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Doutorandas do IFBA desenvolvem projetos em universidades chilenas

Maria Daboin e Kezia Gonzaga, do Doutorado em Difusão do Conhecimento, desenvolvem no Chile projetos aprovados em editais de internacionalização. A realização de pesquisas em outros países fortalece as ações de internacionalização da Pós-Graduação do IFBA.
publicado: 07/06/2024 16h46, última modificação: 11/06/2024 08h47

Por Gilberto Amorim*

Duas doutorandas do Grupo de Estudo e Pesquisa em Ensino e Aprendizagem de Ciências (Gepeac) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) estão desenvolvendo, no Chile, projetos aprovados em editais de internacionalização. Maria Daboin, contemplada em edital da Capes, está na Universidade Bernardo O'Higgins, localizada na capital chilena, e Kezia Gonzaga, com o apoio de edital da Assessoria de Relações Internacionais (Arinter), desenvolve estudos na Universidade de Concepción, na cidade de Concepción. As estudantes estão cursando o Doutorado em Difusão do Conhecimento e são orientadas pela professora Ana Chiara, do campus Simões Filho.

Licenciada em Educação: Menção Ciências Pedagógicas e com especialização em Psicologia Cognitiva na Universidade Católica Andrés Bello/Venezuela (UCAB), além de mestrado no Brasil pela Universidade Estadual de Feira de Santana na Bahia (UEFS), onde foi a primeira estrangeira a defender dissertação naquele programa de pós-graduação, a venezuelana Maria Daboin tem como tema da tese de doutorado “Razões para a permanência dos estudantes no curso de pedagogia em uma universidade pública da Bahia, Brasil”, e como tema da pesquisa do doutorado Sanduíche “Formação de professor. Um estudo de caso sobre a permanência dos estudantes da licenciatura em pedagogia no Brasil e no Chile."

Maria Daboin, no centro da foto, de blusa clara e óculos. (Foto: acervo pessoal)

Nascida em Itabuna, Kezia Gonzaga concluiu, em 2012, o curso em Tecnologia de Alimentos e Bebidas, pelo IFBA campus Porto Seguro. Em 2013, a itabunense iniciou o curso de Licenciatura em Química também no campus Porto Seguro. Já o mestrado em Ensino de Ciências foi realizado na Universidade Estadual de Goiás (UEG). A trajetória acadêmica de Kezia, que tem como tema de estudo no doutorado “Conhecimentos químicos e tradicionais presentes na Comunidade indígena dos pataxó, em Porto Seguro Bahia”, tem sido pautada no estudo da Etnoquímica. “Durante a graduação, investiguei se as escolas em Porto Seguro abordavam o tema da Etnoquímica, conforme exige a Lei 11.645/08. Os resultados dessa pesquisa, que foram apresentados no meu TCC, foram posteriormente publicados em um artigo científico. Esta investigação evoluiu para minha pesquisa de mestrado, que abordou a questão: como integrar a história e cultura indígenas nas aulas de ciências exatas, como a Química? Para isso, desenvolvi um e-book com 10 roteiros de aulas práticas de química laboratorial 2 , incluindo links que inserem a história e cultura indígena brasileira. No doutorado, o próximo passo está sendo visitar aldeias indígenas e registrar, através da etnografia exploratória, os elementos da Química que são vivenciados no dia a dia das comunidades”, disse. A pesquisa de Kezia no doutorado também tem co-orientação do professor André Martins.

Kezia Gonzaga (Foto: Acervo pessoal)

Para Ivanildo Santos, pró-reitor de Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação (PRPGI), o fato de as doutorandas do IFBA realizarem o doutorado Sanduíche no Chile fortalece ações de internacionalização da Pós-Graduação do Instituto. “O Programa Institucional de Doutorado Sanduíche no Exterior - PDSE, da Capes, é um programa que tem em um dos seus objetivos auxiliar no processo de internacionalização do ensino superior, bem como da ciência, tecnologia e inovação brasileiras. Além disto, exige-se que a instituição, por meio da sua Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Coordenação do Programa de Pós-Graduação, conduza o processo de seleção alinhado com o seu plano de internacionalização. Assim sendo, de fato, a realização do doutorado Sanduíche constitui-se como o resultado do alinhamento de políticas institucionais (da Capes e das Instituições de Ensino Superior - IES), que fortalecem a internacionalização da Pós-Graduação do nosso IFBA.  Sem essa Política da Capes, com as limitações de recursos financeiros que temos experimentado nas IES, seria pouco provável que o IFBA conseguisse impulsionar essa internacionalização da nossa Pós-Graduação, a qual está nos sendo oportunizada pelo PDSE”, conta. 

