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Histórias de vida, arte e cultura surda movimentam festival

por Henrique Soares publicado: 17/04/2019 14h41, última modificação: 17/04/2019 14h41

Você sabia que um surdo pode dirigir com a mesma competência e capacidade de um ouvinte? Muitos puderam acompanhar na prática que os surdos não são inferiores aos ouvintes durante o II Festival de Arte e Cultura Surda. O evento foi realizado nos dias 8, 10 e 12 de abril no Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), campus Salvador.

Estudante do curso técnico em manutenção mecânica industrial, Cristian Seara relatou que sua história com os carros começou quando ainda era criança e já ia observando com atenção o pai dirigindo. Aprovado nos exames e tendo conquistado sua habilitação, Cristian lembra das preocupações do pai e da reação dos amigos quando iam sabendo que, mesmo surdo, é capaz de dirigir. O pai, por exemplo, se preocupava em como ele reagiria numa blitz.

“Se tiver um carro atrás de mim, eu vou sempre olhar pelo retrovisor. Se tiver ambulância ou polícia e estiver buzinando, vai buzinar mas também vai piscar ou acender o farol”, explicou. Ele destacou que muitas pessoas questionam como ele consegue dirigir e ainda se admiram. “As pessoas acham estranho mas é algo absolutamente normal”.

As reações não se resumem apenas ao fato de Cristian dirigir. Ele lembra que as pessoas se impressionam quando ele pedala. Um dos sonhos que o festival fez nascer na mente de Cristian, durante a apresentação da Banda de percussão Sal da Terra, foi se tornar o primeiro DJ surdo da Bahia.

Além de dirigir, os surdos também são capazes de realizar qualquer atividade como viajar sozinhos, estudar, casar e alcançar títulos de mestres e doutores, atuar como músicos, atores, advogados. ”A única diferença é a língua”, esclarece Gabriela Mattos, coordenadora do evento. “Quando aprendi Libras (Língua Brasileira de Sinais) eles atuavam como serviços gerais e caixas de supermercado. Os surdos despertaram e viram que podem estudar. O festival desperta a comunidade a aprender Libras e a entrar nessa cultura”.

Segundo Gabriela, a sociedade ainda vê o surdo como incapaz. “Os surdos sofreram muito. A sociedade acha que eles não falam, ainda insistem em chamá-los de surdos-mudos. As cordas vocais são perfeitas. Os que vão às sessões de fonoaudiologia desde cedo conseguem falar“.

A programação contou com piadas e brincadeiras em Libras, torneio de cubos mágicos, diálogos sobre a cultura surda, exposição de design de moda, banda de percussão Sal da Terra (surdos e ouvintes), apresentação da peça teatral em Libras "O Mundo das Bocas Mexedeiras", além de apresentações e aulas de forró com surdos.

A estudante Iasmin Lima, aluna do curso técnico de refrigeração e climatização, foi uma das que compareceu ao evento realizado em três dias no horário do almoço. Ela gostou da proposta e também assistiu a primeira edição que aconteceu em 2018. “Trouxe uma harmonia entre eles, o colégio e a população surda”. Ele disse que não tem surdos na turma mas que busca se comunicar com os colegas. Mesmo com pouco tempo disponível, a discente planeja aprender Libras.

O evento integra os Programas Universais e tem como objetivo mostrar a arte e cultura surda presente na instituição. Atualmente, o campus conta com 18 alunos surdos nas modalidades integrado e superior, dois formandos no curso técnico de eletrônica. A partir do próximo período letivo serão 25 alunos nas três modalidades (integrado, superior e subsequente). Além disso, são 20 intérpretes e um professor de Libras. O Centro de Idiomas do Departamento Acadêmico de Línguas Estrangeiras (Dale) realiza periodicamente um curso da língua no campus.

Assista o vídeo produzido pela TV IFBA (Núcleo de Audiovisual - Navi - Reitoria)