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Outubro Rosa - Campanhas reduzem desconhecimento e tabus que dificultam prevenção ao câncer de mama

O médico André Augusto Veloso, do Serviço Médico do IFBA, campus Vitória da Conquista, alerta para os riscos de a doença aparecer na faixa etária entre 18 e 25 anos: “Nos últimos anos tivemos um aumento na incidência da doença entre esse público”.
publicado: 16/10/2021 09h05, última modificação: 16/10/2021 13h35

Por Maria Gabriela Vidal *

Edição: Bárbara Souza

Marcada por diversas ações em prol da saúde feminina, a campanha Outubro Rosa, realizada anualmente, busca chamar a atenção para o tipo de câncer mais incidente em mulheres no mundo: o de mama. Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), órgão auxiliar do Ministério da Saúde na prevenção e controle do câncer no Brasil, apontam que somente em 2021 deverão ocorrer 66.280 novos casos da doença. Em âmbito mundial, segundo a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (International Agency for Research – IARC), aproximadamente 2,3 milhões de casos ocorreram em 2020.

Na Bahia, somente até junho de 2021, 488 vítimas do câncer de mama não resistiram à doença, de acordo com dados da Secretaria de Saúde do Estado (Sesab). Neste mesmo período, 1,6 mil pacientes precisaram ser internadas por causa da doença no estado. Mulheres na faixa etária de 50 a 59 anos são as mais acometidas pela doença, em seguida está o público feminino entre 40 e 49 anos. A letalidade da doença no estado nas respectivas faixas etárias girou em torno de 26% e 18,4%.

Ainda de acordo com o Inca, o câncer de mama é a causa de morte por câncer mais frequente em mulheres brasileiras. E essa é uma realidade que se repete mundialmente, tendo em vista que essa neoplasia é também o tipo de câncer mais recorrente em mulheres em escala global. De acordo com a IARC, foram estimados 684.996 óbitos por câncer de mama ao longo do ano de 2020.

EU CUIDO. E VOCÊ?

Com números alarmantes, a desinformação e os tabus que cercam a doença ainda contribuem para retardar o diagnóstico e as chances de cura entre muitas vítimas. Para mudar esse quadro, ações e campanhas são realizadas por governos, organizações não-governamentais e entidades científicas.

Neste ano, a campanha que conta com o apoio do Inca convida as pessoas, em especial as mulheres, a repensar os cuidados com a saúde. “Eu cuido da minha saúde todos os dias. E você?”, instiga a campanha. A ação também é voltada para as médicas que devem estimular as pacientes ao exame de toque: “Eu cuido das minhas pacientes integralmente. E você?”

“O diagnóstico precoce salva vidas. Pacientes diagnosticadas no estágio mais inicial possível do câncer de mama, o chamado Carcinoma In situ, tem uma chance de cura de cerca de 98%. Em contrapartida, quando o diagnóstico é realizado nos estágios mais avançados a taxa de sobreviventes após 05 anos do diagnóstico é de 16%. Além disso, vale a pena lembrar, os tratamentos do câncer inicial são muito menos agressivos, nos quais não são indicadas as mastectomias [procedimento cirúrgico de retirada da mama] e quimioterapias”, afirma o mastologista [médico especializado nas doenças da mama] do Centro Estadual de Oncologia (Cican), André Dias.

André Dias, mastologista do Centro Estadual de Oncologia (Cican)

 Mesmo com o alto índice de cura quando tratado em estágios iniciais, o receio e o desconhecimento ainda levam muitas mulheres a conviverem com o câncer de mama sem saberem que foram acometidas pela doença. “Ainda há medo do diagnóstico e muitas pacientes têm por isso um atraso no início do tratamento, por isso eu gostaria de ressaltar a importância da tríade que salva vidas: 1. População ciente sobre os sinais de alerta, autoexame e realização rotineira da mamografia; 2. Profissionais de saúde capacitados a realizar o diagnóstico precoce e 3. Sistema de saúde eficiente para o tratamento oportuno dos casos”, elenca o médico.

