IFBA Cajazeiras: Reitoria e lideranças comunitárias debatem proposta de criação de campus
Por Maria Gabriela Vidal *
Com o objetivo de discutir a criação de um campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) em Cajazeiras, foi realizada no dia 16 de dezembro, no espaço Boca de Brasa, em Cajazeiras X, uma audiência pública para ouvir as demandas da comunidade relativas à proposta. O encontro é o segundo realizado entre dirigentes do IFBA e lideranças locais para avaliar a possibilidade de implantação de uma unidade de ensino do Instituto no bairro. A primeira reunião ocorreu no dia 30 de novembro na Reitoria do Instituto. O pedido, que chegou até o IFBA por meio de lideranças comunitárias, está sendo debatido pela Comissão do Movimento IFBA/CAJ.
Participaram do encontro de dezembro a reitora do IFBA, Luzia Mota, a pró-reitora Juliana Mousinho (Desenvolvimento Institucional e Infraestrutura - Prodin), a chefe de Gabinete da Reitoria, Elis Lopes, a diretora de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis (Dpaae), Marcilene Garcia, as chefes do Departamento de Ensino Técnico, Indaiara Silva, e do Departamento de Cultura, Esporte e Lazer, Soraia Brito, além dos chefes do Departamento de Ensino Superior, Dielson Pereira, e do Departamento de Relações Comunitárias, André Luís da Silva Santos. Kilson Melo, presidente da Federação das Associações de Bairros de Salvador (FABS) e coordenador institucional da Organização Ambiental, Esportiva e Cultural de Cajazeiras (Cajaverde), foi um dos representantes das lideranças comunitárias. Ele já havia participado da reunião realizada na Reitoria no final de novembro último.
A reitora do IFBA, Luzia Mota, destacou a importância da aproximação e diálogo com a comunidade e da união de forças para o fortalecimento da proposta de implantação de um segundo campus do Instituto na capital baiana, mas ressaltou que a criação de uma nova unidade de ensino do IFBA requer trâmites institucionais e administrativos, entre eles a realização de um estudo de viabilidade da criação do campus, a aprovação da criação pelo Conselho Superior (Consup) e a posterior autorização do Ministério da Educação (MEC) para funcionamento da nova unidade.
“Sou aqui uma agente pública. Não estou fazendo nada além do meu trabalho e da missão à frente de uma instituição que traz como valor a formação de cidadãos críticos para transformar e desenvolver a sociedade em que vivemos. Quero dizer que apesar de estar fazendo o meu papel enquanto gestora, também não posso deixar de dizer que fui menina criada em Castelo Branco e que tive a oportunidade de ver a minha vida transformada por uma política pública: a Escola Técnica Federal da Bahia [hoje, IFBA]”, afirmou a gestora durante a audiência em Cajazeiras. Luzia Mota ressaltou ainda que “se hoje estou aqui” é porque teve oportunidades que o Estado brasileiro lhe proporcionou”, declarou a reitora, ao sublinhar que a reivindicação dos(as) moradores(as) é “legítima”, lembrar que educação é um direito assegurado na Constituição e que “aqui na comunidade nós temos a juventude trabalhadora brasileira”.
“VAMOS MOBILIZAR A JUVENTUDE NEGRA E AS LIDERANÇAS. TEMOS QUE TRAZER O IFBA PARA CÁ”
De acordo com estatísticas do IBGE compilados no Plano Plurianual (2018-2021) da Prefeitura de Salvador, Cajazeiras tem mais de 150 mil habitantes. Ainda segundo dados do IBGE, Cajazeiras assume o posto de maior bairro da América Latina, com uma extensão de aproximadamente 562,703 km². De acordo com a Lei municipal n.º 9278, de 20 de setembro de 2017, catorze bairros delimitam a área. São eles: Águas Claras, Boca da Mata, Cajazeiras II, Cajazeiras IV, Cajazeiras V, Cajazeiras VI, Cajazeiras VII, Cajazeiras VIII, Cajazeiras X, Cajazeiras XI, Fazenda Grande I, Fazenda Grande II, Fazenda Grande III, Fazenda Grande IV, incluso também a localidade da Palestina.
