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Estudante do IFBA é co-autora de livro sobre lutas dos Tupinambá pela recuperação dos territórios indígenas na Bahia

Aluna da Licenciatura Intercultural Indígena do IFBA, Glicéria da Silva, conhecida como Glicéria Tupinambá, assina a obra ‘Os donos da terra’, produzida em parceria com a antropóloga Daniela Alarcon e o quadrinista Vitor Flynn Paciornik.
por Bárbara Souza publicado: 05/09/2020 09h25, última modificação: 05/09/2020 20h58

“É um sonho se concretizando”.  A estudante da Licenciatura Intercultural Indígena do Campus Porto Seguro e co-autora do livro, Glicéria Jesus da Silva, resume assim o lançamento de Os donos da terra (Editora Elefante, 172 páginas). Com arte de Vitor Flynn Paciornik, a obra é um quadrinho baseado na pesquisa antropológica realizada por Glicéria Tupinambá, como é conhecida, e Daniela Fernandes Alarcon, doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ).  O livro, que está em pré-venda no site da editora, aborda a história de lutas dos Tupinambá da Serra do Padeiro, no sul da Bahia, para retomar territórios dos quais foram expulsos durante o processo de colonização.

“Anteriormente, a gente já lutava para se manter na terra, no território, apesar de que já tinha sido tudo tomado. E estava ficando mais tensa ainda a questão do desmatamento, da caça ilegal. Nós nos reunimos, o grupo de jovens, e iniciamos a retomada”, conta Glicéria Tupinambá, que além de estudante do IFBA é professora do Colégio Estadual Indígena Tupinambá Serra do Padeiro (CEITSP). Segundo ela, atualmente o povo Tupinambá está no território e “foram suspensas todas as liminares de reintegração de posse”. Mas a tensão permanece. “Nossas lideranças hoje vivem todas ameaçadas de morte, com várias situações graves”, afirma.

A pesquisadora Daniela Alarcon, co-autora de Os donos da terra e responsável pelo roteiro do livro, lembrou que desde o início dos anos 2000, os Tupinambá estão mobilizados para garantir “seus direitos territoriais”, e o processo de demarcação da Terra Indígena Tupinambá de Olivença (BA) teve início em 2004. “Mas ainda não foi concluído, violando-se todos os prazos legais”. Desde então, relata, os Tupinambá passaram a realizar “ações diretas”, conhecidas como “retomadas de terras”, para recuperar o território. Em entrevista concedida por e-mail à reportagem do Portal IFBA, Daniela afirma que o livro tenta comunicar a um público mais amplo “a beleza e a força da luta dos Tupinambá, bem como a urgência da conclusão da demarcação de sua terra”.

“Quando os próprios Tupinambá participam da pesquisa, como pesquisadores, há certamente uma outra forma de descrição e interpretação dos dados. Assim, o pesquisador indígena terá um ponto de vista sobre a pesquisa, que o não indígena certamente não alcançará. O livro em questão é, então, uma soma muito interessante do ponto de vista da pesquisadora indígena com a pesquisadora não indígena. Essa junção oferece novos caminhos para a pesquisa acadêmica”, declara o coordenador da Licenciatura Intercultural Indígena do IFBA, professor Francisco Vanderlei da Costa, ao destacar a importância da participação de Glicéria na pesquisa que resultou no livro Os donos da terra.

Segundo ele, a Licenciatura Intercultural “prima pela relação próxima e interativa dos estudantes com suas comunidades” pois o curso considera que as atividades que são desenvolvidas na comuidade pelos estudantes contribuem para com o processo de aprendizagem de cada um. “No caso do livro Os donos da terra, nossa estudante participa de forma ativa, mostrando que a metodologia adotada na Licenciatura Indígena está preparando nossos estudantes para, além de serem professores, se sentirem aptos a participar de outras atividades de construção de conhecimento”, conclui.

Foto: Paulo Lugon Arantes/Cimi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ENTREVISTAGLICÉRIA TUPINAMBÁ, co-autora do livro Os donos da terra 

 As primeiras palavras de Glicéria ao ser instada a falar um pouco sobre sua história de vida:  “Sou conhecida como Glicéria Tupinambá, sou militante do movimento indígena”. Ela contou ao Portal IFBA que ao longo do tempo em que militou mais intensamente no movimento, não teve oportunidade de estudar. “Na maior parte do tempo estava junto na luta para a garantia do território”. Mas, eis que surgiu a oportunidade. “Participei da seleção do IFBA e fui aprovada”, conta, ao lembrar que já como estudante da Licenciatura Intercultural Indígena iniciou “a luta pela questão do colégio” [Colégio Estadual Indígena Tupinambá Serra do Padeiro (CEITSP), no qual Glicéria ensina]. “Participei também da criação do Colégio Tupinambá de Olivença. Tenho um trabalho muito voltado para a questão da educação aqui na comunidade”, explica, ao relatar que foi “migrando” para a questão do movimento indígena e contar que “eu era atuante” na Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI), que funcionou por um período. A co-autora de Os donos da terra contou também que faz  parte das multiplicadoras da voz das mulheres indígenas na ONU. “Com isso, com meu memorial e as entrevistas, eu fiz a prova, fui aprovada, consegui a vaga e estou cursando [a Licenciatura Intercultural Indígena, no Campus Porto Seguro] e os professores maravilhosos...”