“O Chile é muito conhecido pelo seu grande sucesso na América Latina em nível de Educação. Recentemente, a Capes divulgou um edital destacando a importância da produção científica nas Américas e o nosso foco é pensar que a América Latina produz conhecimento, a América do Sul tem experiência, tem boas universidades. Essa é uma troca que vai ao encontro dos objetivos de internacionalização da Capes"
Ana Chiara, professora do Programa de Pós-Graduação em Difusão do Conhecimento

Ivanildo destaca que o requisito para concessão de quantidade de bolsas da Capes aplica-se ao Programa de Pós-Graduação (PPG). “Segundo a Portaria Capes nº 77, de 8 de março de 2024, que dispõe sobre o Regulamento do Programa Institucional de Doutorado Sanduíche no Exterior - PDSE, o PPG da Instituição deve 'ter curso de doutorado com nota igual ou superior a quatro na última Avaliação Quadrienal da Capes. Programas de doutorado novos, aprovados após a Avaliação mais recente da Capes, poderão submeter proposta desde que tal programa já tenha sido reconhecido pela Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação - CNE'. Para o IFBA, este requisito é cumprido pelo PPGDC [Programa de Pós-Graduação em Difusão do Conhecimento]. Segundo dispositivo do último edital 'o número total de bolsas será calculado considerando uma bolsa por programa de pós-graduação com nível de doutorado com nota igual ou superior a 4 (quatro) na última Avaliação Quadrienal da Capes', requisito atendido pelo PPGC. A Capes, a seu critério, eventualmente, contempla mais de 01 cota para esses PPGs”, pontuou. 

Professora Ana Chiara (Foto: acervo pessoal)
Ana Chiara, docente do campus Simões Filho no Programa de Pós-Graduação em Difusão do Conhecimento (PPGDC) e orientadora de Maria e Kezia, acredita que a presença de suas orientandas no Chile amplia os horizontes do IFBA para além das fronteiras da Bahia e do Brasil. “O Chile é muito conhecido pelo seu grande sucesso na América Latina em nível de educação, então, é muito interessante essa troca. Recentemente, a Capes divulgou um edital destacando a importância da produção científica nas Américas e o nosso foco é pensar que a América Latina produz conhecimento, a América do Sul tem experiência, tem boas universidades. Essa é uma troca que vai ao encontro com os objetivos de internacionalização da Capes, que é a divulgação e a produção de pesquisas nas Américas, no nosso caso específico, América do sul, por isso, o Chile é um ponto crucial para nós”, disse. Ana Chiara ainda pontua que o intercâmbio cultural fortalece a Instituição e amplia as possibilidades de parcerias.“Estar além das fronteiras é um grande desafio porque o custo é alto, mas ao mesmo tempo o retorno é muito grande. O nosso interesse é que venham professores chilenos para cá produzir palestras, dialogar conosco. E que nós também tenhamos espaços lá para divulgar os nossos trabalhos em congressos. Os resultados são os mais profícuos possíveis”, acrescenta. 

Paula Oliveira, assessora de Relações Internacionais do IFBA, acredita que a experiência das doutorandas fora do Brasil reforça a importância do fomento institucional à internacionalização do IFBA, pois, entende que uma vez impulsionada, a internacionalização reverbera em diversas outras frentes e frutos que, em conjunto, contribuem para o desenvolvimento do Instituto. “Esse intercâmbio, que certamente não será apenas geográfico, mas deverá abranger troca de conhecimentos, será de grande valor para a consolidação da Internacionalização da pós-graduação do IFBA. No âmbito do doutorado, as trocas acadêmicas tendem a ter um impacto mais profundo, geralmente com o desenvolvimento de pesquisas e produtos. O IFBA só tem a ganhar”, disse. 