 O mastologista destaca também alguns dos principais sintomas que podem acometer pacientes com câncer de mama, dentre eles estão tumores palpáveis, saída de sangue e/ou ferimento no mamilo ou na pele da mama, além de sinais inflamatórios, tais como vermelhidão e o aspecto de pele em "casca de laranja [áspera]".

 MEDIDAS DE PREVENÇÃO

As chances de desenvolver a doença são ainda maiores quando há histórico na família. Isso porque alterações genéticas, especialmente nos genes BRCA1 e BRCA2, são sinais de alerta para possível aparecimento da doença ao longo da vida. “O câncer de mama hereditário representa 7% de todos os cânceres de mama. Mulheres com história familiar positiva de câncer de mama, principalmente se foi de mama ou ovário em parente(s) de 1º grau do sexo feminino, bilateral e em idade menor que 40 anos ou ainda câncer de mama em homem da família até 3º grau, tem maior chance de ter herdado a mutação genética”, pontua o mastologista André Dias.

Entre as principais medidas de prevenção primária, manter bons hábitos na rotina é fundamental. “Praticar atividade física regular, evitar dietas hipercalóricas (ricas em açúcares), evitar gorduras saturadas, a exemplo das frituras, dar preferência a frutas frescas e vegetais na alimentação, fazer uso de pelo menos 1,5 L de água ao dia, evitar bebidas alcoólicas, evitar obesidade e diabete são atitudes que podem impedir o surgimento da doença”, aconselha.

“Precisamos desmistificar a ideia de ‘sentença’”, diz servidora do IFBA, que venceu a doença

Quem conheceu a realidade de conviver de perto com a doença foi a servidora do IFBA e pedagoga do campus Juazeiro, Sarah Pierri. Aos 35 anos de idade, ela recebeu o diagnóstico positivo para o câncer de mama, se encaixa no universo dos 10% das mulheres que desenvolvem a doença antes dos 40 anos.

'A voz de uma pessoa assim vitoriosa' - Sarah Pierri

Sem histórico familiar que apontasse a probabilidade de o problema surgir, Sarah conta que o autocuidado foi essencial para que ela notasse algo diferente. “O câncer surgiu em um intervalo de quatro meses da última ultrassonografia mamária a qual não havia dado nada, se não tivesse o hábito de apalpar meus seios provavelmente só iria descobrir no check-up do ano posterior”, inicia. Sem perder tempo, buscou logo ajuda médica para entender quais seriam os próximos passos. “Quando apalpei o nódulo estava deitada indo dormir, desconfiei e imediatamente procurei um mastologista, a partir daí fiz a mamografia, depois a ultrassonografia mamária e no mesmo instante fui indicada para realizar para biópsia”, complementa.

Após a biópsia e o resultado positivo para o câncer de mama tipo Luminal B, decorrente de fatores hormonais, vieram dois anos de tratamento contra o câncer, que envolveu sessões de quimioterapia. Para atravessar esse processo, Sarah afirma que o apoio emocional dos envolvidos é inestimável. “Toda ajuda é bem-vinda, agora a família é fundamental! Ter este apoio nos fortalece muito, entre as palavras e os abraços nos sentimos acolhidas, ajudando até no sistema imunológico muito abalado por conta dos remédios”, assegura.

Tendo acompanhamento periódico com as terapias oncológicas, Sarah venceu a luta contra um câncer que, quanto mais cedo é descoberto, maiores são as chances de cura. Para ela, além do tempo, o fator autoconhecimento também foi decisivo. “Entre tantas vitórias, a minha maior foi ter sentido através dos dedos um nódulo com apenas 1,8cm. Até hoje os médicos me parabenizam por conhecer o meu corpo, o nódulo era muito pequeno e mesmo assim o senti”, relata.

 Hoje, Sarah aproveita o espaço para encorajar outras mulheres a também se tocarem e terem a coragem de, caso precisem, enfrentar de frente essa doença. “Graças a este toque estou aqui fortalecendo a campanha e ajudando diversas mulheres que enfrentam o câncer com a esperança de dias melhores, além de desmistificar a ideia de ‘sentença’ que o câncer até pouco tempo atrás tinha. O câncer não escolhe gênero, etnia, cor e idade, a ciência vem evoluindo cada dia mais, descobrindo causas e tratamentos menos invasivos, possibilitando maiores chances de cura, sou uma prova disso, mas o diagnóstico precoce ainda é a melhor opção! Se cuidem sempre!”, aconselha.

