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Estudantes destacam suas percepções em meio à pandemia da Covid-19

ENTREVISTA

por Helen Sampaio publicado: 28/04/2020 21h11, última modificação: 28/04/2020 21h22

Com as atividades presenciais suspensas, desde o mês de março, a comunidade do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) tem readequado sua rotina, na medida do possível, a fim de minimizar os impactos do isolamento social decorrente da pandemia da Covid-19. Servidoras/es adotaram o trabalho remoto como uma realidade e buscam encontrar o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Já o corpo estudantil, tenta manter-se ativo nos estudos, mesmo com dificuldades no acesso à internet e, por vezes, enfrentando problemas de maior amplitude que destacam a vulnerabilidade social ainda presente na realidade de muitos. Essa e outras preocupações, angústias e incertezas foram destacadas pelas estudantes Neuzimara Simões, 35, Beatriz Santos, 24 e Maria Heloisa Costa, 18 e pelo estudante Marcos Pablo de Lima, 17.

Portal IFBA – A pandemia da Covid-19 tem causado inúmeros impactos nas vidas dos brasileiros e baianos. Como essa situação atípica que estamos vivendo tem afetado a você e sua família?

Neuzimara - porto seguro
Neuzimara Simões é estudante da Licenciatura Intercultural Indígena, em Porto Seguro e coordenadora indígena da turma, além de professora na rede particular de ensino. Vive na aldeia indígena Pataxó Imbiriba.

Neuzimara - Estamos acostumados com as nossas atividades diárias e o isolamento social nos trouxe a necessidade de nos mantermos em casa, 24h. Marido preocupado em manter a casa com as despesas, filhos cansados de ficarem trancafiados e ansiosos para as aulas. Eu sou professora na rede particular de ensino, e isso também tem me afetado, pois existe ainda a preocupação com a educação dos nossos alunos.

"Marido preocupado em manter a casa com as despesas, filhos cansados de ficarem trancafiados e ansiosos para as aulas. Eu sou professora na rede particular de ensino, e isso também tem me afetado, pois existe ainda a preocupação com a educação dos nossos alunos".

Beatriz - Tem afetado significativamente. Minha família mora em outra cidade, no extremo oeste da Bahia.  Estarmos distantes durante essa crise tem sido um desafio enorme, principalmente pra mim, que estou sozinha.

Maria Heloisa - Aqui em casa a gente tentou bem cedo estabelecer uma rotina, o que confesso foi bem difícil. Os meus pais estão trabalhando de “home office” e isso forçou que a casa tivesse que se reorganizar. Por mais que eu e meu irmão estejamos de férias, a minha irmã mais nova está tendo aula EAD, então ainda tivemos que nos adaptar a isso.

Marcos Pablo - O impacto maior foi psicológico, é um momento de muita reflexão sobre a vida, sobre as relações, sobre o futuro, temos nos mantido unidos para enfrentar esse período.

Portal IFBA - Quais são os aspectos que mais te preocupam nesse cenário?

NeuzimaraA situação financeira, pois temos contas a pagar, e a educação escolar dos alunos de forma geral, não apenas da minha comunidade.

Beatriz - Minha maior preocupação, no momento, é não saber o que vai ser daqui para frente. Não ter perspectiva de quando o isolamento acabará, quais medidas deverão ser tomadas no futuro, como isso vai afetar a vida escolar dos meus alunos na rede particular de ensino...

Maria Heloisa - Com certeza minha maior preocupação é com o Sistema Único de Saúde. Quando a minha mãe teve câncer, mesmo possuindo plano de saúde, ela fez as “quimios” pelo SUS. 26,5% da população do nosso país é pobre e necessita do SUS. Então, o que mais me preocupa é que o Estado não se preocupe com dados e fatos. Em Manaus, o SUS já começou a entrar em colapso... Isso é preocupante.

Marcos Pablo – Atualmente, o que mais me preocupa é a vida dos meus familiares, principalmente dos meus avós que fazem parte do grupo de risco, meu avô paterno, por exemplo, tem 95 anos. Além disso, no que vai acontecer pós- pandemia.

Portal IFBA - O IFBA optou pela não adesão universal do EAD, como uma forma de não excluir do processo de aprendizagem os estudantes que têm dificuldades no acesso à internet. Qual o seu posicionamento nessa discussão?

Neuzimara – O caso especificamente da Licenciatura Intercultural Indígena (Linter), é a dificuldade de comunicação com os alunos a distância. Nem todos têm acesso à internet, outros moram em localidades onde a comunicação é extremamente difícil. Portanto, o IFBA está correto! Não podem excluir ninguém nesse momento. A nova gestora do IFBA é transparente com as questões do Instituto, é solidária e muito responsável na sua função. Está sempre disposta a ouvir as pessoas e buscar resolver as demandas que recebe. Estamos sempre em reuniões, acredito que precisamos manter o diálogo e buscar a igualdade para todos.

