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Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é – filhos e home office

Na Rede Federal de Educação, quase 95% dos trabalhadores estão trabalhando remotamente, de casa: são 276.829 servidores. Muitos são mães e pais que têm o desafio de dividir o tempo entre as demandas profissionais, tarefas domésticas e os cuidados e atenção com os filhos.
por Janaina Marinho publicado: 06/07/2020 14h11, última modificação: 06/07/2020 23h35

Brincadeiras, atividades escolares, atividades domésticas e home office – tudo junto. Essa tem sido a realidade de muitos lares durante a pandemia de covid-19. Apesar da maior parte das orientações de trabalho remoto girar em torno da organização do trabalho, com planejamento, organização do tempo e ergonomia, pouca visibilidade tem tido o cuidado aos filhos de quem está fazendo trabalho à distância por boa parte das empresas e textos na imprensa.

Com a quarentena e o isolamento social, as crianças estão fora da escola. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) calcula que, apenas na América Latina e Caribe, esse número passe dos 154 milhões de crianças.

Para os pais, além de todas as dificuldades e preocupações da pandemia, ainda é preciso lidar com uma dose extra de trabalho. Mas os profissionais de saúde alertam para um tratamento e um olhar ainda mais cuidadoso com as crianças. “Acredito que essa invisibilidade pode ser refletida, por exemplo, nos muitos memes e brincadeiras que temos visto nas redes sociais em que os pais são colocados como verdadeiras ‘vítimas’ das crianças nessa rotina do isolamento. É preciso ter cuidado para não deixar que recaia sobre as crianças a responsabilidade por todo o trabalho a mais que estamos tendo com elas nesse momento. Elas estão passando por um momento de muita restrição e certamente estão sentindo falta da vida de antes tanto quanto nós. É preciso estar atento a eles, escutá-los e responder suas dúvidas com muita empatia e carinho”, explica a psicóloga da Copsi – Dequav, Ludmilla Gondim Passos, que é mãe dos gêmeos de 1 ano e 8 meses, Maria e Francisco.

Ludmilla, Daniel, Francisco e Maria
Ludmilla amamenta nas madrugadas, descansa pela manhã enquanto o pai cuida dos gêmeos e o turno fica reservado para leituras e brincadeiras. Trabalha após o almoço, enquanto os filhos dormem e depois o tempo é curtido em família. Cozinhar com os pequenos, brincar, fazer as atividades lúdicas da escola e dançar estão no cotidiano. O tempo que sobra é compartilhado com o marido, com quem divide também todas as atividades domésticas.

De acordo com o levantamento do Ministério da Economia, do período de 8 a 12 de junho, 63,28% dos servidores do Poder Executivo Federal civil estavam em trabalho remoto, isso totalizava 360.952 profissionais. Na Rede Federal de Educação, que inclui os institutos, as universidades e outras instituições de ensino federal, o percentual em trabalho remoto chega a 94% do total dos trabalhadores, são 276.829 servidores fazendo seu trabalho de casa. O número é grande, mas não se sabe ao certo quantas dessas servidoras e servidores estão com crianças em casa.

Uma dessas servidoras é Paula Roberta Sá, assistente social do campus Camaçari, mãe de Luana, de 2 anos e 9 meses. Roberta começa o dia às 6h30 e vai dormir às 22h30. Faz o café, atividade física, supervisiona a brincadeira da filha enquanto arruma a casa e faz o almoço, após o almoço e durante o cochilo de Luana realiza as atividades de trabalho, depois orienta as atividades da escola, brinca, janta e bota Luana pra dormir. Pela noite, o pai compartilha com ela os cuidados a Luana e, às vezes, ainda volta ao trabalho para concluir atividades.

“Está sendo desafiador por um lado, e por outro bem gratificante, porque posso acompanhar de perto seu desenvolvimento (melhor parte de tudo isso). No entanto, como estou tendo muitas demandas de trabalho nesse período, muitas vezes tenho que criar estratégias/atividades que prendam a atenção dela por mais tempo para que eu tenha a concentração necessária para desenvolver minhas demandas laborais, pois nem sempre dá para realizar essas atividades com ela dormindo (seria bom né?! risos). Tenho apelado para os livros, atividades com água (ela ama) e a TV tem sido mais presente do que antes da pandemia.”, conta Roberta Sá.                                                 

Paula e Luana

Como explica a psicóloga Ludmilla Gondim Passos, o momento exige que além de pacientes, os pais sejam mais flexíveis, tanto com as crianças quanto com o trabalho. “Acredito que o maior desafio seja lidar com a autocobrança. Como assim eu estou em casa o dia inteiro e não consigo ser a (o) melhor mãe (pai) que o meu filho poderia ter ou a servidora (o) dedicada (o) que sempre fui? É preciso entender que a melhor mãe para o seu filho é a mãe possível nesse momento e que, muitas vezes, essa será a mãe cansada, estressada e sobrecarregada. E tudo bem. A ampla maioria das mães não vai conseguir dar conta de criar atividades pedagógicas incríveis todos os dias nem de evitar que comam doce em excesso ou passem um dia ou outro em frente à televisão. Ninguém estava preparada para dar conta de tudo isso de um dia para o outro”, conclui.

