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Entrevista – ‘Fura-filas’ da vacinação se multiplicam e causam indignação

Pesquisadora e pesquisadores do IFBA conversam sobre esse comportamento, ainda tão recorrente no país.
por Janaina Marinho publicado: 01/02/2021 17h04, última modificação: 03/02/2021 14h48

Foi só começar a vacinação em âmbito nacional contra a Covid-19, oficialmente na segunda quinzena de janeiro, que se multiplicaram as notícias sobre uma sequência de denúncias de “fura-filas” pelo Brasil afora. Os fatos noticiados nas últimas semanas mostram diversos casos de políticos, servidores públicos e empresários que foram vacinados apesar de não pertencerem aos grupos prioritários definidos pelo Governo para receberem a imunização.

As denúncias provocam indignação e suscitam discussões sobre o porquê de ainda ser recorrente esse tipo de atitude. Até hoje, 1º de fevereiro, apenas na Bahia, o Ministério Público (MP-BA) já recebeu 132 denúncias de pessoas que furaram a fila, em 77 municípios. No dia 29, promotores de Justiça debateram com a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) sobre o andamento da vacinação no Estado e reforçaram a necessidade de cumprimento da ordem na fila, com observância dos grupos prioritários.

Estão sendo vacinados nessa primeira etapa, os trabalhadores da saúde, indígenas aldeados, idosos que moram em abrigos e pessoas com deficiência. A partir desta segunda-feira, 1º de fevereiro, a Bahia passa a vacinar também idosos com 90 anos ou mais. De acordo com o acompanhamento da cobertura vacinal da Covid-19, da Sesab, com dados da atualização das 15h59, 195.908 vacinas foram aplicadas no Estado, o que representa 68,5% das doses recebidas.

Foram convidados pesquisadora e pesquisadores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) para conversar sobre esse comportamento, ainda tão recorrente no país. Apesar de atitudes como essas trazerem à tona debates sobre hábitos, com tópicos como “carteiradas” e “jeitinho brasileiro”, é importante ouvir os(as) docentes e pesquisadores(as) para entender os fatores que historicamente contribuíram para a formação e disseminação deste comportamento entre o povo brasileiro, e não cair na armadilha de conversas rasas que naturalizam essas posturas e reforçam os discursos de impossibilidade de mudança.

Confira a entrevista com Mayara Pláscido Silva, professora de história do campus Euclides da Cunha, Daniel Romero e Fábio Baldaia, ambos professores do Departamento de Sociologia, Pedagogia e Psicologia (DSSP), do campus Salvador.

Portal do IFBA - Com o início da vacinação contra a Covid-19, foram publicadas matérias de várias partes do país com casos de políticos, empresários e servidores públicos sendo vacinados apesar de não pertencerem a grupos prioritários. A que você atribui esse comportamento das elites econômicas? Quais fatos e processos são responsáveis por esse tipo de atitude?

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Arquivo pessoal/Fonte: Lattes
Mayara Pláscido - É importante demarcar que as denúncias de furar a fila das vacinas, já registradas em 16 estados, apontam para o protagonismo de políticos e empresários em diferentes cidades do país. Importante destacar esse fato, porque isso nos leva a analisar a constituição do Estado brasileiro. O Estado Nacional é uma instituição classista, construída e ocupada majoritariamente pela elite econômica do país. Historicamente, o Estado brasileiro é organizado para garantir privilégios e manutenção de hierarquias sociais no Brasil. “Os donos do poder”, as lideranças políticas se confundiam com as lideranças econômicas em diferentes regiões do Brasil. Isso é perceptível, por exemplo, nas pessoas envolvidas nas denúncias dos “furas-filas” – empresários, secretários de saúde, prefeitos.

Daniel Romero - O principal problema é que a vacina, que deveria ser um direito de todos, se tornou um bem ultra-escasso. Estima-se que apenas para atender os profissionais de saúde seriam necessárias cerca de 10 milhões de doses, enquanto que dispomos apenas de 8 milhões na atualidade. Como não há garantia por parte do governo de que terá vacina para todos, mesmo a médio prazo, a pressão para furar a fila se amplia. Em um país altamente desigual como o Brasil, era esperado que alguns setores usassem sua influência política e/ou econômica para terem acesso a esse recurso valioso e escasso. O caso mais emblemático talvez seja do HC [Hospital das Clínicas] da USP [Universidade de São Paulo], que ganhou muita notoriedade. No entanto, me parece que o maior problema esteja nas cidades do interior. As vacinas podem se tornar uma moeda de troca, como se costuma fazer com emprego na prefeitura. Então, temos aqui três questões que se combinam: dois problemas crônicos da sociedade brasileira: a desigualdade social e o caráter patrimonialista do Estado em um contexto de completa incompetência e boicote por parte do governo federal no combate à pandemia. Embora os casos dos fura-filas sejam graves e devam ser combatidos com rigor, ele é derivado de um problema maior: a política de genocídio do governo federal, que desde o início negligenciou a epidemia, estimulou aglomerações, recomenda remédios ineficazes para o tratamento da Covid-19 e, atualmente, não garante vacinas suficientes, nem seringas, nem oxigênio, nem auxílio emergencial. O maior problema da pandemia no Brasil não é o vírus, sequer é a nova cepa, mas é o boicote do governo federal no combate à Covid-19. Quem morreu sufocado em Manaus não morreu de Covid-19, morreu de negligência e omissão. Isso é crime.

