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Encontro Mulheres da Bahia movimenta debate na Reitoria

por Helen Sampaio publicado: 10/03/2020 11h48, última modificação: 01/04/2020 17h43
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  • "> Vozes que Ecoam - Fotos Isadora Melo
  • "> Cacilda Reis
  • "> Marcilene Garcia
  • "> Rita Batista
  • "> Jéssica Senra
  • "> Mesa

Assédio, feminicídio, machismo, racismo e acessibilidade foram alguns dos temas debatidos no Encontro Mulheres da Bahia: vozes que ecoam, promovido pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), nesta segunda-feira (9), em celebração ao Dia Internacional da Mulher.  A plateia - formada predominantemente por mulheres, servidoras e estudantes da instituição - debateu os desafios enfrentados diariamente pelas mulheres e, especificamente, por mulheres negras.

A mesa de discussão foi composta pela reitora, Luzia Mota, as pesquisadoras do IFBA, Cacilda Reis e Marcilene Garcia de Souza e as jornalistas Jessica Senra e Rita Batista, que compartilharam suas experiências profissionais e pessoais no enfrentamento aos diversos tipos de intolerância.

Luzia destacou a importância do evento como um espaço de discussões importantes para o IFBA. Lembrou ainda, o compromisso - assumido na sua campanha eleitoral - de implantação de políticas afirmativas que permitam a permanência dos estudantes na instituição, antes de anunciar a criação da Diretoria de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis (DPAAE), fruto do trabalho realizado por uma comissão formada por dez mulheres do IFBA e que terá à sua frente as duas pesquisadoras presentes na mesa.

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Luzia Mota - Reitora do IFBA

Baseando-se nas “vozes” de mulheres que passaram pelo seu percurso formativo, Cacilda pontuou os resultados obtidos nas pesquisas realizadas no mestrado e doutorado, que buscaram analisar, respectivamente, o processo de formação de mulheres no antigo CEFET e a inserção delas no mercado de trabalho e a trajetória de dançarinas na Bahia e na França que viram na migração internacional uma oportunidade de melhoria de condições socioeconômicas. O atendimento aos estudantes e às suas famílias, suas expectativas, ansiedades, angústias e dificuldades acadêmicas e financeiras também foram questões abordadas pela assistente social.

“As políticas de ações afirmativas e assistência estudantil contribuem de forma decisiva para o acesso à permanência e o êxito quando procuram atender às diversas demandas apresentadas pelos estudantes que ingressam no instituto. Assistir ao estudante vai muito além do pagamento de auxílios. É fundamental desenvolver ações que contemplem outras dimensões subjetivas, emocionais e de saúde, além de considerar a trajetória educacional, a interrupção de estudo e a evasão. É preciso estabelecer uma relação orgânica entre assistência estudantil e ações afirmativas”, esclareceu Cacilda.

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Mesa do Encontro Mulheres da Bahia - Crédito/Foto: Isadora Melo

Nomeada diretora da DPAAE nesta segunda, Marcilene mencionou a sub-representação das mulheres no serviço público federal, um dos seus temas de estudo, a invisibilidade das mulheres negras e a importância de elas preencherem os “espaços de poder”. “Nossa história negra é uma história de injustiça. Então, os lugares que a gente pode estar para poder fazer e poder fazer melhor para a população negra, é o lugar que eu quero estar e, sobretudo, sabendo que nós negros e nós mulheres negras não temos ocupado, historicamente, os espaços de poder”. Sobre a diretoria, classificou o momento como de “muita revolução dentro do IFBA. A gente precisa comemorar que o movimento IFBA Negro provocou, que Luzia reconheceu, tentou institucionalizar e que os conselheiros aprovaram. E agora nós precisamos de muito apoio para institucionalizar essa política e fazer o que tem que ser feito”, disse.

IMG_3424.JPGRita, que ingressou no antigo CEFET para se tornar radialista, enfatizou a importância de eleger mulheres para os cargos políticos, como um ato de militância e lembrou o conceito de “lugar de fala” de mulheres negras e brancas. ”Todas as pessoas desse país e do mundo, que são de fato pessoas de bem, precisam lutar, precisam fazer da sua vida um exercício de militância. Um exercício de militância para enfrentamento dessas mazelas que permeiam a nossa sociedade desde a sua fundação”, declarou.

Em sua fala, Jessica reconheceu possíveis privilégios do seu “lugar de fala” e repudiou a constante exclusão de vozes femininas negras ao longo da história. “Normalmente, me questiono muito sobre qual é o meu lugar e o que eu posso fazer. Já fui acusada muitas vezes de falar de uma dor que não é a minha, por exemplo, embora eu procure falar a partir do ponto de vista de uma mulher branca que fala muitas vezes para brancos. Como eu não vivencio o racismo, eu preciso estudar. Eu preciso conversar com quem vivencia e me debruçar no tema. Por isso, eu peço a compaixão de não me colocarem em uma posição de fada sensata porque eu não sou sensata. Eu estou olhando para o que estou conseguindo. Enquanto eu estou defendendo mulheres, talvez defendendo mais brancas do que negras, estou fechando os olhos para mulheres com deficiência, por exemplo, porque não vivencio isso, porque não tenho um familiar com uma deficiência, mas preciso começar a olhar, já que a luta é por todas as mulheres. No fim das contas, a luta é pela humanidade”, finalizou.

No espaço para perguntas e contribuições à discussão, o destaque ficou com as falas da comunidade acadêmica sobre o assédio sofrido pelas mulheres dentro da instituição e as possíveis formas de combater o problema. A reitora elencou três dimensões em que a gestão pretende atuar: a dimensão da prevenção, a pedagógica e a da punição. “Vamos convocar as pessoas dentro da instituição que estejam dispostas a trabalhar no projeto de criação de uma estrutura para tratar políticas de combate ao assédio, aliado à atuação do Comitê de Ética, à Correição e ao Núcleo de Mediação de Conflitos, para que todas essas estruturas juntas consigam trabalhar o assédio em todos os espaços: nos campi, na Reitoria, o assédio de professor para estudante, de servidor para servidor, o assédio que ocorre com os trabalhadores e trabalhadoras terceirizadas. A gente vai caminhar nesse sentido e, quando a comunidade tiver apropriada dessa questão, a gente não vai mais precisar conviver com isso”, concluiu.

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