Portal IFBA:  Você pode falar um pouco sobre a luta dos Tupinambá da Serra do Padeiro pela retomada dos territórios?

Glicéria: A nossa luta pelo território já vem há um tempo, mas se deu oficialmente junto ao governo a partir de 2000, quando vieram os antropólogos, os historiadores, veio toda uma equipe para identificação do território oficialmente. Anteriormente, a gente já lutava para se manter na terra, no território, apesar de que já tinha sido tudo tomado. E estava ficando mais tensa ainda a questão do desmatamento, da caça ilegal. Nós nos reunimos, o grupo de jovens, e iniciamos a retomada. Hoje já temos o território, que está para ser assinado pelo ministro da Justiça. O processo já venceu todas as contestações, e está na fase de assinatura pelo ministro da Justiça e homologação pelo presidente da República. Atualmente, estamos no território e foram suspensas todas as liminares de reintegração de posse. Temos várias áreas de retomada, nas quais desenvolvemos agricultura de subsistência, criação de animais de pequeno porte e o trabalho aqui na região é sobre a lavoura cacaueira, também cuidamos da questão do plantio de mandioca e da farinha – a reconhecida farinha de Buerarema.  Hoje a comunidade tem duas associações e uma cooperativa. Temos o grupo de mulheres, temos o grupo de jovens “agricultura, educação e saúde”, tudo dentro do departamento da associação atuante dentro da comunidade. Nossas lideranças hoje vivem todas ameaçadas de morte, com várias situações graves. Já fizemos várias denúncias, inclusive em outros países, sobre as ameaças que o nosso povo tem sofrido aqui na Serra do Padeiro.

Portal IFBA: Como foi a sua participação na pesquisa e na construção da obra?

Glicéria: Eu e Daniela [Alarcon] já vínhamos conversando há um tempo, e ela tinha me mostrado um livro sobre os índios guarani, que foi feito pela Editora Elefante e a Fundação Rosa Luxemburgo. Aí, ela teve a ideia “a gente poderia fazer um trabalho com gibis’, para alcançar vários públicos. Fizemos o projeto enviamos para uma editora, que demorou de nos responder, e quando respondeu queria mudar a pesquisa. Para fazer o projeto, o ilustrador passou uns três dias na comunidade. Foi em Olivença, veio aqui na Serra [do Padeiro], a gente mostrou outros lugares, para ele conhecer melhor a comunidade. É uma pessoa que tem um talento e uma sensibilidade sem igual! Como recebemos o descarte da editora, a gente pensou em editais ou até em fazer uma vaquinha online. Mas inscrevemos o projeto num edital em São Paulo e fomos aprovados. Aí a gente começou a desenvolver o trabalho. Foi tudo conjunto, foi um trabalho que desenvolvemos bem juntos. Conseguimos agora fazer a publicação e iniciar a divulgação. É um sonho se concretizando.

Portal IFBA: Como você define a importância do livro e qual é a importância, para você, de ter participado da construção da obra?

Glicéria: Defino como muito importante. Porque toda a vida a gente vai vendo nas historinhas em quadrinhos, a gente vai vendo a Turma da Mônica, vai vendo toda uma história, mas nunca vê nós autores na própria história, uma história que foi real, que a gente sente na própria pele. Porque muitas pessoas não vão se ver nas histórias de Branca de Neve, de Chapeuzinho Vermelho, mas se você for ver a nossa história real de luta, de vivência...isso é importante que o outro vai ver, vai sentir na pele...A emoção é outra. Vai dar outro olhar, olhar crítico e vai ver como foram tratados os verdadeiros donos da terra. Esse olhar para o enfrentamento, o papel da mulher, como o jovem atua, as lideranças. Então, cada papel é importante que a gente observe.

Portal IFBA: Como foi o processo de orientação da pesquisa?  Você contou com a orientação de um(a) docente do IFBA?

Glicéria: No IFBA, as orientações eu tinha visto com as aulas da professora Carla [Carla Camuso, professora da Licenciatura Intercultural Indígena, que é mestre em Educação pela Universidade de Brasília (UNB), graduada em Artes Plásticas pela Ufba, e foi supervisora do Programa Saberes Indígenas – Uneb/IFBA]. Ela explicava muito bem sobre a questão da arte nas aulas. Era muito interessante! Tenho o professor Francisco Vanderlei [Francisco Vanderlei da Costa, professor e coordenador da Licenciatura Intercultural Indígena], um professor excelente, que é meu professor-orientador no meu TCC sobre a língua indígena. Os professores nos orientam sobre como fazer o projeto, como atender, para ter um material interessante, de qualidade sobre a questão indígena.

