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IFBA promove série de homenagens ao Dia da Mulher

Com transmissão da TV IFBA, o evento realizado na Reitoria discutiu temas como educação, territorialidade e protagonismo das mulheres indígenas educadoras.
publicado: 11/03/2022 16h53, última modificação: 11/03/2022 16h53

Por Maria Gabriela Vidal, com colaboração de Sidney Andrade Matos

Edição: Janaína Marinho

Fotos: André Almeida

“Mulheres de Olho: Desafios Contemporâneos”. Essa foi a temática que conduziu um encontro formado por mulheres que reconhecem a importância da data associada ao Dia Internacional da Mulher, mas sabem que seu significado transcende parabenizações e homenagens. Realizado na última terça-feira (8) no Espaço Cultural 2 de Julho, na Reitoria do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), com transmissão ao vivo pela TV IFBA, o evento celebrou a data sem ocultar os desafios das mulheres em uma sociedade notadamente marcada pelo patriarcalismo e machismo. A cerimônia integra um conjunto de ações previsto até o dia 25 de julho, quando é celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela.

Após a homenagem a Elza Soares, com a entoação da canção “Mulher do Fim do Mundo”, o evento foi conduzido pela chefe do Departamento de Cultura, Esporte e Lazer (Dacel), da Pró-Reitoria de Extensão (Proex), Soraia Brito, e foi composta uma mesa com Thiffany Odara, Yalorixà do terreiro Oya Matamba; Marilene Pataxó, Pedagoga e técnica na Coordenação Escolar Indígena da Secretaria de Educação do Estado da Bahia; Maria de Lourdes da Conceição Nascimento, membro do Movimento social da Península de Itapagipe e Waneska Cunha dos Anjos, docente do IFBA Campus Feira de Santana. A reitora Luzia Mota não pôde estar presente por motivos de saúde e foi representada pela chefe do Departamento de Ensino Técnico, Indaiara Silva. O evento contou ainda com a apresentação artística de Karine Alves, acadêmica do BI de Humanidades da Ufba, que recitou o poema “Seremos Elza”. (confira o poema na íntegra abaixo).

 “A cada ano penso que as felicitações relacionadas ao 8M vão diminuir, mas não. Em meio à enxurrada de flores, eu penso comigo mesma: ‘será que essa avalanche de mensagens que enviamos e recebemos todos os anos expressam um avanço nas práticas cotidianas que reduzem as desigualdades de gênero ou expressam uma espécie de consciência ingênua, fruto da banalização das condições desumanas a que estamos submetidas em casa e no trabalho?”, questionou a professora Indaiara, que também destacou a posição de liderança em que estão as servidoras do IFBA. “Na gestão da professora Luzia temos números que se reverteram. É preciso falar das 205 servidoras em cargos de gestão, 472 servidoras com mestrado, 193 servidoras com doutorado”, citou Indaiara, destacando o compromisso da instituição em reduzir as desigualdades entre os gêneros no IFBA.

Por meio da história de vida das convidadas que participaram deste primeiro evento ficou evidenciado que o 8M é uma data política. Imbuídas da simbologia da data, as convidadas puderam dividir as próprias histórias de lutas enfrentadas.

“O relato que vou contar aqui não é só uma história minha, é a história que me salvou”, iniciou Maria de Lourdes, membro do Movimento social da Península de Itapagipe. Como moradora antiga do local, ela relembrou a disposição das mulheres frente ao poder público e a reivindicação de melhorias: "As mulheres sempre estiveram à frente. Foram elas que exigiram que ali tivesse uma escola, um posto de saúde. Foram elas que deram origem às chamadas Mulheres da Laje”, contou Maria, em referência ao movimento de união entre mulheres que buscam construir uma ponte, por meio da Educação, para as crianças e jovens dos bairros da Península de Itapagipe.

Em representação às mulheres indígenas, a pedagoga Marilene Pataxó destacou que para este grupo a luta é ainda mais árdua. “Nós, povos indígenas, sabemos da ignorância de como são passadas as informações sobre a nossa cultura. Então falar da mulher indígena hoje é falar de resistência”, declarou Marilene, que ressaltou ainda a pouca visibilidade das mulheres indígenas na sociedade. “Aos poucos nós mulheres indígenas vamos ocupando espaços de lideranças, mas ainda precisa muito para que a sociedade nos dê esses espaços. Então a violência que vocês mulheres não indígenas sofrem, nós também sofremos e muitas vezes não são faladas, sofremos em silêncio”, confessou.

