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ARTIGO - 132 anos da abolição inconclusa e os 110 do IFBA

Por Marcilene Garcia *
publicado: 13/05/2020 13h45, última modificação: 13/05/2020 13h56

O sequestro de africanas(os) e seu aprisionamento no Brasil na condição de escravizadas(os); O escravismo criminoso por mais de 350 anos; a abolição tardia; a cidadania subalternizada de negros na república e ainda hoje; o mito da democracia racial; a ideologia do branqueamento; a mestiçagem; o eurocentrismo, o racismo estrutural; a violência racista; o “genocídio” contra a juventude negra; o epistemicídio na produções sobre negros e pelos negros;  e, também, o abandono, a omissão, o silêncio e o racismo na educação nos faz refletir sobre a história do atual IFBA no contexto das relações raciais.

Verifica-se que a abolição inacabada não eliminou as profundas desigualdades raciais produzidas pelo escravismo criminoso sem posterior reparação à população negra, sobretudo na educação. A manutenção das desigualdades e das estruturas de poder hoje, ainda, se traduz nas relações sociais, confirmadas pelos indicadores sociais, que são a de manutenção de privilégios de brancos nas estruturas de poder e de renda em todas as regiões do Brasil. Isso se verifica, inclusive em estados de extrema maioria negra como é o caso da Bahia (mais de 80% de pretos e pardos) e, aproximadamente 800 comunidades quilombolas.

Marcilene Garcia, diretora de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis do IFBA. (Foto: Sílvia Acácia)

Neste contexto, o IFBA, por ser uma “escola de excelência”, com 110 anos, teve e tem uma contribuição enorme na manutenção e mudança da realidade social da sociedade porque, consegue aglutinar uma diversidade de público considerando aspectos geográficos, de renda, cor e etnia na Bahia.   Há uma contribuição real do IFBA, que passou por momentos de elitização e que, posteriormente graças ao tensionamento do movimento negro e, pela aprovação das políticas de cotas para negros, indígenas e brancos de escolas públicas,  sofreu uma grande mudança política importante em que, conseguiu incluir, entre os estudantes os pobres e uma maioria de negros em seus diversos cursos e regiões do estado. O IFBA hoje tem mais a cara da Bahia. E isso, é muito importante.

Ao menos 50% das(os) estudantes do IFBA são oriundas de escola pública, sendo a maioria de negros. Esta é uma vitória da história da resistência negra.  É uma juventude vibrando nas salas e corredores do IFBA, em toda Bahia, com esperanças, não obstante à violência racista cotidiana. E, esta virada racial e étnica dentro do IFBA exigiu e exige nova postura pedagógica, compromisso das(os) discentes, técnicas(os) e nova forma de gerir as políticas educacionais de forma ampla; na forma de ingresso, mas também da qualidade de permanência dos diferentes sujeitos e suas especificidades.

Assim, nos 110 anos de IFBA, reforçamos a importância da criação da Diretoria Sistêmica de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis (DPAAE) no âmbito da Reitoria do IFBA, neste ano, como um marco histórico, político e simbólico. Um dos objetivos fundantes desta Diretoria é a de contribuir na formulação e consolidação de políticas de ações afirmativas que promovam mudanças de mentalidade, sociais e pedagógicas no IFBA considerando a população negra e os povos indígenas. É um compromisso real com a promoção da justiça.

Mesmo sabendo dos desafios da permanência para muitos estudantes negros, motivadas por questões sociais/raciais, verifica-se um percentual grande de estudantes negros, egressos do IFBA, frutos de ações afirmativas, sendo aprovados, novamente, por cotas raciais na graduação em Universidades Públicas e, igualmente em concursos públicos por cotas raciais. É o IFBA transformando, sim, a vida e o viver da sociedade para pobres e grupos que sofreram injustiças históricas pela escravidão e pelo racismo estrutural ainda presente. São os talentos negros e indígenas que não podem mais ser discriminados nem desperdiçados nem no IFBA, nem na sociedade.

* A socióloga Marcilene Garcia é titular da Diretoria de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis (DPAAE) do IFBA, professora do Campus Salvador e fundadora do Instituto de Pesquisa da Afrodescendência, o Ipad Brasil, organização não-governamental que trabalha com a formação de professores e a inserção da população negra no mundo do trabalho e na educação.

** Este artigo integra o conteúdo especial  que marca as ações do IFBA neste 13 de maio, Dia Nacional de Luta Contra o Racismo.