Centenário de Paulo Freire: Homenagem ao Patrono da Educação Brasileira, mundialmente respeitado, estudado e reverenciado
Por Maria Gabriela Vidal *
Edição: Bárbara Souza
“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Foi assim, com palavras que apontam o caminho da educação como o único meio possível para transformar a realidade, que o filósofo e educador brasileiro Paulo Freire se consagrou como uma personalidade ímpar na história da educação no Brasil e no mundo. Com o pensamento à frente da época em que viveu, o pernambucano não apenas revolucionou o modo de ensinar, mas sobretudo de se pensar em uma pedagogia mais autônoma e libertária.

Nascido em 19 de setembro de 1921, em Recife (PE), Paulo Reglus Neves Freire é o Patrono da Educação Brasileira desde 2012 por meio da Lei nº 12.612. Freire propôs uma interação e uma comunicação menos hierarquizadas entre professor e aluno, a partir da premissa sintetizada em uma citação sua que o acompanhou e marcou sua obra: “ninguém educa ninguém e ninguém se educa sozinho”. Para Freire, o distanciamento entre educador e educando era um paradigma prejudicial ao processo ensino-aprendizagem porque criava um abismo entre professores e estudantes.
FREIRE E A BAHIA
“Sou professor a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura de direita ou de esquerda.
Sou professor a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação, contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais.
Sou professor contra a ordem capitalista vigente que inventou esta aberração: a miséria na fartura.
Sou professor a favor da esperança que me anima apesar de tudo. Sou professor contra o desengano que me consome e imobiliza.
Sou professor a favor da boniteza de minha própria prática, boniteza que dela some se não cuido do saber que devo ensinar, se não brigo por este saber, se não luto pelas condições materiais necessárias sem as quais meu corpo, descuidado, corre o risco de se amofinar e de já não ser o testemunho que deve ser de lutador pertinaz, que cansa mas não desiste. Boniteza que se esvai de minha prática se, cheio de mim mesmo, arrogante e desdenhoso dos alunos, não canso de me admirar.”
Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia (Ed. Paz e Terra)
Na Bahia, o educador ganhou o título de cidadão honorário da cidade de Itabuna, no ano de 1992. Pelo trabalho desenvolvido, sobretudo no Nordeste, recebeu a medalha “Libertador da Humanidade”, outorgada em 27 de abril de 1993 pela Assembleia Legislativa da Bahia, durante a Conferência Internacional de Educação para o Futuro, em São Paulo, em outubro do mesmo ano. Seu nome é estampado em escolas e ruas baianas. Na capital, a biblioteca comunitária Paulo Freire está em funcionamento desde 2001 na região do Subúrbio Ferroviário de Salvador.
Com uma trajetória marcada por uma firme postura ideológico-política, os primeiros passos de Freire rumo a não-neutralidade no processo de ensino foram nas salas de aula de Recife, sua cidade natal. De acordo com ele, os espaços físicos das escolas devem ser também ambientes de discussão e, sobretudo, terrenos férteis para a elaboração de pensamentos críticos sobre a realidade vigente. Ao longo da sua carreira, manteve firme a defesa de estimular os seus aprendizes a questionarem o que não lhes parecesse correto.
Sempre com um olhar atento aos mais pobres, Freire abdicou do título de advogado para lecionar na periferia de Recife. Por seu trabalho, conquistou o posto de chefe do Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife. O que viria em seguida mudaria radicalmente todo o processo educacional, tendo em vista o método revolucionário que o educador deixaria de legado.
Com uma forma de ensino que valorizava as experiências e o cotidiano dos estudantes, o Método Paulo Freire se configurou como uma ruptura com uma metodologia de alfabetização que não considerava a singularidade de cada aluno. Para Freire, tão ou mais importante que empunhar um lápis é capacitar o aprendiz a compreender e conquistar a liberdade de pensamento por meio da educação.
ALFABETIZAÇÃO DE CORTADORES DE CANA, EXÍLIO E RECONHECIMENTO
Com isso, um dos feitos do educador reconhecido pelo meio acadêmico foi ter alfabetizado um grupo de duzentos cortadores de cana-de-açúcar em apenas quarenta e cinco dias. Pela influência dentro das comunidades nordestinas, Freire chegou a ser convidado pelo então presidente João Goulart, que governou o Brasil entre 1961 e 1964 – ano em que se instalou uma ditadura militar no País, que viria a durar 21 anos -, para ampliar o novo formato de ensino às demais regiões. Era o início de uma ‘revolução’ na educação e Freire estava disposto a seguir adiante na defesa pelo seu ideal de educação.
'“Educador e educandos se arquivam na medida em que, nesta distorcida visão da educação, não há criatividade, não há transformação, não há saber. Só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros.”
Paulo Freire, em uma de suas mais célebres obras, Pedagogia do Oprimido, Editora Paz e Terra.
Devido ao êxito da proposta, a alfabetização nos novos moldes inspirou o Plano Nacional de Alfabetização, em 1964. Mas, o que parecia ser uma vitória foi seriamente ameaçada pelas armas do início dos chamados “Anos de chumbo”, durante a ditadura militar (1964-1985) no Brasil. Visto como um inimigo do “sistema”, Freire passou 16 anos em exílio, tendo retornado ao Brasil apenas em 1980, beneficiado pela Lei da Anistia.

