Caminhos Amefricanos: professor do campus Salvador integra missão internacional na capital peruana

Uma roda de conversa com professores/as e uma mesa temática durante a Jornada das Relações Étnico-Raciais. Essas são algumas das ações planejadas após a participação do professor do Instituto Federal da Bahia (IFBA), campus Salvador, Erivaldo Nunes, na comitiva brasileira da missão internacional Caminhos Amefricanos – Programa de Intercâmbios Sul-Sul, edição Peru 2025, realizada entre os dias 24 de agosto e 7 de setembro, em Lima.
Essa comitiva foi composta por 50 docentes negros/as e quilombolas da educação básica, selecionados/as por edital do Ministério da Igualdade Racial (MIR), em parceria com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Dos 50, foram selecionados/as 11 docentes baianos/as e, desses, quatro da rede estadual, quatro da rede municipal de Lauro de Freitas, uma da rede municipal de Salvador e uma da rede municipal de Elísio Medrado (BA), além de Erivaldo, da rede federal de educação da Bahia. O propósito foi fomentar o desenvolvimento científico e tecnológico, além de ampliar a formação de professores para a educação antirracista no Sul Global.
Durante a missão, os/as participantes foram recebidos/as pela Embaixada do Brasil no Peru, pelo Instituto Guimarães Rosa e pelo Congresso da República do Peru. A programação incluiu ainda seminários na Universidad Nacional Mayor de San Marcos, visita guiada ao Museu Nacional Afroperuano, além de trocas de experiências em municípios como Serro Azul, San Antonio e San Luis de Cañete.
Para o professor Erivaldo Nunes, a experiência representou um marco pessoal e profissional: “Foi um encontro potente, ancestral e histórico para povos afrodiásporicos. O fato de o programa contemplar docentes de todo o território brasileiro, das redes federal, estadual e municipal, trouxe uma multiplicidade de experiências em torno de uma educação emancipatória e antirracista, fundamentais para a integração e cooperação educacional na América Ladina/Latina.”
"Améfrica Ladina" (com "d") é um conceito da intelectual brasileira Lélia González que propõe um olhar para a América Latina que enfatiza as matrizes africanas e indígenas, em contraposição à tradicional ideia de "América Latina" centrada na influência europeia-latina. O termo é um neologismo que busca ressignificar a identidade cultural da região, reconhecendo a diversidade de sua formação e as contribuições ocultas dos povos não-europeus. Lélia Gonzalez foi uma ativista e intelectual negra; denunciou o racismo e o sexismo como formas de violência que subalternizam as mulheres negras. O campus Salvador tem uma sala no terceiro andar do Bloco A que homenageia a pesquisadora.
Erivaldo destaca que estar no Programa não foi uma conquista pessoal mas uma formação continuada que será replicada dentro do campus Salvador. “Participei de seminários e visitas técnicas para conhecer o legado da cultura Afroperuana e os processos de luta contra o racismo. Eu também apresentei e troquei experiências com colegas brasileiros e peruanos sobre educação antirracista, e isso inclui minha atuação no IFBA”.
Mas essa não foi a primeira participação de um membro da nossa comunidade docente no Programa. Em novembro de 2024, a professora Deise Viana participou da primeira edição na Colômbia. Ela informou que durante o intercâmbio apresentaria as atividades e estratégias didáticas para uma educação antirracista a partir da sua experiência no IFBA.
O Programa Caminhos Amefricanos acontece anualmente em países da África, América Latina e Caribe, alinhado às Leis nº 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena nas instituições educacionais.
Na edição Lima-Peru 2025, a comitiva brasileira esteve sob a liderança do secretário de Política de Ações Afirmativas, Combate e Superação do Racismo, Tiago Santana, além da coordenadora-geral de Justiça Racial e Combate ao Racismo, Kátia Regis. Contou, ainda, com a coordenação da profa. Cidinalva Câmara, da Universidade Federal do Maranhão (NIESAFRO, LIESAFRO, PPGAFRO), de representantes do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e do Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (Clacso).
O IFBA e a educação antirracista
"Creio que a potência do IFBA e seus campi está justamente em ser uma instituição capaz de promover uma educação que combata e enfrente as mazelas do racismo institucional e os seus desdobramentos nas esferas públicas e privadas"
Erivaldo Nunes
Para o professor Erivaldo, a participação na missão internacional abriu possibilidades concretas de cooperação entre o IFBA, a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e a Universidad Nacional Mayor de San Marcos, no Peru. Ele ressalta que já há iniciativas na UFMA voltadas ao diálogo entre políticas e experiências do chamado eixo Sul-Sul, e acredita que o IFBA pode somar esforços por meio do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi), do curso de pós-graduação em Estudos Étnicos e Raciais (CPgEER), do projeto Mapa Cultural e da Escola Nacional Nego Bispo, iniciativa do Ministério da Educação cuja coordenação nacional é exercida pelo IFBA. Como perspectiva futura, o professor também destaca a importância da difusão da história da África e das culturas afro-brasileiras e indígenas nas reformas curriculares dos cursos técnicos integrados "previstas para ocorrer entre os anos de 2026 e 2027".
Sobre o contexto da educação antirracista, ele observa que o campus Salvador vem se destacando por suas ações integradas entre ensino, pesquisa e extensão. "Tenho notado a socialização entre professores/as envolvendo a área das ciências humanas, que vem procurando estabelecer interseções com o mundo do trabalho, com as artes, com a tecnologia, com os saberes tradicionais afro-indígenas. Me refiro as ações realizadas no campus Salvador que contemplam a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, a Jornada das Relações Étnico e Raciais, a Semana de Artes, Cultura e Esporte, o Simpósio de Gênero e Sexualidades, a Semana Indígena, o Congresso de Pesquisa e Extensão. Não se trata de vitrines acadêmicas e sim, espaços de promoção e difusão do conhecimento que devem incentivar uma educação antirracista, emancipatória e inclusiva. Creio que a potência do IFBA e seus campi está justamente em ser uma instituição capaz de promover uma educação que combata e enfrente as mazelas do racismo institucional e os seus desdobramentos nas esferas públicas e privadas".
Em sua avaliação, ser educador significa assumir uma postura ativa em defesa da diversidade, da equidade e da justiça social — princípios que devem atravessar todas as áreas do conhecimento. Ele enfatiza que a educação antirracista é uma necessidade urgente em países marcados pela diáspora africana, como o Brasil, e deve estar ancorada nos valores civilizatórios afro-brasileiros e dos povos originários, que priorizam o bem viver, o respeito à natureza e o cuidado coletivo. Para Erivaldo, a valorização dos saberes locais, das expressões artísticas, religiosas e culturais, é fundamental para construir práticas pedagógicas conectadas com as realidades regionais e comunitárias, fortalecendo o sentido de pertencimento e identidade na comunidade acadêmica.

Fotos: fotógrafa Maíta Alves e Arquivo Dicom
Texto: Divisão de Comunicação/Campus Salvador
