliar o conhecimento prévio da sociedade sobre física quântica. Os resultados destacam a importância da educação pública no tema para uma melhor compreensão. "Recomenda-se investimentos em divulgação científica acessível, bem como abordagens regulatórias para mitigar os riscos associados ao mau uso dos conceitos quânticos", esclarece.
Mas sendo o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica, a 4ª Semana Quântica ganhou força quando foi contemplada na Chamada 26/2024 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
O tema será “A física quântica e as tecnologias do futuro”, com a conexão de conceitos teóricos às aplicações práticas, como computação quântica, criptografia e avanços na área da saúde e da energia.
O evento já está agendado para aconter de 22 a 26 de setembro, de forma híbrida, com palestras, oficinas práticas, exposições interativas e conteúdos digitais no Instagram, YouTube e Spotify. As inscrições já estão abertas e podem ser feitas aqui.
Materiais, resultados e conteúdos das edições passadas da Semana Quântica estão disponíveis no repositório digital colaborativo.
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Fotos: Acervo Pessoal