Sobre as expectativas após o retorno de Maria e Kezia, Ana Chiara acredita que as doutorandas devem voltar com o nível de qualificação ainda mais elevado. “As experiências delas serão multiplicadas no grupo de pesquisa. Elas trarão olhares diversos para as produções do conhecimento que estão sendo realizados. A expectativa é também de criar uma relação estreita com os pesquisadores do Chile para que a gente possa intensificar e quem sabe produzir projetos em cooperação”, concluiu. 

Maria chegou ao Chile em abril e deve retornar ao Brasil no início de agosto. A previsão é que a estadia dure por volta de 120 dias. Por ter sido contemplada com a bolsa da Capes, a doutoranda conseguiu suporte no pagamento de passagens aéreas, contribuição para seguro de saúde e mensalidades do período no exterior. Kezia ficará 12 dias em terras chilenas . Ela chegou em 24 de maio e retornará ao Brasil no próximo dia 11 de junho. A doutoranda conseguiu apoio no Edital n°. 006/2022, da Arinter, que tem por objetivo fortalecer as ações de internacionalização do Ensino, Pesquisa, Extensão e Inovação, consolidando e ampliando a visibilidade internacional do IFBA. A estudante foi contemplada com auxílio transporte e hospedagem.

O Portal do IFBA fez algumas perguntas para Maria e Kezia sobre as suas teses e a experiência no Chile. 

Portal do IFBA: Se fosse explicar para uma criança a importância da sua tese de doutorado para a sociedade, como seria a sua explicação?

Maria Daboin: Se eu fosse explicar para uma criança a importância de minha pesquisa, eu diria que é muito importante à formação dos professores que vão lhe ensinar na escola para facilitar experiências de aprendizagem para a vida e para ter um melhor futuro, porque as crianças são a esperança da sociedade pelo qual precisamos mais e melhores professores.

Kezia Gonzaga: Imagine que você tem um quebra-cabeça gigante, e cada peça representa um pouco do conhecimento que temos sobre a Química, que é uma ciência. Os povos indígenas, como os Pataxó em Porto Seguro, têm muitas dessas peças que são muito importantes, especialmente sobre a química das plantas e da alimentação. Minha pesquisa é como se eu estivesse ajudando a colocar essas peças no lugar certo no quebra-cabeça da Química, para que todos possam ver a imagem completa e verdadeira. Porque, muitas vezes, as histórias que aprendemos na escola não mostram todas essas peças e não contam o quanto os povos indígenas são importantes e inteligentes nesse quebra-cabeça gigante. Ao fazer isso, estou mostrando como os Pataxó sabem muitas coisas sobre a natureza que podem nos ajudar a cuidar melhor do nosso planeta. Não estou pegando essas peças para mim, estou apenas ajudando a mostrar a verdadeira imagem que elas formam, para que todos possam aprender e valorizar a sabedoria dos povos indígenas.

Portal do IFBA: Como está sendo a sua experiência no Chile? Poderia destacar um ou alguns pontos em relação à cultura chilena que chamou/chamaram a sua atenção?

Maria: A experiência tem sido muito boa, o povo chileno é muito acolhedor e professores e estudantes da Universidade Bernardo O´Higgins tem sido receptivos e colaboradores. Na Universidade Bernardo O´Higgins tenho sido convidada para muitas e variadas atividades principalmente pela Dra. Maria Angélica Torre,s diretora da Escola de Educação, e o Dr. Diego Allende, coordenador de Educação Básica Geral, como, por exemplo: a celebração do dia do patrimônio e também visitas a escolas de populações em situação de vulnerabilidade econômica e social, sendo recebida com muito carinho pelas crianças, professores e outras pessoas daquelas comunidades. No que tange a cultura chilena, é marcada pela sua historia presente nas edificações antigas, parque, praças e museus. No referente a música, suas canções mais populares refletem nas suas letras histórias de amor, vida e luta, e na culinária achamos uma mistura de costumes europeias e indígenas que resultam em saborosos pratos típicos como o “pastel de choclo”, que lembra o “escondidinho brasileiro”, mas feito com milho e recheio de carne. O mais difícil nesta experiência foi me acostumar com o frio intenso. Quase tive que sair correndo para comprar roupas mais quentes.

