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Artigo sobre novo índice para medir tecnologia de software sai em periódico internacional

por Henrique Soares publicado: 07/12/2023 18h31, última modificação: 07/12/2023 18h35

O artigo "Digital Game-STRL: correlação entre os níveis de prontidão de tecnologia de software e as etapas de desenvolvimento de um jogo digital", escrito pelo pesquisador André Ferreira, do Departamento Acadêmico de Computação do campus Salvador, do Instituto Federal da Bahia, em parceria com a pesquisadora Núbia Ribeiro, atualmente em exercício no campus de Jequié, foi publicado na revista científica Cuadernos de Educación y Desarrollo (CED).

A pesquisa foi realizada durante dois anos. De acordo com André, trata-se do primeiro artigo no mundo a propor a criação de um novo índice, o DG-STRL, para medir o Nível de Maturidade de Tecnologia de Software - Jogos Digitais. Ele explica que o processo  de  amadurecimento  de  uma  tecnologia,  do momento em que é criada até quando já poderá suprir uma demanda existente no mercado é avaliada em níveis de maturidade  ou  prontidão.

“O software tem características únicas que tornam inerentemente desafiador o seu processo de avaliação quando comparado com os sistemas de hardware: Ele é intangível! Os  dados  e  informações  usados  para  medir,  monitorar, gerenciar e controlar o software são fundamentalmente diferentes. Em resumo, a proposição do Digital Games-STRL (DG-STRL) é altamente inovador, por ser a primeira proposta mundial a correlacionar os níveis STRL com as etapas de  desenvolvimento de jogos digitais, abrindo espaço para a medição do nível de prontidão dessa tecnologia”, destaca o pesquisador.

André explica, ainda, que o artigo foi disponibilizado na última sexta-feira (1º) e trata-se da primeira publicação relacionada ao tema. “Um protótipo de software mobile (MVP) foi apresentado para uma banca fechada (devido ao sigilo e à propriedade intelectual envolvida) demonstrando o cálculo do referido índice. Por essa razão, através desse artigo ocorreu a primeira apresentação do DG-STRL.”

Cuadernos de Educación y Desarrollo (CED) é uma revista de fluxo contínuo que publica artigos em todas as áreas do conhecimento. Seu objetivo principal é construir um espaço de debate multidisciplinar, contribuindo para a divulgação científica de estudos relevantes e inéditos.

 ENTREVISTA

"Um fator dificultador para o desenvolvimento de jogos digitais é a necessidade de pessoal com um maior nível de qualificação"

André Luiz Leite Ferreira

André Luiz Leite FerreiraCom a notícia da publicação do artigo de André Ferreira e Núbia Ribeiro, a Página do campus Salvador resolveu conversar com André sobre o potencial de crescimento dos jogos digitais e softwares na Bahia. André Luiz Leite Ferreira é doutor em Difusão do Conhecimento, pela Universidade Federal da Bahia e bacharel em Ciência da Computação pela Universidade Salvador. Em seu pós-doutorado, André pesquisou na Universidade de Coimbra sobre o ensino de competências empreendedoras e de estímulo à inovação no ensino superior. 

Página do campus Salvador - O artigo começa dizendo que “O  desenvolvimento  de  jogos  digitais  destaca-se  como um  setor  da  economia com grande potencial de crescimento e criação de empregos de alto nível.” Quais as perspectivas para a Bahia e como esse novo índice (DG-STRL) poderá facilitar o desenvolvimento de jogos digitais e softwares?

André Luiz Ferreira - A Bahia é reconhecidamente um celeiro de "mentes criativas". O próprio IFBA, através do curso Superior de Tecnologia em Jogos Digitais (presencial e a distância) campus de Lauro de Freitas, da Especialização em Desenvolvimento em Aplicações e Jogos Digitais (em fase de transformação para um Mestrado Profissional), que conta com docentes dos campus de Salvador e Lauro de Freitas, além de outras instituições ligadas ao tema, podem se beneficiar com essa nova métrica.

De acordo com as portarias Nº 4.693, de 23 de abril de 2021, do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) e  Nº 6.449, de 17 de outubro de 2022 (MCTI) instituiu o uso do Sistema de Medição e Identificação do Nível de Maturidade Tecnológica para todos os projetos a serem desenvolvidos sob o seu no âmbito e de suas unidades vinculadas. Uma vez que o desenvolvedor de jogos digitais pretenda buscar financiamento governamental (através dos seus mais variados agentes), ou participar de editais de financiamentos, ele, necessariamente, precisará apresentar o nível de prontidão tecnológica do seu projeto ou da sua proposta, como uma das etapas do processo seletivo ou de avaliação de crédito.

PCS - Parece que muitas pessoas veem os jogos digitais como objetos de entretenimento somente. Como os jogos digitais podem ser capazes de atender às nossas necessidades como sociedade e indivíduos? Que tipos de soluções são capazes de oferecer?

