Memórias: Bárbara Carine recorda trajetória no Cefet-BA e os caminhos da educação pública
CAMPUS
Por Cristiano Oliveira

Por trás da professora universitária, escritora premiada e referência nacional na educação antirracista, existe uma adolescente da periferia de Salvador que caminhava quilômetros para estudar, vendia trufas para pagar o transporte e encontrou na educação pública a possibilidade de transformar a própria vida. Ex-aluna do então Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia (Cefet-BA), atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) - campus Salvador, a professora e escritora Bárbara Carine Soares Pinheiro relembra com emoção o período em que estudou na instituição, entre 2003 e 2005.
Hoje, Bárbara é professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutora em Ensino de Química, pesquisadora, consultora pedagógica e autora de livros reconhecidos nacionalmente. Em 2024, venceu o Prêmio Jabuti com a obra Como ser um educador antirracista e o prêmio Sim à Igualdade Racial 2026, além de sócia-idealizadora e consultora pedagógica da Escola Afro-Brasileira Maria Felipa, a primeira instituição de ensino no Brasil registrada sob o selo afro-brasileiro. Antes do sucesso, porém, precisou enfrentar o descrédito para conquistar uma vaga na escola em que cursou o ensino médio. “Quando eu dizia que queria estudar no Cefet, muitas pessoas riam de mim”, recorda.
O estudo como emancipação
"Quando vi meu nome ali, vi também o nome da minha mãe, da minha avó, da minha bisavó. Entendi aquilo como uma conquista coletiva", destaca Bárbara Carine.
Nascida em Salvador, Bárbara cresceu na Fazenda Grande do Retiro. Filha de uma mulher oriunda do quilombo Mocambo dos Negros, atualmente reconhecido como Itapura, no município de Miguel Calmon, ela viu no estudo um caminho de libertação. “Eu agarrei o estudo como se fosse a única alternativa da minha vida”, afirma.
A aprovação no Cefet-BA veio na segunda tentativa. Sem dinheiro para comprar o jornal com o resultado, a jovem caminhou sozinha do bairro onde morava até o Barbalho para conferir a lista no mural da escola. “Quando vi meu nome ali, vi também o nome da minha mãe, da minha avó, da minha bisavó. Entendi aquilo como uma conquista coletiva.”
Descobertas dentro e fora da sala de aula
Mais do que formação acadêmica, Bárbara define o IFBA como um espaço de crescimento humano e político. As memórias afetivas começaram logo no primeiro dia, durante o trote: ao tentar fugir da brincadeira, conheceu Laís Oliveira, que se tornaria sua melhor amiga até hoje. Esse laço se estende a um grupo no whatsapp de ex-alunos chamado “Diretoria do CEFET”, onde celebram conquistas e acompanham o crescimento dos filhos uns dos outros.
Apaixonada por esportes, ela era frequentadora assídua do ginásio. Mas foram os laboratórios e a biblioteca que traçaram seu destino. “Eu adorava os laboratórios. Não é à toa que depois fui fazer Química. Também amava a biblioteca; sempre gostei muito de ler.”
A escola que apresentou a cidade
O ingresso no Cefet-BA ampliou o horizonte geográfico de Bárbara. Até então, sua rotina se restringia à Fazenda Grande e à Liberdade. Com as idas ao Barbalho e com as atividades escolares, ela descobriu novos bairros “Conheci lugares como a Pituba e o Corredor da Vitória. Eu nunca tinha visto um bairro tão arborizado.”
As dificuldades financeiras, contudo, eram constantes. Sem dinheiro para o transporte, Bárbara chegava a caminhar 13 quilômetros entre a escola e sua casa. Para custear as passagens, vendia trufas no campus. Ela recorda com carinho o gesto de uma colega, Viviane, que certa vez lhe deu o dinheiro da própria passagem: “Ela disse: ‘você mora mais longe, hoje você vai de ônibus’. Foi o primeiro senso de quilombismo que vivi na vida.”
Formação política e referências marcantes
Foi na instituição que Bárbara despertou para sua identidade racial. Integrante do coletivo negro, ela começou a ressignificar suas vivências. A tradicional Praça Vermelha do campus tornou-se seu palco de debates e mobilizações.
Alguns professores foram cruciais nessa jornada. Ela destaca o Professor Vanderlei Lima (História), que a homenageou publicamente após uma nota alta: “Ele disse: ‘o nome dela tem som de tambor: Bárbara’. Hoje entendo que ele valorizava o esforço absurdo que eu fazia para estar ali”. Outra referência foi o Professor Deraldo Lima, descrito como performático: “Lembro dele declamando Navio Negreiro em cima da mesa. Era professor, mas também artista.”
“Quem sabe de você é você”
A experiência no Cefet-BA transformou a autoconfiança de Bárbara. “Eu não sabia que era capaz antes de passar por ali”, pontua. Anos depois, já na universidade, uma professora sugeriu que ela não conseguiria o mestrado por não falar inglês. Bárbara ignorou a descrença, tentou e passou.
Com 14 livros publicados, incluindo os finalistas do Jabuti Descolonizando Saberes e História preta das coisas, ela segue defendendo uma educação crítica. Para os jovens que hoje ocupam as cadeiras que um dia foram dela, o recado é direto: “Persiga os seus sonhos. Quem sabe de você é você.”
Imagens: Arquivo Pessoal
Arte: Dicom
*Cristiano Oliveira é bolsista da área de jornalismo do campus Salvador.