Motivado a ajudar a levar para o bairro a primeira unidade de uma instituição federal que oferta de ensino público gratuito e de excelência, o líder comunitário Kilson Melo destaca que a iniciativa é fruto de um desejo antigo. “É bom ressaltar que não temos em nosso bairro esse tipo de instituição. É uma luta histórica, já que desde os anos 80 buscamos trazer uma universidade pública gratuita para o nosso bairro. Não podemos perder de vista que é uma luta antiga nossa”. Ainda de acordo com o líder comunitário, o encontro serviu para ratificar esse propósito. “Nós, moradores de Cajazeiras, que sempre buscamos melhorias para o bairro, tivemos um dia histórico ao reivindicar o IFBA para Cajazeiras. Já estamos desde o mês de outubro buscando terrenos para que esse sonho seja realizado, uma instituição pública de ensino no bairro, local que é maior do que muitos municípios. Sem dúvida, é um momento histórico para a nossa comunidade. Temos que trazer o IFBA para cá, para assim ser possível que nossos jovens deem a resposta a todos aqueles que não querem que eles cheguem lá” declarou Kilson, com entusiasmo. “Vamos mobilizar a juventude negra e as lideranças de bairros envolvendo toda a sociedade de Cajazeiras e região. A ideia também é marcar uma reunião com os governantes, apoiados em indicadores sociais, econômicos e demográficos sobre a questão da violência, que cada dia tem crescido em nosso bairro. Vamos buscar ajuda para Cajazeiras ter o segundo campus do IFBA em Salvador”, disse o presidente da FABS, que agradeceu “o acolhimento e empenho” da reitora Luzia Mota, “que de pronto nos atendeu e abraçou a ideia de termos um Campus do IFBA em Cajazeiras”.
O gestor cultural do espaço Boca de Brasa, Edson Souto, enfatiza que somente pela via da educação é possível atenuar os índices de violência no bairro. “Para mim esse movimento é necessário, pois vem em um momento muito importante. A violência tem crescido e a gente só consegue combater a violência com educação, visto que quanto mais jovens em ambientes escolares menos violência na comunidade. O máximo que os moradores de Cajazeiras tinham até então era metade do nível médio. O IFBA aqui tornará tudo ainda mais estimulante e facilitador. A gente sonhou muito com esse momento”, destacou.
TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
Para a chefe de Gabinete do IFBA, Elis Lopes, a possível chegada da Instituição em Cajazeiras servirá de acolhimento à população. “Sem dúvida um polo do Instituto Federal em um bairro como Cajazeiras será um instrumento de transformação social, visto que é um bairro que, atualmente, já passa a Liberdade em quantitativo de população negra”, aponta. Contudo, a viabilidade da instauração de um novo polo em Cajazeiras esbarra em questões pontuais. “O projeto só será exequível em parceria com os governantes, porque o Instituto tem limitações e não é possível colocar esse projeto para frente mediante às condições políticas-orçamentárias em que nos encontramos. Contudo, há sim uma vontade de tirá-lo do papel”, complementou Elis.
E quem acompanhava as falas das gestoras e gestores, fez projeções de um futuro melhor para os(as) jovens da comunidade. É o caso do aposentado Elias Nascimento, que considera a educação como a chave para um futuro melhor. "Se você olhar Cajazeiras, tem faculdade particular desde 2005. Será que não merecemos uma instituição pública desse nível para nossos jovens? Temos que tirar a arma que mata para colocar a arma que edifica: o canudo de formatura. Tenho duas jovens em casa e vejo um futuro muito melhor para elas com uma educação de qualidade, para quando a oportunidade chegar, elas estarem prontas. Os gestores públicos precisam incentivar a educação. Tem jovens que já perderam a esperança”, desabafou Elias.
Ainda durante o encontro, que contou com representantes políticos de deputados e vereadores, a reitora Luzia Mota frisou as dificuldades de realização do projeto, que carece de autorização e suporte do Ministério da Educação. Para tanto, torna-se necessário a apresentação da viabilidade da construção de um campus por meio de forças políticas que possam intermediar emendas parlamentares que propiciem a concretização do projeto. Alinhado aos obstáculos destacados pela gestora, o diretor do Departamento de Ensino Superior (Desup), Dielson Pereira, também destacou o longo caminho a ser percorrido. “A gente sabe que quanto mais ascensão nos estudos, mais oportunidades. Esse pedido da comunidade é extremamente legítimo. Sempre foi nossa visão, ainda enquanto docentes, que o IFBA precisa expandir. Não será sem luta! É uma perspectiva de compreensão do que a educação pode fazer por Cajazeiras. Esse diálogo é importante, esse estudo de viabilidade é importante. Temos que entender o que é possível realizar”, declarou.
* Sob a supervisão da jornalista Bárbara Souza.