Foto: Arquivo pessoal de Maria Daboin.

Foto: Arquivo pessoal de Kezia Gonzaga.

Kezia: Minha experiência no Chile tem sido uma das mais incríveis da minha trajetória acadêmica. Além de tornar minha pesquisa internacional, estou tendo a oportunidade de ver e aprender uma nova cultura de perto. A cultura chilena é extremamente amável e receptiva, o que tem tornado essa experiência ainda mais enriquecedora. Um aspecto que realmente chamou minha atenção foi a cultura Mapuche, um povo tradicional originário do Chile. Realizamos uma visita etnográfica a uma aldeia Mapuche, e fiquei maravilhada ao ver a quantidade de química presente nos seus conhecimentos sobre plantas, alimentação e rituais. A sabedoria que eles têm sobre o uso de recursos naturais é fascinante e mostra como a química está profundamente enraizada nas práticas culturais e cotidianas desses povos. Essa vivência está não só ampliando meus horizontes acadêmicos, mas também me permitindo entender a importância de valorizar e aprender com os conhecimentos tradicionais Mapuche, que muitas vezes são subestimados, tal qual como os conhecimentos indígenas, no Brasil. Outro fator surpreendente foi o cuidado, apoio e dedicação da professora de Química, Dra. Doris Ruiz. Ela não apenas tem me orientado no Chile, como também me acolheu e me acompanhou em visitas a aldeias Mapuches. Além disso, ela fortaleceu a parceria entre o IFBA e a Udec, contribuindo significativamente para o desenvolvimento da minha pesquisa.

Portal do IFBA: Como aprendeu a falar espanhol? Fez algum curso? Alguma novela, série ou filme te motivou a aprender essa língua? 

Maria: Eu sou falante nativa de espanhol [é venezuelana] e tive que aprender a falar e escrever português no principio através do curso de português para estrangeiros da UEFS, e logo com muitas leituras e prática na vida cotidiana. Eu me sinto grata pelo processo de internacionalização que me permitiu, sendo estrangeira, estudar nas IES do Brasil e participar no processo seletivo para a bolsa de Doutorado Sanduiche da Capes.

Kezia: Venho desenvolvendo uma aproximação com o espanhol através de aulas particulares com o professor Moisés Sant’ana, conhecido como o “black teacher”, que auxilia diversos outros alunos universitários a internacionalizarem suas pesquisas através do domínio da língua. 

Portal do IFBA: Quais são as suas expectativas em relação às pesquisas realizadas após o retorno ao Brasil? 

Maria: Eu devo apresentar e defender a tese de doutorado neste ano 2024. Além disso, espero que como resultado da experiência no Chile se gerem novas pesquisas e artigos científicos com a participação de professores e pesquisadores de ambos países. Também desejo que seja feito um acordo de cooperação entre o IFBA-Brasil e a UBO-Chile.

Kezia: Ao retornar ao Brasil, minha orientadora e eu planejamos documentar e publicar os achados da minha experiência no Chile. Nossa intenção é compartilhar esse conhecimento com a comunidade acadêmica por meio de revistas eletrônicas e outras plataformas. Acreditamos que esses insights serão valiosos para outros pesquisadores, enriquecendo a compreensão sobre a cultura e os conhecimentos tradicionais que estudamos, e contribuindo para o avanço das pesquisas na área.

Sobre o Programa Institucional de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE)

O Programa Institucional de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE), oferecido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), visa fomentar o intercâmbio científico e a qualificação acadêmica de discentes do Brasil, por meio da concessão de bolsas no exterior na modalidade Doutorado Sanduíche.

 *Sob supervisão da jornalista Bárbara Souza.