Fábio Baldaia - São faces cotidianas de elementos constituintes de nossa sociedade que são históricos, de longuíssima duração, mas que se atualizam na conjuntura. No caso em que menciona, são indivíduos que estando em posições de mais poder, de algum privilégio, se utilizam desses recursos para burlar regras sociais que entendem que não são para todos, mas sim flexíveis em função dos seus interesses. São segmentos sociais que sabem “surfar” em meio ao baixo grau de adesão dos indivíduos e da própria estrutura do Estado no Brasil às definições institucionais e legais. Essa reprodução de atitudes é observável desde as grandes decisões políticas que desconsideram a existência dos mais pobres no orçamento público, até as “pequenas” ilegalidades, manipulações e humilhações cotidianas que se tornaram típicas entre nós. Lembremos que a própria Suprema Corte fez um pedido para acessar a vacina antes de todos! As grandes empresas estão se organizando para comprar vacinas desrespeitando o escalonamento entre grupos prioritários! Em situações limite, como a da pandemia pode-se notar com nitidez que há uma gradação na efetiva cidadania brasileira, existindo uma massa de sujeitos relegados a uma sub-cidadania, que se expressa no fato de somente alguns poderem acessar serviços e produtos apropriados de saúde que determinam a vida e a morte. O principal aspecto a se destacar é a manutenção de uma profunda desigualdade (de classe, racial, de gênero, regional, profissional etc.) que se expressa tanto no acesso a bens econômicos, quanto no plano cultural. Essa desigualdade é fruto do tipo de modernização periférica a que o Brasil foi sujeito, sendo primeiro uma colônia escravista, uma plataforma de exploração, depois uma monarquia e posteriormente uma República sob o controle de uma elite com mínima circulação e mobilidade em relação ao "de baixo". Frente a essa realidade, que se apresenta às pessoas como se fosse a própria “natureza” do mundo, as práticas sociais são moldadas. Assim, nessa sociedade desigual, com regras relativas, os mais ricos e/ou influentes pressionam por vantagens em decorrência da sua posição superior na hierarquia social, fazendo valer uma espécie de direito costumeiro do status, um direito de vencer sempre. Na outra extremidade social, quanto mais pobres e/ou em piores condições estruturais é comum serem criadas estratégias de navegação social, de também burlar as regras ou por vezes agir na direção de pequenos favores e deferências para que se consiga pelo menos acessar parte dos bens mínimo de que deveria gozar: moradia, aposentadoria, escola, acesso à saúde etc. Em meio a essas estratégias, surge uma sociabilidade contraditória e atravessada pela chocante tolerância com a violência e ao mesmo tempo um certo humor trágico acerca das coisas da vida.

Portal do IFBA - Sobre essa conduta de não respeitar o limite entre o público e o privado, de aparente inexistência de senso de coletividade: é um “traço” marcante na nossa constituição como povo? Você acha que, no Brasil, há realmente uma tendência nas pessoas em querer levar vantagem em tudo? Ou frases como “farinha pouca, meu pirão primeiro” não significam o mesmo que uma “carteirada” – já que uma pode representar um comportamento motivado pelas desigualdades sociais e, a outra, uma perpetuação de apropriação dos bens coletivos por parte da elite?

Mayara Pláscido - Acredito não ser coerente equiparar estas ações de burlar a fila da vacina com o tal do “jeitinho brasileiro”, que em casos específicos representa a luta constante da população pobre (majoritariamente negra) e outros grupos marginalizados (indígenas, quilombolas) de desencantar a sobrevivência. Estes grupos estão em lugares sociais diferentes. Aqueles e aquelas que administram a “coisa pública”, justamente por estarem nesse lugar, podem burlar a fila da vacina e possibilitar que suas esposas, filhas e funcionárias sejam vacinados/as antes que os/as profissionais de saúde e idosos/as e indígenas (os grupos primordiais para a vacinação). Por outro lado, desconsiderar essas hierarquias seria o equivalente a dizer que os/as indígenas, por exemplo, teriam as mesmas condições, “dariam um jeitinho”, para receber a vacina antes da esposa de um dos secretários de saúde denunciados.