ALF - Os jogos digitais vêm sendo estudados e desenvolvidos sob vários aspectos. Embora a finalidade mais reconhecida seja o entretenimento, as áreas da saúde, educação e marketing de mercado, dentre outras, têm sido beneficiadas pelo seu uso. Particularmente, estou criando um Grupo de Pesquisa no campus de Salvador voltado para a Simulação de Ambientes Reais e Jogos Digitais. Tenho trabalhado o ensino de programação com alguns alunos no campus de Salvador através do desenvolvimento de jogos digitais. Em 2024, haverá uma sinergia entre esse grupo de pesquisa e o Grupo de Sistemas Embarcados, Controle e Eficiência Energética (GSECEE), grupo do qual também faço parte. Já imaginou o resultado da combinação de Jogos Digitais, com o Desenvolvimento de Projetos em Robótica?

PCS - Como nosso país poderia estimular os/as mais jovens a se prepararem para serem os/as futuros/as criadores/as de jogos digitais e softwares?

ALF - O grau de importância atribuído aos jogos digitais no Brasil é atestado tanto por pesquisas, quanto pelos censos acerca da Indústria Brasileira de Jogos Digitais (IBJD): a) I Censo da IBJD realizado em 2014 e 2018 (FLEURY; NAKANO; SAKUDA, 2014), e b) II Censo da IBJD realizado em 2018 (SAKUDA; FORTIM, 2018). Esses censos, além de levantar e consolidar as informações acerca da indústria global e nacional de Jogos Digitais, contribuíram para o desenho de instrumentos e ações de políticas industriais e tecnológicas para o referido setor (SAKUDA; FORTIM, 2018). Os registros decorrentes desses censos configuram-se como documentos norteadores das políticas públicas para jogos digitais no Brasil.

A geração de empregos e renda, inclusive em momentos de crise econômica, como o devido à pandemia do Coronavírus, vem sendo discutida a partir das experiências internacionais e acadêmicas, encontrando até justificativas para o envolvimento do Estado como agente impulsionador e promotor do setor de jogos digitais por meio de políticas públicas. Um fator dificultador para o desenvolvimento de jogos digitais é a necessidade de pessoal com um maior nível de qualificação. Por essa razão, o papel das Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs) na oferta de cursos técnicos, acadêmicos ou profissionalizantes (BRASIL, 2016) pode ser visto como o transbordamento da responsabilidade atribuída ao Estado – caso especial do Brasil, uma vez que um dos direitos sociais garantidos pela Constituição é a educação (BRASIL, 1988).

Assim, acredito que há diversos mecanismos capazes de promover e motivar os/as mais jovens a ingressarem nessa trilha de desenvolvimento pessoal, acadêmico e profissional. A adoção de políticas públicas, voltadas para o suporte e criação de cursos voltados para o desenvolvimento de software, não apenas os Jogos Digitais, a criação de editais específicos para essa área do conhecimento, o estímulo e suporte para a criação de Spin-offs, Startups, pelo menos por um período de até dois (2) anos após o desenvolvimento dos Trabalhos de Conclusão de Curso, auxiliaria bastante a travessia do temido "vale da morte" do mercado. Vale destacar as iniciativas realizadas pelo IFBA: a) através do seu Comitê de Inovação, tem se debruçado na elaboração de normativas institucionais voltadas para o desenvolvimento do Empreendedorismo e de Startups, bem como, b) A participação representativa (eu, como representante institucional da área de Computação e a professora Deise Piáu, diretora de Inovação, estamos como representantes do IFBA) no Comitê do Programa de Desenvolvimento Territorial - Prodeter, voltado às discussões e estímulo ao desenvolvimento de um hub de Tecnologia de Informação no estado da Bahia, o primeiro Prodeter numa região metropolitana.

PCS - Se o senhor fosse orientar um/a jovem que quer ingressar nesse mundo, que dicas daria? O curso de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas seria o melhor caminho para quem vai ingressar no ensino superior?

ALF - A primeira dica é: "o único lugar que sucesso vem antes do trabalho, é no dicionário".  Risos! O desenvolvimento de software (jogo digital, aplicação web ou mobile etc) requer prática, repetição, transpiração e foco. Ele ou ela precisam encontrar o seu ritmo de desenvolvimento, não ter medo de perguntar, pesquisar, errar e aprender!  Deve estar sempre disposto a aprender.

Mesmo não sendo docente do curso de ADS, acredito que ele seja uma das boas alternativas para o ingresso na área de Computação. Digo isso, pois os cursos tecnológicos apresentam um menor período de formação, costumam variar entre dois e três anos, são extremamente práticos, focados em desenvolvimento. Por outro lado, há também a trilha formativa na área de Jogos Digitais, para aqueles que desejam ser mais especializados. O que não mudará em relação aos cursos é a necessidade de dedicação dos indivíduos! Muita dedicação.

Foto: Acervo Pessoal