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Pela primeira vez, IFBA é contemplado no Programa de Iniciação Científica nas Ações Afirmativas (PIBIC-Af) do CNPq

Criado em 2009 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o PIBIC-Af contempla a oferta de bolsas de iniciação científica para estudantes cotistas de universidades públicas que têm programa de ações afirmativas.
por Bárbara Souza publicado: 26/08/2020 16h25, última modificação: 27/08/2020 16h24

O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia foi contemplado no Programa Institucional de Iniciação Científica nas Ações Afirmativas (PIBIC-Af) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Trata-se de um programa “dirigido às universidades públicas que são beneficiárias de cotas PIBIC e que têm programa de ações afirmativas, que prevê a distribuição de bolsas de Iniciação Científica - IC às instituições que preencham esses requisitos”, como descreve o site do CNPq. O IFBA concorreu à Chamada CNPq PIBIC-Af Nº 14/2020 do PIBIC-Af, publicada em maio de 2020, e comprovou ter condições institucionais e expertise de pesquisa para ser contemplado pelo programa, criado em 2009.

“Apresentamos vários argumentos que demostraram compromisso administrativo e político da atual gestão em impulsionar as políticas afirmativas e promover ações para o gerenciamento das ações afirmativas (políticas focalizadas) para negros, indígenas e pessoas com deficiência na área do ensino, pesquisa e extensão. É uma vitória importante o IFBA ter entrado neste programa do CNPq”, comemora diretora de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis, Marcilene Garcia. Ela é co-autora da proposta apresentada pelo Instituto, ao lado de Flaviane Nascimento, diretora de Políticas Educacionais, e Verônica de Souza Santos, professora de Língua Portuguesa do Campus Porto Seguro.  

 Os projetos de pesquisa que virão a ser desenvolvidos por estudantes cotistas do IFBA que tiverem bolsas do PIBIC-Af não têm que abordar necessariamente temáticas ligadas a ações afirmativas. “A intenção é que os cotistas sejam inseridos aos programas de iniciação científica em todas as áreas de conhecimento”, resume Marcilene.  A professora Verônica de Souza complementa lembrando a necessidade para a realização de “estudos que atentem para o diálogo com a análise desses grupos dentro do IFBA”, considerando que a instituição “ainda carece de dados efetivos sobre esses sujeitos” e as pesquisas podem contribuir para melhorar esse quadro. “Mas a resposta a esse questionamento virá com as propostas dos colegas, que são livres para suas submissões, desde que atendam aos requisitos do Edital”.

Os requisitos básicos para concorrer a uma vaga de bolsista no PIBIC-Af são: ser estudante do Ensino Superior e ter ingressado na instituição por meio da política de cotas. A quantidade de estudantes depende do número submetidos e aprovados. Cada docente pode solicitar até duas bolsas. O perfil do currículo do(a) professor(a) e o do projeto de pesquisa também serão considerados como critérios de pontuação. “O estudante poderá encontrar no SUAP informações sobre sua modalidade de ingresso para comprovar sua situação de cotista”, explica a professora Verônica de Souza.  

(A partir da esquerda: Verônica de Souza, Flaviane Nascimento e Marcilene  Garcia)

IFBA: APROVADO EM TODOS OS PROGRAMAS DO CNPq – O chefe do Departamento de Pesquisa do IFBA, professor André Martins, explica que o CNPq implementa quatro programas de iniciação científica. “O CNPq oferece às instituições o programa de iniciação científica clássico, o PIBIC, para os cursos de graduação, e as instituições coordenam esses programas, os projetos de pesquisa que serão financiados com as bolsas”. Os outros três programas são:  o PIBITI (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação), também para o ensino superior, mas para pesquisas mais voltadas à aplicação tecnológica e inovação, o PIBIC-EM, que é voltado para o Ensino Médio, e o PIBIC-Af. “Neste ano, submetemos quatro projetos: para o PIBIC, para o PIBIC-EM, para o PIBITI e para o PIBIC-Af. E conseguimos aprovação para ter bolsas do CNPq nos quatro programas”, comemora André, ao informar que anualmente o IFBA tem que submeter um projeto ao CNPq para conseguir participar do programa de iniciação científica da entidade.

“Para além do ingresso da Instituição nesta modalidade, todo o esforço dessa vitória contou com o protagonismo de três professoras negras e um professor negro”, sublinha Marcilene. Segundo ela, o PIBIC-Af vai atender, por meio de bolsas de iniciação científica, exclusivamente estudantes de graduação que foram incluídos pelos programas de ações afirmativas no Instituto. “São os optantes pelas cotas. Atualmente, os grupos beneficiados por reserva fixada de vagas (cotas) são as pessoas com deficiência, os negros (pretos e pardos), indígenas e demais etnias. É necessário que a/o estudante comprove que optou pela modalidade de cotas no seu ingresso no IFBA”, detalha.

A diretora de Políticas Educacionais do IFBA, Flaviane Nascimento, afirma que “historicamente as instituições de ensino e de Ensino Superior notadamente se consolidaram como espaços ocupados por pessoas brancas, seja na condição de docentes, seja de estudantes”. Ela sublinha o papel e a importância das políticas afirmativas na educação, tendo em vista “a ampliação da participação de grupos sociais tradicionalmente alijados desse direito nesses espaços”. Nesse sentido, complementa, a iniciação científica nas ações afirmativas “cumpre um papel importantíssimo, não apenas no sentido de contribuir com a permanência e educação científica dessas e desses jovens, mas, sobretudo, ao contribuir com a possibilidade de um deslocamento da produção do conhecimento, onde pessoas e grupos sociais que, historicamente, foram objetos de conhecimento estão, agora, na condição de sujeitos do conhecimento”.

