Em ato de resistência pelo Dia das Mulheres, Reitoria realiza “18M - IFBA pela Educação e contra o Feminicídio”
Por Carla Emile
Colaboração: Luize Meirelles
Edição final: Bárbara Souza
Na última quarta-feira, 18 de março, foi realizado na Reitoria do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), em Salvador, o evento “18M - IFBA pela Educação e contra o Feminicídio”. A programação contou com a exposição artística “Flores que não murcham: Memória, Vida e Enfrentamento à Violência contra a Mulher”, roda de conversa e apresentação do Projeto Banco Vermelho pelo feminicídio zero.
"Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180 . Vou entregar teu nome e explicar meu endereço. Aqui você não entra mais, eu digo que não te conheço (...) Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim" (Maria da Vila Matilde - Elza Soares)
O 18M faz parte da programação do Mês das Mulheres, durante o qual o IFBA promove o Dia D de Prevenção ao Feminicídio, momento dedicado à sensibilização da comunidade acadêmica sobre as causas estruturais da violência de gênero e a importância da prevenção. Participaram do evento a reitora do Instituto, Luzia Mota, a assessora técnica da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Bahia (SPM/BA), Cândida Silva, servidores(as) efetivos(as) e terceirizados(as) do IFBA.
“O IFBA é uma instituição completamente integrada à sociedade. Então nós não podemos nos distanciar das lutas, dos problemas e dos desafios que a sociedade traz”, declara Luzia Mota. “O IFBA precisa se posicionar em relação a essas lutas que vão levar à igualdade entre homens e mulheres, que é a nossa luta principal. Não é porque, no caso atual, nós temos uma reitora que é uma mulher, que significa dizer que nós avançamos na presença das mulheres na gestão pública, por exemplo. Às vezes, há exceções que só confirmam a regra. E a regra é nos espaços de poder ter uma baixa presença de mulheres. E é nisso que nós temos que refletir e avançar, para que a gente possa ter as mulheres em todos os espaços, na proporção que ela tem a representação da sociedade”.
A reitora também ressaltou a importância do IFBA, como uma instituição de ensino, pesquisa e extensão, ter um papel importante na luta pelo enfrentamento à violência contra a mulher: “Não é à toa que o próprio Governo Federal lançou um pacto contra o feminicídio [Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios] e nós, com este 18M, estamos nos integrando a essa luta brasileira pela vida das mulheres. A vida, porque sem a vida elas não poderão estar nos espaços que elas querem. Então, a vida é o ponto material que nós mais precisamos defender nesse momento. E o 18M vem para isso, para fazer essa defesa da vida”.
A palestrante da roda de conversa, que teve como tema “Cuidado como forma de resistência”, e assessora técnica da SPM/BA, Cândida Silva, relembra as barreiras existentes entre o cuidado e as mulheres: “A gente vive o desafio das mulheres que não se reconhecem como necessitadas de cuidado. Dificilmente a gente pensa em ser cuidada. Eu não posso parar para lavar o cabelo hoje porque eu preciso pegar meu filho na escola, fazer comida. A gente precisa de um trabalho que é muito mais desafiador, porque a gente precisa reconstruir cultura, novas culturas com as mulheres, para que elas se permitam ser cuidadas. Muitas mulheres só são cuidadas no processo de adoecimento”.Para Cândida, por mais que seja um desafio, é possível construir essa nova cultura. “Quando a gente está em meio a mulheres que se cuidam, a gente vê que tem um futuro, a gente comunica para as nossas mais novas. Se eu me cuido e minha filha vê que eu me cuido, é uma nova geração de mulheres que vão se cuidar”, enfatiza a assessora, que finalizou dizendo que “a gente precisa dar esse primeiro passo, apesar de todo o desafio, porque a gente constrói para as novas gerações. Talvez as nossas não tanto, mas para as novas gerações acho que vai acontecer, sabe? Se a gente insistir em se cuidar”.
Segundo a coordenadora do Memorial do IFBA e curadora da Exposição, Tassila Ramos, a instalação traduz o alto índice de violência contra a mulher no país. “A gente retrata isso nessa amostra, que a gente finaliza o dia com quatro mulheres mortas. São quatro mulheres mortas por dia no Brasil. Na Bahia, uma. E no mundo, dentre 196 nações, o Brasil está em quinto lugar. Então, essa amostra revela esse impacto que a gente tem que ter com esses dados e falar sobre. A gente é uma instituição de educação que tem que falar sobre isso, educar esses meninos que vão se tornar homens para não cometer esse tipo de crime”, frisou a gestora."Disfarça e segue em frente, todo dia, até cansar (uhu!) E eis que de repente ela resolve então mudar. Vira a mesa, assume o jogo, faz questão de se cuidar (uhu!)