Inspirada no artigo “A quem interessa minha dor: travestis negras em primeira pessoa”, a Yalorixà do terreiro Oya Matamba, Thiffany Odara também pôde dividir a sua vivência. “A data 8M é um dia para se pensar as mulheridades possíveis, existentes, imagináveis, mulheridades que existem e resistem diante de uma sociedade forjada pelo colonialismo cis hétero normativo”, destacou. Como porta-voz de uma “maioria silenciada”, como mesmo pontuou em seu discurso, Thiffany chama a atenção para o histórico do Brasil diante de travestis e mulheres transexuais. “Falamos de um golpe de existência que é legitimado pela Europa desde 1500. O processo de desmatamento, usurpação e de negação de outras possibilidades de existência existe no Brasil desde quando éramos colônia. Precisamos reconhecer que esse processo de desumanização nos mata diariamente até os dias atuais”, complementou Thiffany ao reconhecer a própria simbologia que carrega em si: “meu corpo por si só fala”.

Também à mesa, a docente do IFBA do Campus Feira de Santana, Waneska Cunha pôde compartilhar as barreiras enfrentadas pela mulher sob a sua perspectiva. Classificadas por ela como “vítimas preferidas”, Waneska problematizou os desafios atuais. “Sobreviver nessa cidade que nos mata todo dia é um ato político. Vivemos uma guerra civil cotidiana”, pontuou Waneska, ao destacar a realidade ainda mais dura frente aos corpos negros. “Precisamos confiar na força das nossas mulheres, das nossas ancestrais. Quando uma de nós avança é uma vitória coletiva, é um sinal de que estamos reescrevendo nossas histórias”, expôs a professora.

Contempladas pela fala das convidadas, as alunas egressas do IFBA Campus Santo Amaro, Tais Regina e Jaíne Santos, refletiram sobre a importância do evento. “Esse momento aqui no IFBA me fez pensar sobre o meu lugar de fala e onde quero estar. Me reencontrei comigo mesma”, afirmou Taís, atual graduanda em Direito. “Pudemos ter uma diversidade de mulheres nesta mesa. Me senti representada e mais forte para reivindicar o que é meu por direito”, completou Jaíne, que hoje estuda Enfermagem.

O encerramento do evento contou com uma apresentação artística de uma das integrantes do grupo Sambadeiras de Cajazeiras, ao som de “Água da Minha Sede'', canção de Zeca Pagodinho, interpretada pela cantora Roberta Sá.

Educação, Territorialidade e Protagonismo das Mulheres Indígenas Educadoras

 Como parte das homenagens ao Dia Internacional da Mulher, foi realizada uma roda de conversa transmitida pelo canal da TV IFBA no YouTube, às 17h. Com a participação de Adenilza Santos Macedo, Hitxá Pataxó (Adriana Pesca), Juliana Tupinambá, Ignês Tereza, Silvani Bomfim Ferreira, Tayra Ca Arfer Jurum Tuxa, Carolina Brandão Gonçalves, Jacineide Arão, Márcia Senger, Thelma Ramos e Marcilene Garcia, o evento contou com o lançamento do Programa Asé- Toré, apresentação de vídeo curta sobre ancestralidade indígena, cantos indígenas e a conversa entre as participantes.

Para a diretora de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis do IFBA, Marcilene Garcia, o encontro era algo necessário dentro da instituição. “A educação indígena é extremamente importante e trazer a perspectiva desse evento que é discutir a educação escolar, territorialidade e protagonismo das educadoras indígenas é muito importante”, afirmou.

Para Tayra Tuxa, o evento pontua a importância da representatividade da mulher indígena e dos povos indígenas na Educação. “Qualquer função dentro da sociedade que você ocupe, você precisa ocupar com toda a bagagem que você carrega, com toda herança, todo compromisso, então como educadora indígena, mulher educadora indígena, eu carrego toda ancestralidade como educadora e isso faz toda a diferença”, explica a professora Tayra Arfer.

 A disparidade na luta enfrentada pelas mulheres negras e indígenas também foi abordada na roda de conversa. “Quando falamos do dia 8 de março, um dia extremamente importante para nós, principalmente pela luta histórica, então, um dia de luta que precisa ser visibilizada e sentida. Mas a gente precisa entender também que são contextos dispares quando a gente trata das mulheres subalternizadas, as mulheres negras, mulheres indígenas que são duplamente silenciadas. Primeiro por serem indígenas ou negras e depois por serem mulheres”, afirmou Hitxá Pataxó (Juliana Pesca).

Poema “Seremos Elza”, de Karine Alves

Na barriga ele sentia a mulher do fim do mundo

E sorria

Ao sair ele ouvia e via

E sorria

Forte com Elza

Seremos

Mesmo quando o sereno nos encontrar

Seremos Elza

Sejamos Elza

Quando a vida tomar parada em 5, 6, 7, 8, 9 vias

Ela que pare

Seremos Elza

Quando o fim estiver tão próximo

Façamos um ponto de partida

Seremos Elza

Cantaremos até o fim

Mesmo com o corpo estático, forçando a parada

Cantaremos e dançaremos com a alma

Não mais paremos

Até partiremos

Mas que nossos pedaços

Sejam de Elzas

Aspirando a batalha e vencendo a luta

Até o fim

Seremos Elza