 Para a professora Verônica de Souza, o fato de a proposta do IFBA ter sido contemplada pelo programa do CNPq representa também uma conquista pessoal e profissional. “Conheço o PIBIC-Af desde que eu era estudante de mestrado da Ufba, antes mesmo de entrar no IFBA. Ingressei no IFBA e quando procurei o setor para saber do procedimento da modalidade tive a informação de que a instituição não a tinha, o que me decepcionou bastante”, conta. Ela afirma que, “com a mudança de gestão”, procurou o professor André Martins, chefe do Departamento de Pesquisa e um dos diretores da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação (PRPGI), e conversou com ele sobre “a possibilidade de ‘corrermos atrás’ dessa modalidade”.

O professor André compartilhou informações sobre as etapas para solicitação de ingresso da instituição no PIBIC-Af e perguntou se poderia contar com o apoio de Verônica nas demandas envolvidas nos trâmites necessários para que o Instituto pudesse participar da chamada do CNPq e concorrer ao ingresso no programa. “Imediatamente concordei e trabalhamos para que a proposta acontecesse”, relata Verônica.

“O IFBA nunca participou desse programa, que é importante porque, além de estimular o estudante a ser pesquisador, mostrar ao estudante os instrumentos para se fazer uma pesquisa, é um programa voltado à inclusão de estudantes que entraram pelo sistema de ações afirmativas.”, avalia André Martins. Segundo ele, o Instituto nunca havia participado do PIBIC-Af porque, para participar deste programa do CNPq, a instituição tem que ter um programa de ação afirmativa. “O IFBA não tinha algo concreto nesse sentido. Este ano, com a entrada da professora Luzia na Gestão e foi criada a Diretoria de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis [a DPAAE, criada no início de março de 2020], então foi possível a gente enviar para o CNPq o cadastro do IFBA como instituição habilitada a participar do PIBIC-Af, e a gente conseguiu entrar para o programa. Foi uma vitória porque a quantidade de bolsas do CNPq é muito pequena, mas o IFBA vai ter essas bolsas”, afirma.

OPORTUNIDADE ‘ÍMPAR’ - Na avaliação de Marcilene Garcia, a participação do IFBA no Programa de Iniciação Científica de Ações Afirmativas do CNPq vai possibilitar avanços e conquistas para discentes e docentes do Instituto, tanto do ponto de vista da produção científica como também na perspectiva do fortalecimento das políticas e ações afirmativas na Instituição.  A professora Verônica de Souza destaca a importância da participação de estudantes e docentes do IFBA no PIBIC-Af, ao afirmar que o ingresso do Instituto no programa do CNPa “vai representar maiores possibilidades de pesquisa para um público contemplado pelas ações afirmativas”.  Segundo ela, muitas vezes é negado “pela estrutura” a esses estudantes o direito de acesso à pesquisa e o ingresso no PIBIC-Af, “o professor não-atento a essas questões terá a oportunidade de acolher os estudantes que ingressaram pelas ações afirmativas”.

Verônica ressalta a necessidade de que os docentes pesquisadores “entendam que sua sensibilidade não encerra na proposição da pesquisa: a responsabilidade começa aí, pois se trata de acolher um estudante que, por vezes, possui menos recursos e precisa de uma assistência mais intensa por conta de sua trajetória”.

Nessa mesma perspectiva, a diretora de Políticas Afirmativas, Marcilene Garcia, é contundente ao afirmar que “é preciso descontruir a ideia de estigma em ser ‘cotista’”. Ela acredita que o edital do PIBIC-Af vai representar “oportunidade ímpar” a participação de docentes “brancos(as) e negros(as)” no processo de mudança da instituição porque as bolsas PIBIC- AF visam a beneficiar estes estudantes em atividades acadêmicas de iniciação científica tão necessárias à vida acadêmica.  

A professora Flaviane Nascimento destaca que a produção do conhecimento a partir de "outras experiências, outras demandas e outras epitemologias" contribui "fundamentalmente" para "a formação discente, docente e para toda a sociedade na medida em que entendemos que existem outras possibilidades de respostas que não aquelas construídas por meio de uma razão eurocêntrica, mas pretensamente universal, que esteve na base da construção dos ordenamentos científicos, econômicos, jurídicos, sociais...no Ocidente moderno, e produziu relações sociais, econômicas e afetivas altamente desiguais. Esse movimento em direção à uma ruptura com o que Chimamanda Adichie chamou de “história única”, que desumaniza, justifica expropriações, escravidão e subalternização”.

INVESTIMENTO EM INCLUSÃO – Nos depoimentos ouvidos pela reportagem do Portal IFBA, há convergência sobretudo na análise sobre a relevância da conquista da Instituição e da importância do investimento da Gestão no processo. “Muito importante grifar duas questões: o fato de que pela primeira vez o IFBA tenha concorrido e sido aprovado no programa de bolsas PIBIC-AF e o fato de que a Gestão, ao reconhecer a importância das bolsas PIBIC-Af, investiu recursos próprios para ampliar o número de bolsas direcionados para negros, indígenas e pessoas com deficiência na iniciação científica”, declara a professora Verônica de Souza.

Nessa mesma direção, Marcilene Garcia ressalta que já são notados “sinais de uma instituição que reivindica uma mudança numa estrutura historicamente pautada pela opressão racial, de gênero e também de classe”, e conclui: “se buscamos uma instituição para todos, os debates precisam ser acessíveis e mais horizontalizados, com a escuta da comunidade. Uma vez que uma gestão se projeta na audição, sem autocracias, vislumbramos a certeza da sua expansão e da intervenção positiva na sociedade. Que, para além de nós, cada indivíduo desta instituição, interessado no crescimento e na harmonia do grande grupo que formamos, possa escrever as linhas da história de um IFBA em consonância com um projeto de direitos e acesso a todos.