Entretanto, o que poderia ser um empecilho a perpetuar a sua obra, se tornou um motor propulsor para expandi-la. Longe de casa, Freire difundiu a sua forma de ensino por diversos países, entre eles, Chile, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Guiné-Bissau e Cabo Verde.
Colega de trabalho e amigos, o também educador Rubem Alves compartilhou com Paulo Freire os corredores da Faculdade de Educação da Unicamp (SP), após o retorno ao Brasil. Alves chegou a escrever um parecer para defender a contratação de Freire: “Ele [Paulo Freire] atingiu o ponto máximo que um educador pode atingir. A questão não é se desejamos tê-lo conosco. A questão é se ele deseja trabalhar ao nosso lado”, dizia a carta.
Por uma vida dedicada a tornar o processo educacional mais humano e menos mecânico, Freire é, ainda hoje, o terceiro pensador mais citado do mundo em universidades da área de humanas, de acordo com um levantamento feito por meio do Google Scholar.
A ele também foram concedidos cerca de trinta títulos de Doutor Honoris Causa por universidades nacionais e internacionais. Além disso, Freire também conquistou diversos prêmios, dentre eles o Prêmio Unesco da Educação para a Paz em 1986 e o Prêmio Andres Bello como Educador do Continente - Organização dos Estados Americanos, 1992.
Paulo Freire faleceu em 2 de maio de 1997, aos 75 anos, vítima de um ataque cardíaco. Toda a sua obra se mantém viva tanto nas escolas, como também no Instituto Paulo Freire, uma rede internacional que conta com membros de mais de noventa países.
PROGRAMAÇÃO ESPECIAL

Para comemorar o centenário de Paulo Freire, a TVE preparou conteúdos inéditos sobre a vida do educador. A programação foi iniciada na última quinta-feira (16) com uma entrevista exclusiva com a filha do pedagogo, Fátima Freire, durante o programa Giro Nordeste.
Logo após, a emissora veiculou o documentário “40 Horas na Memória”, produzido pela Assessoria de Comunicação da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em referência ao programa de alfabetização desenvolvido por Freire para adultos. O produto traz como protagonistas 19 ex-alunos do educador. Em seguida, foi a vez da estreia do documentário “Fonemas da Liberdade”, uma coletânea de arquivos de seis cineastas sobre o trabalho produzido por Paulo Freire. É possível conferir toda a programação em www.youtube.com/tvebahia .
* Maria Gabriela Vidal é estagiária de jornalismo da Dgcom, sob a supervisão da jornalista Bárbara Souza..