"Aplicar o EAD é privatizar, de certa forma, a educação. A gente tem que pagar pela internet, não? E um curso técnico precisa de atividades práticas. Como serão feitas? Nesse exato momento é algo inviável, mas que precisa ser pensado pela Instituição e pelo Ministério da Educação".

Beatriz - Concordo em partes. Entendo a importância de manter o vínculo institucional e a rotina, mas está existindo suporte do IFBA para os alunos e professores? Houve capacitação? A plataforma funciona? Sou a representante do CALFIS (Centro Acadêmico da licenciatura em física) e noto que existe uma tentativa de alguns diretórios acadêmicos de viabilizar as aulas a distância para o ensino superior e subsequente, o que discordo por saber que o acesso à internet e tecnologia não é universal para as pessoas que estudam na nossa Instituição. Vejo que a diretoria do campus tem sido bastante aberta ao diálogo, inclusive solicitou dos representantes dos cursos que levantassem as dúvidas dos estudantes para respondê-las em uma live no Facebook. Acho que esse debate deve levar em conta também a saúde mental de professores e estudantes (existe uma condição psicológica para estar realizando as atividades EAD?). 

Maria Heloisa – A ideia do IFBA sempre foi ter educação pública de qualidade para todos os estudantes que lá estudam, e temos que continuar assim. Aplicar o EAD é privatizar, de certa forma, a educação. A gente tem que pagar pela internet, não? E um curso técnico precisa de atividades práticas. Como serão feitas? Nesse exato momento é algo inviável, mas que precisa ser pensado pela Instituição e pelo Ministério da Educação. Acredito que todo mundo crê que não temos como ter atividades à distância por agora, mas todos nós estamos preocupados com o que será feito, qual decisão será tomada.

Maria Heloisa _campus ssa Foto.jpg
Maria Heloisa Costa está no 2º ano do curso de Refrigeração e Climatização Industrial, em Salvador. É diretora de organização do Grêmio Estudantil Denílson Vasconcelos e desenvolve pesquisa pelo PIBIC.

Marcos Pablo - O IFBA é uma rede muito grande e com o EAD acabaríamos excluindo muitos estudantes que não possuem um ambiente adequado de estudos em casa, pois, além da internet e do dispositivo de acesso, é necessário um espaço para se concentrar nos estudos, que nem todos podem ter. Muitos alunos se manifestaram contra o EAD, alguns por empatia e outros por não ter um ambiente adequado pra estudar, mas também têm aqueles que gostariam de ter aulas a distância por medo de atrasar o calendário que, por exemplo, no nosso campus, estava alinhado.

 Portal IFBA – Os professores do seu curso desenvolvem atividades a distância?

Neuzimara – Algumas atividades foram encaminhadas antes da pandemia, dessa forma, os alunos estão realizando de acordo com o que foi passado.

Beatriz - Meus professores estavam dando aula para o integrado. O superior teve suas atividades suspensas por não termos a porcentagem necessária para migrar de modalidade.

Maria Heloisa - Antes de eu entrar de férias, havia atividades sim. Mas dava para perceber as dificuldades da maioria dos professores e a preocupação. Não estavam preparados para isso, nem os professores e nem os alunos. Toda minha turma conseguiu fazer as atividades a distância, mas sei que não foi a realidade de todos os estudantes da Instituição.

"No IFBA, acho que a busca pelo serviço social de psicologia deve aumentar. Espero que o isolamento também consiga trazer mais humanidade à Instituição, maior valorização das relações".

Marcos Pablo - Sim, alguns passam slides com explicação, outros passam leitura e mapas conceituais. Participo de algumas. A adesão é baixa, creio que muito pela falta de perspectiva sobre o ano letivo. Muitos acreditam que esse será um ano perdido devido à forma que o vírus vem se espalhando ou até mesmo à falta de um espaço adequado de estudo.

Portal IFBA - Quais impactos desse isolamento social você já percebe na sua vida e no IFBA?

Neuzimara – Bem, acho que é o nosso dever pensar em todos, dessa forma, fico me perguntando como os meus parentes indígenas estão conseguindo sobreviver à essa situação. E as nossas crianças que iam para a escola apenas no pensamento da merenda? Acho que o maior impacto ainda é financeiro, pois é impossível lidar com uma crise num país tão desigual. Existem inúmeros estudantes indígenas da Linter, que perderam seus empregos. Alguns dependiam diretamente da prefeitura, com contratos temporários, outros do turismo e do artesanato. A situação é caótica.

Beatriz - campus ssa
Beatriz Santos é estudante da licenciatura em Física, em Salvador, e faz parte do projeto de extensão Física de portas abertas. É também professora na rede particular de ensino.