 

DANIELA FERNANDES ALARCON, doutora em Antropologia Social e co-autora do livro Os donos da terra

A reportagem do Portal IFBA entrevistou por e-mail a pesquisadora Daniela Fernandes Alarcon, co-autora do livro, doutora em Antropologia Social pela UFRJ e mestre em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB). A pesquisadora explicou que Os donos da terra foi lançado no início de setembro, com distribuição para livrarias de todo o país. “Em função da pandemia, não houve condições de organizar um evento de lançamento presencial, mas realizaremos no próximo dia 30 de setembro um bate-papo virtual com os três autores, com moderação do editor da Elefante (Tadeu Breda), nas redes da livraria Tapera Taperá (https://taperatapera.com.br/)”, anuncia. Ela explica que a obra será distribuída gratuitamente para todas as escolas municipais e estaduais de ensino fundamental e médio da região onde se situa a Terra Indígena Tupinambá de Olivença (municípios de Buerarema, Ilhéus, Itabuna, São José da Vitória e Una), para todas as escolas estaduais indígenas do estado da Bahia, para uma seleção de escolas públicas do município de São Paulo – o livro foi realizado com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. “E, claro, para os Tupinambá das diversas localidades que compõem a terra indígena”, destaca.

Portal IFBA: As pesquisas sempre partem de uma inquietação, uma reflexão, um 'problema' e têm em geral uma motivação/interesse pessoal do(a) pesquisador(a) sobre o objeto de pesquisa.  Pode contar um pouco sobre sua relação com o tema do livro especificamente e seu interesse em pesquisá-lo? 

Daniela Alarcon: Meu foco de atuação principal é o sul da Bahia. Há dez anos desenvolvo investigações etnográficas junto aos Tupinambá da aldeia Serra do Padeiro, na Terra Indígena Tupinambá de Olivença (BA), debruçando-me sobre a atuação política dessa coletividade, particularmente sobre as ações de retomada de terras e as dinâmicas de mobilização de parentes. Desse trabalho, resultaram uma dissertação de mestrado (Instituto de Ciências Sociais/UnB, 2013) e uma tese de doutorado (Museu Nacional/UFRJ, 2020). No ano passado [2019], a dissertação virou livro (O retorno da terra: as retomadas na aldeia tupinambá da Serra do Padeiro, Sul da Bahia), também pela [Editora] Elefante, após receber um prêmio de publicação da Sociedade para a Antropologia das Terras Baixas da América do Sul (Salsa). Em conjunção com a produção mais marcadamente acadêmica, tenho me esforçado para comunicar minha experiência de pesquisa em diferentes linguagens, de modo a dialogar com outros sujeitos e, eventualmente, contribuir para a garantia dos direitos dos povos indígenas e o fim das violações contra esses grupos. Assim, em 2015, dirigi o documentário de curta-metragem Tupinambá - O Retorno da Terra e, este ano, lançamos a HQ [história em quadrinhos]. O livro reúne sete narrativas em aquarela, que abordam lances da mobilização, da cosmologia e outros aspectos da vida tupinambá.

Portal IFBA: O livro é em HQ. A ideia é alcançar também o público infantil? 

Daniela Alarcon: O livro é pensado para adolescentes, jovens e adultos. A escolha do formato tem a ver com algumas razões. Primeiro, o convite da [Editora] Elefante, que, em 2016, publicou uma HQ desenvolvida junto aos Guarani Mbyá de São Paulo e se interessou em editar um trabalho mais ou menos nos mesmos moldes junto a outro povo. Depois, a experiência do Vitor Flynn, quadrinista e ilustrador, com a linguagem. Finalmente, o fato de sermos leitores e admiradores de histórias em quadrinhos, em diferentes vertentes. Parece-me uma linguagem muito fecunda para tratar de aspectos menos evidentes da mobilização política, trazendo ao primeiro plano as subjetividades e conjugando a rica oralidade tupinambá a aspectos visuais, que expressam com muita força dimensões como a territorialidade, a memória social e o parentesco, entre outras.

Portal IFBA: Poderia falar brevemente sobre as lutas dos Tupinambá da Serra do Padeiro, pela retomada dos seus territórios e a importância histórico-cultural e social de um livro sobre esse processo?

Daniela Alarcon:  Desde o início dos anos 2000 os Tupinambá estão mobilizados em face do Estado brasileiro demandando a garantia de seus direitos territoriais. Em 2004, teve início o processo de demarcação da Terra Indígena Tupinambá de Olivença, mas ele ainda não foi concluído, violando-se todos os prazos legais. Desde então, os Tupinambá passaram a realizar ações diretas, conhecidas como retomadas de terras, para recuperar o território. Essa estratégia se destaca na Serra do Padeiro, a aldeia mais ao interior da terra indígena, situada em seu extremo oeste. Penso que se trata de uma história muito mobilizadora, que deixa ver a colonialidade e o racismo do Estado brasileiro e da sociedade mais amplamente, mas também a tenacidade, coragem e criatividade da resistência tupinambá. O livro lança um olhar sobre esse processo, e tenta comunicar a um público mais amplo a beleza e a força da luta dos Tupinambá, bem como a urgência da conclusão da demarcação de sua terra.