A Sociedade Brasileira de Psicologia tem divulgado informações e orientações aos profissionais da área sobre o apoio psicológico nesse período de pandemia. Para os pais de crianças de zero a 11 anos, há o alerta sobre crescimento do estresse, ansiedade e sensação de impotência num cenário de distanciamento social e impossibilidade ou dificuldade de trabalhar ou perda do emprego. Também é feita a orientação de mais atenção e paciência aos pequenos, já que eles têm medo da doença, sentem saudades dos amigos e parentes, mas não conseguem compreender o que está ocorrendo.

Os profissionais da área têm relatado um aumento no atendimento, principalmente, para aqueles que estão conciliando home office e filhos. “Até o presente momento, realizei 89 atendimentos desde que iniciamos o trabalho remoto. Desses, 27 foram de servidoras (mães) que relataram dificuldades em conciliar o home office com a maternidade em tempo integral. Quanto aos servidores do sexo masculino, recebi apenas 1 com este relato. Acredito que esses dados apontam sim para a maior presença de agentes estressores na rotina daqueles que têm que conciliar o home office com os cuidados com os filhos (e com a casa) e que esse seja um problema que ainda afeta de forma mais significativa as mulheres, apesar do crescente e evidente envolvimento dos pais nos cuidados com os filhos nos últimos anos”, explica Ludmilla Gondim Passos.

O chamado “trabalho invisível”, que contempla o trabalho doméstico e o cuidado com as pessoas, realmente está mais sob a responsabilidade feminina. Os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2019 mostram que 85,7% da população realizaram afazeres domésticos no Brasil, isso corresponde a 146,7 milhões de pessoas. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) sobre Outras Formas de Trabalho 2019, a participação das mulheres foi de 92,1% contra 78,6% dos homens. Quando a análise é ao cuidado com parentes, que envolve as crianças, a pesquisa mostra que 31,6% da população estão responsáveis por essa atividade, isso significa 54,1 milhões de pessoas. A predominância é feminina com 36,8% contra 25,9%.

Quando essas atividades são compartilhadas fica mais fácil conciliar os afazeres com os cuidados aos filhos. Para o analista de sistemas, da Proex, Sérgio Peneluc, pai de Raissa e Guilherme, de 16 e 7 anos respectivamente, a rotina tem sido similar ao trabalho presencial. “Só que muito mais longo. Com o trabalho remoto, fica difícil controlar a jornada de trabalho. Já me peguei várias vezes fazendo as atividades de madrugada. Mas está sendo fácil conciliar o home office com tudo. Já trabalhei muitos anos remoto, antes do IFBA. Além disso, tenho o suporte da minha esposa. Sem ela não seria possível”, explica.

Para a assistente social, Paula Roberta Sá, o suporte é necessário e a interação com outras mães, mesmo que virtual, cria uma rede importante para passar por esse momento. “Tento manter a mente tranquila para lidar com todas as incertezas desse período atípico que estamos vivendo e, principalmente, para tentar não passar tanta ansiedade para ela (Luana). Outro desafio é tentar me blindar de algumas notícias, pois além da pandemia ainda temos que passar por questões políticas, econômicas, sociais e morais que assolam nosso país nesse contexto e que abalam nosso equilíbrio emocional. Conversar com meu esposo sobre o assunto e compartilhar esses momentos com amigas e em grupos de mães no whatsapp tem me ajudado bastante. Não estamos sozinhas!”.

Arthur e Ivan
Outro pai que está em trabalho remoto nesses tempos é o jornalista do campus Jequié, Ivan Bezerra. Ele é pai de Arthur, de 13 anos, e combina a atenção ao filho com as atividades do IFBA. “Tenho a vantagem de já ter um adolescente em casa. Ele já se vira muito bem com os deveres da escola e o acesso ao mundo digital, por onde tem acessado todo conteúdo escolar. No mais, ele não dá trabalho. O desafio do momento tem sido as incertezas em relação ao futuro. A instabilidade dos cenários econômico, político e social nos coloca em um nível de preocupação que costuma afetar o nosso ânimo e, consequentemente, a nossa saúde. Ou seja, além do receio em torno da própria covid-19, temos que saber combater nossos dramas pessoais que se sobressaem em períodos como este”, conta o jornalista.


