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Artigo de professora do IFBA é destaque na capa de publicação da Sociedade Brasileira de Química

A pesquisadora Maria Lair Sabóia é co-autora do artigo publicado pela revista Química Nova que explica de forma acessível como atuam substâncias químicas contidas em produtos de limpeza para eliminar o novo coronavírus.
publicado: 09/06/2020 19h28, última modificação: 21/06/2020 16h40

Por Bárbara Souza e Isadora Melo

A professora doutora Maria Lair Sabóia, do campus Juazeiro, é uma das autoras do artigo publicado pela revista Química Nova – referência na área de ensino de química. Os estudos e a produção do trabalho foram desenvolvidos em parceria com mais três pesquisadores de diferentes instituições federais: Ramon K. S. Almeida (UFRPE ), Francine Fonseca (UFMG),  Caroline Gonçalves (UNILA) e a professora Maria Lair.

Intitulado “A química dos saneantes em tempos de Covid-19: Você sabe como isso funciona?”, o artigo é destaque de capa da edição de junho da revista Química Nova, publicação da Sociedade Brasileira de Química e que tem grande visibilidade nacional. O trabalho aborda o modo de atuação dos principais agentes químicos saneantes presentes em produtos de limpeza recomendados por órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) no combate à pandemia do novo coronavírus.

A proposta do artigo, que tem 11 páginas, é explicar de maneira simples e didática como as substâncias saneantes (presentes em sabonetes, detergentes e desinfetantes multiuso) auxiliam na erradicação do vírus SARS-CoV-2 (coronavírus).  “Nos empenhamos para apresentar um material de qualidade, com referencial bibliográfico que fosse confiável e que tivesse uma leitura de fácil acesso para as pessoas em geral e não só as pessoas do meio acadêmico”, afirma a pesquisadora do IFBA. Ela comemora especialmente o fato de que o artigo alcançou públicos diversos. ”A gente tem tido muitos retornos de donas de casa que leram nosso trabalho, que entenderam”, conta.

Fundamentado na elucidação de conceitos químicos fundamentais, o trabalho busca explicar de forma acessível como esses agentes saneantes atuam na inativação do novo coronavírus. 

A professora ressalta a importância de manter a higiene pessoal e do ambiente em tempos de pandemia, considerando que ainda não há vacina ou remédios com eficácia comprovada no combate à Covid-19.

Conversamos brevemente com a professora Maria Lair Sabóia sobre o tema do artigo. Vale conferir!  

Maria Lair Sabóia, do campus Juazeiro. (Foto: Arquivo pessoal)

 

Portal IFBA: Considerando que o coronavírus é “inativado” pelo princípio ativo desses agentes químicos saneantes presentes nos produtos de limpeza como a água sanitária e alguns desinfetantes (cuja utilização é recomendada pelas autoridades sanitárias para higienização de superfícies), como os resultados de estudos e pesquisas sobre esses agentes saneantes podem contribuir para a eliminação do novo coronavírus? 

Maria Lair:  Sobre os princípios ativos que a gente tem nos saneantes, a gente tem cinco classes de compostos.  A gente vê muito disseminado “lavar a mão com detergente”, “limpar a mão com álcool em gel, com álcool glicerinado”, mas na realidade tem cinco classes de compostos que são mais recomendadas. A gente se ateve àquelas que são as mais recomendadas e as que são de mais fácil acesso ao consumidor. O álcool em gel, o álcool líquido a 70 % muito usado nos hospitais, e os sais quaternários de amônio – que a gente encontra nos desinfetantes que usamos para limpar o chão em casa. Esse dois compostos e também outros compostos que são os derivados fenólicos atuam na eliminação do vírus através de um processo que a gente chama de forças intermoleculares. A partir do conhecimento da estrutura viral – de você saber como que é a estruturinha do SARS-CoV-2 – é que a gente sabe que esses produtos conseguem eliminar o vírus. Os outros compostos, que são os peróxidos e o hipoclorito de sódio vão atuar de uma outra forma. Ao invés de atuarem como forças intermoleculares, eles vão atuar através de reações orgânicas, que vão acontecer entre o princípio ativo e a estrutura do vírus. Como o vírus tem todo um aparato biológico-funcional, vamos colocar dessa maneira, quando eu coloco esse vírus em contato com agentes químicos capazes de agredi-lo e de inativá-lo de alguma maneira, eu estou contribuindo para esse vírus seja erradicado.