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Arquivo pessoal

Daniel Romero - Eu não diria que é um traço do povo brasileiro. Este é um traço da formação do Estado brasileiro, Estado este apropriado pelas classes dominantes para realizar seus interesses particulares. A ideia de que a apropriação privada do bem público é algo da “natureza do povo brasileiro” acaba diluindo responsabilidades e igualando camadas sociais que não estão nas mesmas condições. Como você mesmo pontua, não podemos comparar setores que têm diretos negados com grupos privilegiados que dão “carteiradas”. Para uma parte dos setores populares, o “jeitinho” é uma forma de ter acesso a um direito que lhe foi negado e a negação desse direito acaba estimulando uma política clientelista que se volta contra os próprios setores populares. Infelizmente, quer por falta de condições ou de consciência, ao invés de se organizar politicamente com outros que estão na mesma situação, acabam optando por tentar resolver o seu problema com o vereadoriznho da região. Mais do que um traço moral, o clientelismo (e o “jeitinho” decorrente dele) é uma política, é uma forma de gerir o Estado em um contexto de exclusão dos setores populares de direitos sociais.

Fábio Baldaia - A distinção entre público e privado não é algo natural, mas um processo que se molda a partir da modernização das sociedades da Europa ocidental e se que expande para o restante do mundo por meio de influência e dominação explícita. Sua forma atual delineia-se a partir da consolidação das democracias liberais no século XIX. No caso brasileiro, como estamos falando de uma periferia, ou semiperiferia, do sistema, o processo de constituição da sociedade moderna por aqui aconteceu com singularidades que fizeram com que características capitalistas e pré-capitalistas ficassem superpostas de modo estranhamente funcional e isso inclui uma determinação da fronteira entre público e privado não tão bem definida. Com isso,não quero dizer que países como França, Reino Unido ou EUA representam qualquer tipo de modelo perfeito, ou que não existem atravessamentos entre as dimensões públicas e privadas, corrupção, manipulação das regras etc. É só lembrar das fraudes contábeis das grandes corporações e dos esquemas de corrupção generalizado em Wall Street descobertos após a crise de 2008. Mas voltando, a demarcação entre público e privado no Brasil é extremamente nebulosa, o que faz com que os agentes se aproveitem de condições situacionais, pois frequentemente se apresenta considerável margem de “negociação” entre essas duas esferas, o que facilita a ocorrência em pequena e larga escala da corrupção. Esse fenômeno de pouca distinção entre o público e o privado é denominado de patrimonialismo na literatura sociológica. De antemão, é importante frisar que a esperteza e a tentativa de levar vantagem nas relações sociais não são características exclusivas do Brasil, nem traços exclusivos da brasilidade ou de uma identidade nacional. O que ocorre entre nós é a brutal desigualdade com sua consequente naturalização da miséria, do racismo, da misoginia, da violência, faz com que leis impessoais sejam comumente virtuais e alheias ao mundo cotidiano de uma sociedade que se organiza em condições extremas.

Portal do IFBA - Como mudar esses comportamentos? Qual o papel da educação nessa mudança de mentalidade e alteração de comportamentos? Qual o papel da sociedade e de cada um de nós nessa mudança?

Mayara Pláscido - Acredito que a educação seria importante, neste caso, quando ela possibilita construir narrativas e práticas de reconhecimento histórico das desigualdades do Brasil e, sobretudo, reconhecer e validar as trajetórias de grupos sociais que sempre se opuseram as práticas de aprofundamento das desigualdades sociais efetivadas pelo Estado Nacional Brasileiro.

