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Histórias de vida, arte e cultura surda movimentaram festival no campus Salvador

por Henrique Soares publicado: 22/04/2019 13h58, última modificação: 22/04/2019 13h58

Muitos puderam acompanhar na prática que os surdos não são inferiores aos ouvintes durante o II Festival de Arte e Cultura Surda, realizado nos dias 8, 10 e 12 de abril no campus Salvador do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA).

Estudante do curso técnico em manutenção mecânica industrial, Cristian Seara, relatou que sua história com os carros começou quando ainda era criança e já ia observando com atenção o pai dirigindo. Aprovado nos exames e tendo conquistado sua habilitação, Cristian lembra das preocupações do pai e da reação dos amigos quando iam sabendo que, mesmo surdo, é capaz de dirigir. O pai, por exemplo, se preocupava em como ele reagiria numa blitz.

“Se tiver um carro atrás de mim, eu vou sempre olhar pelo retrovisor. Se tiver ambulância ou polícia e estiver buzinando, vai buzinar, mas também vai piscar ou acender o farol”, explicou. Ele destacou que muitas pessoas questionam como ele consegue dirigir e ainda se admiram. “As pessoas acham estranho, mas é algo absolutamente normal”.

Além de dirigir, os surdos também são capazes de realizar qualquer atividade como viajar sozinhos, estudar, casar e alcançar títulos de mestres e doutores, atuar como músicos, atores, advogados. “A única diferença é a língua”, esclarece Gabriela Mattos, coordenadora do evento. “Quando aprendi Libras (Língua Brasileira de Sinais) eles atuavam como serviços gerais e caixas de supermercado. Os surdos despertaram e viram que podem estudar. O festival incentiva a comunidade a aprender Libras e a entrar nessa cultura”.

Segundo Gabriela, a sociedade ainda vê o surdo como incapaz. “Os surdos sofreram muito. A sociedade acha que eles não falam, ainda insistem em chamá-los de surdos-mudos. As cordas vocais são perfeitas. Os que vão às sessões de fonoaudiologia desde cedo conseguem falar“.

A programação contou com piadas e brincadeiras em Libras, torneio de cubos mágicos, diálogos sobre a cultura surda, exposição de design de moda, banda de percussão Sal da Terra (surdos e ouvintes), apresentação da peça teatral em Libras "O Mundo das Bocas Mexedeiras", além de apresentações e aulas de forró com surdos. Um dos sonhos que o festival fez nascer na mente de Cristian, durante a apresentação da Banda de percussão Sal da Terra, foi se tornar o primeiro DJ surdo da Bahia.

A estudante Iasmin Lima, aluna do curso técnico de refrigeração e climatização, foi uma das que compareceu ao evento realizado em três dias no horário do almoço. Ela gostou da proposta e também assistiu à primeira edição que aconteceu em 2018. “Trouxe uma harmonia entre eles, o colégio e a população surda”. Ela disse que não tem surdos na turma, mas que busca se comunicar com os colegas. Mesmo com pouco tempo disponível, a discente planeja aprender Libras.

O evento integra os Programas Universais e tem como objetivo mostrar a arte e cultura surda presente na instituição. Atualmente, o campus conta com 18 alunos surdos nas modalidades integrado e superior, sendo dois formandos no curso técnico de eletrônica. A partir do próximo período letivo, serão 25 alunos nas três modalidades (integrado, superior e subsequente). Além disso, são 20 intérpretes e um professor de Libras. O Centro de Idiomas do Departamento Acadêmico de Línguas Estrangeiras (Dale) realiza, periodicamente, um curso da língua no campus.

 

Assista o vídeo produzido pela TV IFBA (Núcleo de Audiovisual - Navi - Reitoria)

 

Comunicação – Campus Salvador