Nem serva, nem objeto, já não quer ser o outro, hoje ela é um também" (Desconstruindo Amélia - Pitty)
Tassila também falou sobre o significado da exposição e o que ela representa: “Eu pensei nas flores que não murcham, porque a gente sabe que flores naturais murcham. Então, a gente fez com flores permanentes, que não murcham, para mostrar que essas flores são vidas, vidas que não podem ser abominadas por conta da violência e do feminicídio”, contou. “A gente pensou mais adiante, em mostrar as duas vidas: as flores vermelhas, as vidas que são perdidas pelo feminicídio e pela violência, e as flores brancas, vidas que estão preservadas. Não só preservadas pelas ações de políticas públicas de proteção às mulheres, mas também pela conscientização. Então, o foco foi basicamente esse. Ter duas cores de flores para representar essas duas polaridades”. A Exposição é aberta ao público e vai permanecer no Instituto até o final do mês de maio.
Projeto Banco Vermelho
Aprovada em 2024, a Lei 14.942/24 altera a Lei nº 14.448, de 9 de setembro de 2022, para prever o Projeto Banco Vermelho, ações de conscientização em lugares públicos e premiação de projetos no âmbito do Agosto Lilás, mês destinado à conscientização para o fim da violência contra a mulher.
“O Projeto Banco Vermelho, que consiste na instalação de pelo menos 1 (um) banco na cor vermelha em espaços públicos de grande circulação de pessoas, do qual constarão frases que estimulem a reflexão sobre o tema e contatos de emergência, como o número telefônico da Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180, para eventual denúncia e suporte à vítima”, define a legislação aprovada em julho de 2024.
"Acabei com tudo, escapei com vida (...) / Eu sei que flores existiram / Mas que não resistiram
A vendavais constantes / Eu sei que as cicatrizes falam, mas as palavras calam o que eu não me esqueci" (Fera ferida - Caetano Veloso)
“As instituições podem fazer parceria com o projeto e solicitar esse banco. Ou se não, a própria instituição pode realizar o seu próprio banco. E esse banco, toda vez que ele está instalado em algum local, é para lembrar que mulheres sofrem violência, que mulheres são mortas por conta dessa violência e da misoginia, e é um espaço para se refletir sobre o assunto e também agir. A instalação do banco é para causar esse impacto mesmo”, revela Tassila.
“O papel do IFBA é muito importante socialmente”, disse a chefe da Coordenação de Inclusão e Acessibilidade (Ciac), vinculada à Diretoria de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis (Dpaae), Livia Carvalho, ao comentar sobre o papel do IFBA frente à realidade atual das mulheres baianas. “Sendo uma instituição de educação, nós estamos aqui para empreender as pessoas, as mulheres principalmente, empreendê-las de uma cultura formativa, uma cultura educacional, que permita a elas o reconhecimento dos seus valores. O papel desse instituto, eu vejo e acredito que é o fortalecimento do poder das mulheres e o empreendimento na educação, no processo formativo que elas queiram, no processo formativo que elas desejem dentro do que a instituição possa lhe oferecer”, ponderou Livia. Já para a terceirizada Laila Assis, lotada na Dpaae, “o mês de março significa força, representação e afirmação de que a mulher há muito tempo deixou de ser só um sexo frágil. A mulher é força, a mulher consegue. Sem a mulher não existe o mundo. A mulher, ao mesmo tempo que ela sabe ser flor, ela sabe ser espinho, ela sabe lutar, ela sabe recuar. E eu acho que não deveria ser só março, deveria ser todos os meses. A mulher é toda a potência, toda a força da natureza, da humanidade que existe, sabendo equilibrar a doçura e um pouco mais do rígido. A mulher é o equilíbrio de todo mundo. É a partir da mulher que tudo se começa”, afirma Laila.Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios
O Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios foi instituído em 16 de agosto de 2023, pelo Decreto nº 11.640/2023, com o objetivo de prevenir todas as formas de discriminação, misoginia e violência de gênero contra mulheres e meninas, por meio da implementação de ações governamentais intersetoriais, com a perspectiva de gênero e suas interseccionalidades.
Previsto para funcionar como um instrumento de articulação e operacionalização dos objetivos, diretrizes e princípios constantes da Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, o Pacto envolve várias áreas do governo federal com a coordenação do Ministério das Mulheres, prevê a adesão de estados e municípios e a participação do conjunto da sociedade.






