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DIVERSIDADE: Com protagonismo feminino, game criado por estudante obtém financiamento e intercâmbio no Chile

Comunidade lésbica de 25 a 35 anos é público-alvo do game de aventura protagonizado pelas personagens Marielle e Daniela, que no dia do casamento descobrem um ataque alienígena à humanidade.
por Helen Sampaio publicado: 26/11/2021 16h34, última modificação: 26/11/2021 16h35

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Flávia é estudante do campus Lauro de Freitas do IFBA e criou o jogo ELAS

No meio de uma cerimônia de casamento, o juiz de paz é parasitado por uma ameaça alienígena e transforma-se em um monstro que rapta uma das noivas. Nesse cenário assustador, a missão de sua companheira é sair em busca do amor da sua vida, enfrentando um mundo cheio de desafios, no qual várias pessoas também foram parasitadas pela onda alienígena. Esse é o enredo do jogo ELAS, criado por Flávia Figueredo, estudante do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), e Beatriz Ramos, sua sócia na startup Rebunny Studio e que conquistou o financiamento da Programa UNIDAS: Mulheres nas Indústrias Criativas.

Além desse apoio financeiro, a equipe de Flávia e Beatriz, que totaliza dez profissionais, embarcará para o Chile em janeiro de 2022 para realizar um intercâmbio de uma semana. Para a estudante do curso de tecnologia em jogos digitais, do campus Lauro de Freitas, a conquista representa “uma porta de abertura às oportunidades para as mulheres baianas e nordestinas. Representa a união, a criação de redes e laços de mulheres brasileiras e chilenas”, enfatiza.

Para Beatriz, o destaque da iniciativa “é uma confirmação de que é necessário as mulheres, cada vez mais, se unirem, criarem ambientes de acolhimento para se fortalecerem em diversos espaços e de que a Rebunny Studio está aprendendo muito com todo esse processo”.

O Programa UNIDAS funciona como uma aceleradora dos projetos selecionados, com auxílio para impulsionar e iniciar a produção dos projetos participantes. A bolsa para participação totaliza o valor de R$13.500 e é acrescida a uma ajuda de custo para auxiliar no desenvolvimento dos projetos. “É um intercâmbio de possibilidades que, além de validar nossas ideias de projetos, impulsiona a indústria criativa nos colocando como protagonistas de um cenário ainda dominado homens, mas que com esse tipo de incentivo promove diversificação desse quadro, que daqui a alguns será mais diverso e igualitário”, considera Flávia.

FUGA DE ESTEREÓTIPOS E REPRESENTATIVIDADE

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Beatriz Ramos é designer, criadora do jogo ELAS e sócia de Flávia na startup Rebunny SAtudio

Beatriz recorda que a escolha por duas mulheres dialoga com suas experiências individuais e coletivas. “Nós sentimos na pele a falta de outras perspectivas quando jogamos. É natural procurarmos algo com que temos familiaridade, que seja mais do nosso cotidiano e pensamos em incrementar os jogos com um pouco mais de diversidade. Com isso, escolhemos juntas as aventuras e auxiliamos também a equipe para a produção do game”, lembra.

Segundo Flávia, um dos maiores desafios do game foi a fuga de estereótipos. “Nesse sentido, ELAS quebra alguns paradigmas da indústria de jogos quando traz duas mulheres lésbicas como personagens principais e como protagonista uma mulher que, além de lésbica, é negra. Somos mulheres, periféricas e bissexuais que sentem a falta de uma representatividade clara na indústria de jogos e isso fica claro quando observamos que, de acordo com o LGBTQ Game Arquive, em 2014, tinham apenas o total (dentre todos os jogos existentes) de 72 personagens, mas essas empresas ainda estão lançando jogos e personagens que não se expõem abertamente sobre sua sexualidade, deixando tudo sutil demais”, avalia.

Ainda em processo de desenvolvimento, ELAS terá um protótipo em breve, que será apresentado no Chile. Segundo as criadoras, a proposta do jogo 2.5D – em que os cenários são em 3D e a jogabilidade e personagens serão em 2D – é de trazer uma aventura a partir da exploração de elementos de puzzles, onde os desafios enfrentados acontecem sob a ótica da narrativa exposta. “O jogo traz consigo um contexto da estória de um casal lésbico, mas as situações não estão relacionadas diretamente à situações reais, pois é abordado de forma lúdica. Os detalhes sobre as situações serão expostos quando lançado protótipo da fase 1 do game - o Minimum Viable Product  (MVP)  ou Mínimo Produto Viável”, diz Flávia.

APROXIMAÇÃO COM TEMÁTICAS SOCIAIS

A estudante do terceiro semestre lembra que a ideia do jogo foi incentivada pelo seu então professor Luiz Machado. “É uma pessoa presente e sempre me impulsionou para alcançar e além. Nesse ponto, meus agradecimentos chegam ao IFBA pela oportunidade de conhecê-lo e tê-lo como pessoa presente em vários momentos”, declara.

No curso, Flávia já participou do projeto integrador que dá subsídios aos estudantes para criarem jogos com diversos temas, como étnicos raciais, acessibilidade, história do Brasil, bullying, sustentabilidade, direitos humanos e diversos outros. Além disso, escreveu e teve aprovados trabalhos e artigos em eventos da área, entre eles, o artigo publicado na Editora Atena: Desenvolvimento de jogos educativos na conscientização da prevenção do câncer de mama, cuja autoria é dividida com Luiz Machado, Jocelma Rios, Rafael Rocha e Maria Adélia dos Santos.

“Acredito que seja esse o papel da universidade: desenvolver o aluno para além de suas pilastras e envolver os conteúdos técnicos com aplicação prática para resolução ou protagonismo de assuntos que contribuam com a sociedade. Para mim, é muito importante que o meu trabalho tenha impacto na sociedade, que contribua para questões importantes. Isso é um dos pilares da Rebunny Studio”, pontua Flávia.

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Luiz Machado é professor do IFBA

Machado, que se diz idealizador do curso de Jogos Digitais EAD e presencial na unidade Lauro de Freitas e atuou no curso entre 2018 e 2020, aponta como diferencial do jogo ELAS a possibilidade de trazer à discussão pautas relevantes para a sociedade. Sobre a experiência que Flávia e sua equipe vivenciarão, Machado acrescenta aprendizados que serão agregados: “Trabalhar em equipe. Compreender como funciona o mercado. Conversar e conhecer novas pessoas, novas culturas, novos países, novos estados. Acredito que são experiências que colaboram com o nosso crescimento profissional e também como pessoa”, conclui. 

O professor e doutor em educação, que aguarda finalização do processo de lotação para retornar ao campus Lauro de Freitas e ao curso de jogos digitais, após atuação no campus Salvador, relembra o momento em que indicou a estudante para o edital do Programa UNIDAS. “As organizadoras me pediram indicações de alunas, pois o projeto é voltado para mulheres. Então, Flávia, além de ser uma excelente aluna, é madura e torce pelo sucesso e crescimento do curso. Quando a indiquei, a mesma não hesitou, se inscreveu, participou do edital e está aí, vencedora, indo representar o IFBA no Brasil e no Chile, ou seja, no mundo”, destaca.