Portal IFBA: O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu que as pessoas bebessem produtos como detergentes para combater o novo coronavírus. Sabemos a gravidade dos riscos à vida da pessoa que eventualmente resolva seguir a recomendação desse governante. Mas, considerando que esses produtos contêm agentes químicos saneantes  que efetivamente inativam o novo coronavírus, as descobertas feitas sobre os princípios ativos desses saneantes podem de algum modo contribuir com as pesquisas que buscam desenvolver uma vacina contra a Covid-19?

Maria Lair:  É uma pergunta bem curiosa...Uma coisa  interessante do artigo é que ele foi escrito quase em tempo real com muitas coisas que iam acontecendo. Essa questão de ouvir de um representante de uma nação de induzir de alguma maneira as pessoas a beberem desinfetante, detergente, enfim...Foi uma coisa que nós, como autores, discutimos bastante [ênfase] e a gente resolveu enfatizar que as pessoas não devem fazer isso de forma alguma! Todos os saneantes, todos esses produtos de limpeza que chegam até nós, eles são devidamente registrados na Anvisa. Cada um desses produtos traz no rótulo as informações para “não ingerir”, produto tóxico, “em caso de ingestão, procurar atendimento médico”. Então, essa é uma informação recorrente nos rótulos mesmo antes do presidente [Donald Trump] fazer esse comentário.  Inclusive, depois que ele fez esse comentário houve algumas reportagens sobre o fato de que algumas pessoas foram internadas por intoxicação.  O artigo ele veio nesse sentido, de tentar esclarecer e derrubar certos mitos. Ingerir qualquer produto de limpeza é extremamente perigoso. No artigo, tratamos dessa questão na parte sobre compostos fenólicos, que têm um poder biocida muito significativo. Alguns desinfetantes são feitos à base de compostos fenólicos e uma das recomendações é justamente não usar esses produtos em locais que têm crianças. Porque criança facilmente põe a mão na superfície, coloca a mão na boca com mais facilidade e esses produtos acarretem um dano toxicológico grande que faça essa criança ter uma contaminação e vá parar num hospital por conta de uma imprudência.   

Portal IFBA: Ou seja, mesmo que não haja a ingestão direta de um produto como esse há riscos sérios à saúde?

Maria Lair:  No artigo, nós tivemos muito cuidado com relação a isso: de enfatizar a importância de utilizar um produto que seja devidamente regulamentado por um órgão competente, se atentar para a finalidade desse uso – como que aquele produto deve ser utilizado, se ele precisa ser diluído ou não – e também a forma de manuseio. Tem produtos que exigem às vezes o uso de um determinado EPI [equipamento de proteção individual], por exemplo: manuseie isso com luvas. Se o fabricante recomenda que você tenha determinados cuidados, é importante que você siga todas essas recomendações.

Portal IFBA: Qual o risco de misturar produtos de limpeza?

Maria Lair: Alguns produtos não podem ser misturados entre eles porque, além de você ter a possibilidade de gerar algum produto de reação que seja tóxico, que haja liberação de algum gás, você pode estar, ao invés de melhorando a eficiência do saneante, estar fazendo ela ir por água abaixo.

Portal IFBA: Sobre o processo de construção do artigo: como foi a experiência de produzir um artigo a oito mãos e com colegas de outras instituições?

Maria Lair: Foi uma colaboração muito legal! A gente teve uma sintonia muito boa que juntou quatro autores de quatro instituições federais, cada um trabalhando nas suas atividades remotas. E o que a gente sempre fala: o trabalho foi escrito por quatro pessoas, mas ele não seria possível se não fossem os outros trabalhos de outros pesquisadores, que permitiram que a gente compilasse essas informações de uma maneira central, organizada.