Beatriz - Apesar de estar lidando com crises de pânico por conta do medo e da solidão, acho que outro impacto importante em minha vida é a preocupação maior com a higiene, que pode vir a ser uma coisa benéfica para todos. No IFBA, acho que a busca pelo serviço social de psicologia deve aumentar. Espero que o isolamento também consiga trazer mais humanidade à Instituição, maior valorização das relações.

Maria Heloisa - Eu sinto falta da minha rotina (nunca achei que ia dizer isso, kkk). Mas ir para o colégio é algo que sinto falta. O IFBA é uma instituição enorme, que tem um pouco mais de 2.500 alunos só no ensino médio, isso sem contar com o superior e os servidores. Acredito que a gente vai voltar parecendo no primeiro dia de aula, quando aquilo era muito novo. Muita gente que estuda na Instituição depende dela para várias atividades, isso me preocupa.

Marcos Pablo - Na minha perspectiva, os maiores impactos estão por vir com a reposição de aulas e a retomada do ritmo de estudo.

Portal IFBA - O IFBA tem tentado prestar acompanhamento à comunidade acadêmica, especialmente nesse período. Como você avalia que as relações entre estudantes, técnico-administrativos e professores estão sendo conduzidas?

Neuzimara – Infelizmente não estou ciente desse acompanhamento. Mas acredito que é importante o acompanhamento de forma geral para os estudantes do IFBA.

Beatriz - Tenho percebido um esforço da Instituição, principalmente em abrir diálogo com a comunidade, como a pesquisa institucional sobre a suspensão das atividades, por exemplo. Achei interessante, também, o incentivo à pesquisa, como aquele edital para projetos de prevenção e enfrentamento da covid 19.

Maria Heloisa - Reconheço os esforços e parabenizo a nova gestão por isso. Acredito que temos que melhorar em muitas coisas, e começar a desenvolver projetos para auxiliar os estudantes no quesito do estudo. Mas fico bastante feliz por continuarem a prestar o acompanhamento psicológico. Tem sido importante para várias pessoas, assim como o auxilio financeiro.

Marcos Pablo - Entre professores e alunos a relação é mais próxima, devido ao dia a dia da sala de aula, com relação aos outros, a comunicação é mais geral. A Instituição divulga muitos comunicados pelas redes sociais do campus e os alunos tiram dúvidas por meio de comentários ou, até mesmo pelo grêmio, que tem o contato de alguns técnicos-administrativos.

Portal IFBA - Qual mensagem você gostaria de transmitir aos seus colegas estudantes e à toda a comunidade acadêmica do IFBA?

"É um tempo de muita incerteza, sei que muitos estão preocupados com seu futuro acadêmico ou com a continuidade das aulas, mas é a hora de abrirmos nossos corações e termos mais empatia com aqueles ao nosso redor". 

Neuzimara – Queridos gestores, coordenadores, professores e colegas. Sabemos que o momento é de total caos, inúmeras famílias estão passando por uma situação delicada e de grande preocupação. Devemos nos solidarizar e ajudar uns aos outros. Não digo apenas com alimentação, precisamos ouvir o colega que tanto precisa de um ombro amigo, mesmo que distante. Precisamos pensar naquelas pessoas que são extremamente ansiosas e que devem estar numa agonia imensa. Vamos ter mais EMPATIA, pois não seremos mais os mesmos depois dessa loucura que o mundo está passando. Vamos dar mais valor à família, às amizades, à simplicidade e pensarmos com mais amor ao próximo. Juntos venceremos!

Beatriz - Gostaria de dizer que o medo é inevitável em momentos de crise e que é essencial encontrar quais fatores contribuem para o desespero e tentar amenizá-lo, buscar atividades prazerosas e contato (ligações, vídeo-chamadas...) com as pessoas que amamos. Sairemos dessa crise mais fortes, empáticos e solidários.

Marcos - Ilhéus
Marcos Pablo (na esquerda) é estudante do 3º ano de Edificação, em Ilhéus. Atualmente é o coordenador geral do Grêmio Costa do Cacau e faz parte de um grupo de teatro no campus.

Maria Heloisa - Todos nós estamos com saudades de uma resenha, de uma festinha, eu sei, eu também estou. Mas, quanto mais rápido a gente ficar longe um do outro, mais rápido a gente vai poder ficar juntinho e fazer nossas aglomerações. Para quem está tendo de sair de casa, por favor, cuidado. Não se esqueça de usar máscara, usar álcool em gel e lavar bastante as mãos.

Marcos Pablo – É um tempo de muita incerteza, sei que muitos estão preocupados com seu futuro acadêmico ou com a continuidade das aulas, mas é a hora de abrirmos nossos corações e termos mais empatia com aqueles ao nosso redor. Ficar em casa é proteger a si mesmo e aos outros, e é, acima de tudo, respeitar o trabalho daqueles que não podem se isolar. Cuidem-se, procurem ajudar os que necessitam perto de vocês e como já estão cansados de ouvir, fiquem em casa!