Daniel Romero - No início da nossa conversa, você me disse que queria fazer uma matéria sobre por que o Brasil continua sendo um país com ‘fura-filas’ na vacinação contra a Covid-19, até num momento sério como esse de pandemia. Eu diria que é justamente num momento sério da pandemia como o que estamos vivendo é que teremos cada vez mais casos como esses, de fura-fila. Existe um outro tipo de “fura-fila” que é ainda mais grave, que é a pressão feita por empresas privadas para obterem licença para comprarem vacinas. E pior, ao que parece, com consentimento do governo federal. Elas afirmam que doariam a metade das doses que comprarem para o SUS, o que supostamente ajudaria a população. Isso seria um mega “fura-fila” oficial, porque simplesmente não há vacinas para todos neste momento. Ao invés de vacinarmos os grupos prioritários, cerca de quase 30 milhões de doses seriam geridas por grandes empresas. Se elas querem de fato contribuir com a campanha de vacinação, por que elas não doam a totalidade das doses que querem comprar para o SUS? No caso específico da gestão da vacinação, devemos investir em conscientização e controle, aproximando mais a população na própria organização da campanha de vacinação. Como não temos vacinas para todos os profissionais da saúde neste momento, a lista dos que devem se vacinar deveria ser feita e acompanhada por uma comissão composta por trabalhadores da área e com ampla participação de sociedade, não apenas pelos gestores. Vale lembrar que o “fura-fila” é um sujeito que está nas listas enviadas pelos gestores dos diversos órgãos. Isso deveria ficar a cargo de uma comissão mais ampla. Por exemplo, os trabalhadores terceirizados que estão nas “atividades meio” estão incluídos na primeira fase da vacinação? Isto ainda não está garantido. Os vigias, faxineiros etc. dos postos especializados no atendimento de pacientes de Covid-19 estão sendo contemplados? A ampla divulgação de todas estas informações é fundamental, com listas de fácil acesso de quem tem direito à vacinação e publicização de nome e sobrenome dos que estão sendo vacinados. No entanto, mais uma vez, quero enfatizar que esse é um problema colateral de um problema maior. A medida mais urgente da sociedade brasileira é o impedimento do presidente Bolsonaro e de seu vice, Mourão. O Brasil é o pior país do mundo no enfrentamento da pandemia e não podemos encarar as mais de 220 mil mortes como algo aceitável. Tomar consciência da gravidade da pandemia inclui medidas individuais e coletivas: exigir vacina para todos e o retorno do auxílio emergencial é tão importante quanto continuar se protegendo e evitar aglomeração. Salvar vidas hoje no Brasil passa pelo impeachment do presidente.

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Arquivo pessoal
Fábio Baldaia - Modificações de larga escala nas sociedades quase sempre são lentas e ocasionadas por vários fatores. Destacaria dois aspectos propriamente importantes. O primeiro é a redução das desigualdades, o que se dá por meio da ação e organização política na sociedade civil (ONGs, movimentos sociais, construção de uma esfera pública que paute o tema etc.) e ação na política institucional para tentar construir um pacto político mínimo para todos tenham condição de acesso adequado ao mínimo: moradia, saúde, educação e renda. Segundo e complementar ao primeiro, construção de um projeto de desenvolvimento econômico e social nacional inclusivo que retome o Estado como agente importante de estabilização, proteção social, investimento, prestador de serviços e fomentador de empreendedorismo de alta tecnologia. A educação atravessa os dois aspectos que citei acima, pois ela é importante para promover adequada formação crítica, intelectual, básica para cidadania, o que hoje em dia inclui o apropriado entendimento do mundo digital com seus perigos e potencialidades. Por outro lado, deve operar na formação para o trabalho, permitindo que crianças, jovens e adultos consigam a adequada inserção produtiva, o que é importante para a renda, a autoestima e a melhoria agregada do bem estar social. Penso que é fundamental que entendamos que transformações importantes e duradouras não se fazem apenas por ações isoladas e pontuais. Por isso, é preciso retomar a ideia de construção coletiva e democrática com a definição de acordos mínimos e metas de onde queremos chegar a longo prazo como sociedade.


Mayara Pláscido Silva
– é mestre em história, pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), e doutora, pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). Pesquisou experiências de trabalhadores negros/as e migrantes no pós-abolição de Feira de Santana.  Atualmente, está trabalhando no mapeamento das religiões afro-brasileiras em Euclides da Cunha, na Bahia.

Daniel Romero - é mestre em sociologia, pela Unicamp. É autor do livro Marx e a Técnica, publicado pela Editora Expressão Popular (2005), organizador dos livros Introdução à Teoria Econômica Marxista (ILAESE/Editora Sundermann, 2006) e Marx sobre as Crises Econômicas no Capitalismo (Editora Sundermann, 2009) e contribuiu com a Enciclopédia Latinoamericana (Boitempo, 2006). Atualmente, pesquisa capitalismo de plataformas e microtrabalho no Brasil.

Fábio Baldaia – é mestre em história, pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), e doutor em ciências sociais, também pela Ufba. Desenvolve pesquisas a respeito de festas, culturas populares, processos de formação de identidades e a relação entre cultura e política. Atualmente, pesquisa o Bolsonarismo e coordena o grupo de Pesquisa Laboratório de Estudos Brasil Profundo.

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