Nova coletânea publicada pela Editora do IFBA reúne textos de Maria Beatriz Nascimento
O livro “Uma historiadora transatlântica – coletânea de textos de Maria Beatriz Nascimento”, publicado pela Editora do IFBA (EDIFBA) já está disponível gratuitamente para leitura e reúne escritos da historiadora, professora, poeta, roteirista e ativista do movimento negro Maria Beatriz Nascimento (1942–1995).
Organizada pelo professor Wagner Vinhas, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), campus Salvador, a obra reúne textos acadêmicos e políticos, artigos de opinião, poemas e roteiros que evidenciam a trajetória intelectual de Beatriz. Entre os destaques estão “Por uma história do homem negro”, “Negro e racismo”, “Sistemas sociais alternativos organizados pelos negros: dos quilombos às favelas”, “Conscientização da cultura afro-brasileira” e “A mulher negra no Brasil e o amor”.
Wagner explica no livro que a produção intelectual de Maria Beatriz é composta de temas relacionados à história do negro e, em especial, ao fenômeno do quilombo, à questão do racismo e à problemática da mulher negra. "No conceito de quilombo encontram-se, intrínsecas, reflexões sobre território, corporeidade e mulher negra, que assumem uma dimensão cada vez mais simbólica e significativa da identidade negra no Brasil. Nos anos 1990, Beatriz Nascimento já havia publicado um conjunto de textos em revistas acadêmicas de circulação nacional criticando a historiografia do Brasil, contestando a visão estereotipada do negro e defendendo uma revisão da história do país".
A obra é resultado de um trabalho coletivo que contou com a participação das estudantes e bolsistas do IFBA Ana Júlia Matos e Vanessa Borges, além da discente voluntária Aline Pereira. A produção teve apoio da Diretoria de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação (DPGI), da Diretoria de Extensão e Relações Comunitárias (Direc) e do Arquivo Nacional, instituição que guarda o acervo documental da autora. O projeto também recebeu apoio da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Discriminação no ambiente escolar e trajetória interrompida
Maria Beatriz Nascimento nasceu em Aracaju (SE), em 1942, e mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro. Formada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1971, especializou-se em História do Brasil pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e iniciou o mestrado em Comunicação na UFRJ, sob orientação de Muniz Sodré. Foi professora, pesquisadora e uma das vozes mais importantes na denúncia do racismo estrutural e na defesa da mulher negra como sujeito histórico. Sua trajetória foi interrompida tragicamente em 1995, aos 52 anos, vítima de feminicídio, ao defender uma amiga que sofria violência doméstica.
Na apresentação, o livro também revela aspectos da infância e juventude de Beatriz, marcadas por experiências de discriminação no ambiente escolar. Durante as aulas, presenciou episódios de racismo, como quando uma colega negra foi exposta à frente da turma para ser comparada à figura do anjo mau, enquanto uma menina branca era associada ao anjo bom. Em outra ocasião, ambas tiveram um trabalho recusado por suposta falta de capricho e foram afastadas de atividades de destaque, mesmo apresentando excelente desempenho escolar. "Depois de sucessivas experiências dessa natureza, a colega negra abandonou a escola, e, segundo relato de Beatriz Nascimento, tudo indica que ela foi mais uma a engrossar as estatísticas de crianças que não seguem a trajetória escolar – percurso esse que supostamente transformaria a sua situação social", detalha Wagner na apresentação da coletânea.
Livro como continuidade da pesquisa
O lançamento de "Uma historiadora transatlântica" dá continuidade à pesquisa de Wagner Vinhas sobre o pensamento e o legado de Maria Beatriz Nascimento. Em 2024, o professor publicou duas obras complementares: “Inventário analítico da coleção Maria Beatriz Nascimento” (Edifba), catálogo detalhado do acervo da intelectual sergipana, e “Ôrí: Por uma compreensão superior entre os povos e as culturas” (Editora Katuka), que apresenta o roteiro original do documentário Ôrí, dirigido por Raquel Gerber, com textos e narração de Beatriz. As três publicações formam um conjunto essencial para a preservação e difusão da memória intelectual e política de Maria Beatriz Nascimento, reafirmando sua relevância no pensamento social brasileiro.
Wagner Vinhas é professor de sociologia do campus Salvador, onde integra o Departamento de Sociologia, Psicologia e Pedagogia (DSPP). É graduado em ciências sociais pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), mestre em ciências sociais e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA.
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