Mais tempo de convívio - Apesar do momento difícil, as mães e pais estão tendo uma oportunidade única de ficar mais tempo com os filhos. Confira os comentários.

 “De fato, a pandemia nos fez olhar para dentro de nós e vivenciarmos de forma mais intensa a relação com os filhos, com a família. Para mim tem sido um aprendizado diário e busco nessa troca com Luana, resgatar a leveza, o sorriso e o amor genuíno que as crianças têm. Quem num momento de estresse como esse aguenta um "Eu te amo, mamãe!!! com aquele sorrisão"? Tudo isso me faz acreditar que está tudo bem, que vamos passar por tudo isso e que estamos no caminho certo. Envolvê-la em algumas tarefas do cotidiano tem funcionado por aqui, ela curte muito "ajudar" a mamãe e ficamos mais próximas. Alguns dias difíceis e outros mais leves e divertidos. Vamos vivendo um dia de cada vez...” , conta Paula Roberta Sá.

Para Ludmilla Gondim Passos o momento é único. “Com certeza. Tenho falado frequentemente sobre isso. Está sendo uma grande oportunidade de presenciar 24 horas por dia essa fase tão especial do desenvolvimento dos meus filhos. Aquisição da linguagem verbal, desenvolvimento de habilidades sociais, aprimoramento da coordenação motora e do equilíbrio, primeiros sinais do desfralde… tudo isso está acontecendo agora e o home office me possibilita presenciar e vibrar com cada uma dessas conquistas!”

Segundo Sérgio Peneluc, o momento pode despertar um novo olhar nas instituições. “Sem dúvida. Não existe melhor campanha de ambiência. Já trabalhei em empresas gigantes e elas sempre gastaram fortunas para melhorar o ambiente na empresa. Só que as melhores já descobriram que elas gastavam errado, pois gastavam muito para manter os profissionais em um só local e muito mais para mantê-los felizes. Um grande erro, mas que só as empresas com gestores inteligentes e de sucesso já sabem”, explica o analista de sistemas. 

De acordo com Ivan Bezerra, com um filho adolescente as mudanças do momento não foram complicadas como para muitos pais. “Na verdade, não senti tanta diferença em relação a esse tempo por trabalhar basicamente no mesmo período das aulas escolares do meu filho. Na quarentena, com as aulas online do meu filho no mesmo horário das aulas presenciais, ele fica reservado no quarto em aula durante toda a manhã. Ou seja, continuamos nos vendo e tendo contato na mesma quantidade de tempo de antes o que foi benéfico para que não sentíssemos tanto o impacto da alteração de rotina.”,conta o jornalista.

O futuro – Com um cenário incerto e um cotidiano atribulado, mães e pais refletem sobre qual lição e lembranças querem que esses dias deixem para os filhos. Confira os comentários

A assistente social Paula Roberta Sá deseja que o tempo da pandemia seja lembrado “como um momento de amor intenso e cuidado. Como uma fase diferente: sem a escola, sem o contato com os amiguinhos, sem as brincadeiras na rua, sem um contato maior com os avós e tios, mas cheia de amor e de memórias afetivas que estão sendo criadas de outras formas...através de chamadas de vídeos, de parabéns virtual, de uma convivência mais intensa, fortalecendo ainda mais os valores que passamos  para ela diariamente”, conclui. 

Já Ludmilla Gondim Passos espera que esse dias fortaleçam ainda mais sua família. “Acredito que por serem ainda tão pequenos, lembrarão muito pouco disso no futuro. Mas gostaria que lembrassem desse como um período em que, apesar de toda a dor, tristeza e dificuldade, nós conseguimos superar tudo unidos como uma família, com muito carinho, companheirismo, cumplicidade e amor”, explica a psicóloga. 

Para Sérgio Peneluc as famílias podem aproveitar o momento. É uma “grande oportunidade para conviver e ter seus pais ao lado. Não existem momentos assim no dia a dia comum,” acredita, o servidor da Proex.

Para Ivan Bezerra, o momento é muito importante para a formação do filho. “Creio que ele sairá mais fortalecido desse período por já estar compreendendo o valor das boas relações humanas. O isolamento também nos obriga a pensar mais sobre o sentido da vida e os nossos propósitos futuros. Então, de forma geral, penso que ele tende a se desenvolver melhor e a encarar os problemas futuros com mais sabedoria”, conclui o jornalista do campus Jequié.


A matéria foi escrita por Janaína Marinho, jornalista da DGCOM, mãe de Ian, de um ano e 6 meses, e finalizada às 2h54, após duas pausas para amamentar. Janaína acha que a única coisa boa da pandemia é ficar mais tempo com o filho.

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