RISCOS PARA JOVENS DE 18 A 25 ANOS

André Augusto Veloso, do Serviço Médico do IFBA, Campus Vitória da Conquista.

 Embora seja mais frequente após os 50 anos de idade, o câncer de mama também pode aparecer em fases mais novas da vida. O mastologista André Augusto Veloso, do Serviço Médico do IFBA, campus Vitória da Conquista, alerta para os riscos de a doença aparecer na faixa etária entre 18 e 25 anos, perfil etário no qual se enquadra grande parte dos estudantes da Instituição. “Nos últimos anos tivemos um certo aumento na incidência da doença entre esse público, em decorrência do estilo de vida desses pacientes. Por muitas vezes serem diagnosticados de forma mais tardia, o comportamento biológico desses tumores acaba sendo pior e com alto potencial metastático”, ressalta.

Ainda de acordo com o médico, pacientes jovens com histórico familiar de câncer de mama devem se preocupar com a prevenção desde cedo. “Além da avaliação da mastologista, torna-se necessário também a avaliação do serviço de oncologia e genética, a fim de que possamos avaliar se a paciente tem necessidade de fazer o teste genético e de fazer uso de medicações que amenizem o risco de câncer de mama futuro”, pontua, ao destacar também que o exame genético é uma forma de antecipar o início da realização da mamografia, ultrassom e ressonância de mama, exames capazes de identificar o tumor e prover um tratamento nos estágios iniciais da doença.

“Qualquer alteração, queixa palpável ou mediante qualquer outro sinal de alerta, homens e mulheres, independentemente da idade, devem buscar orientação médica o quanto antes”, alerta o mastologista do IFBA.

INCIDÊNCIA DA DOENÇA EM HOMENS

Ainda que em escala muito inferior à feminina, os homens também podem desenvolver câncer de mama. De acordo com o Inca, a incidência da doença no sexo masculino corresponde a 1% do total de casos no Brasil.  Mas, de acordo com o médico André Augusto Veloso, a baixa incidência não deve ser sinônimo de descuido, pois por menor que seja, “há um risco e pode ocorrer”. O médico ainda lamenta que não haja nenhum protocolo de realização de exames de rotina em homens para prevenção ao câncer de mama.

GOVERNO DA BAHIA OFERTA EXAMES DE MAMOGRAFIA

Com o objetivo de fortalecer a detecção precoce do câncer de mama, o Governo do Estado da Bahia promove a oferta de exames de mamografia na capital e interior. A iniciativa começou em 4 de outubro e faz parte da campanha do Outubro Rosa.

Mulheres entre 40 e 69 anos são o público-alvo da ação. As interessadas podem agendar a realização do exame pela internet, por meio do endereço www.saude.ba.gov.br. Em Salvador, as mamografias são ofertadas em unidades móveis e no Centro Estadual de Oncologia (Cican). No interior do estado, os exames são realizados nas 21 Policlínicas Regionais de Saúde com agendamento realizado nos postos de saúde ou nas Secretarias Municipais de Saúde.

 LOCAIS DE ATENDIMENTO DAS UNIDADES MÓVEIS EM SALVADOR

❖      UNEB, no Cabula (de 4 de outubro a 13 de novembro)

❖      Mansão do Caminho, em São Marcos (de 4 de outubro a 13 de novembro)

❖      Departamento de Saúde da Polícia Militar, Avenida Dendezeiros (de 4 a 30 de outubro)

❖      Salvador Norte Shopping, São Cristóvão (de 4 a 16 de outubro

❖      41º Companhia da Polícia Militar, Federação (de 18 a 20 de outubro)

❖      Lar Harmonia, Piatã (de 21 a 23 de outubro)

❖      Sede da Sesab, Centro Administrativo, (de 25 a 27 de outubro)

❖      UPA de São Caetano, em São Caetano (de 3 a 13 de novembro)

❖      Organização do Auxílio Fraterno, Queimadinho, Liberdade (de 3 a 6 de novembro)

* Sob supervisão da jornalista Bárbara Souza.