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História, Mulheres & Ciência: Uma abordagem pedagógica através de olimpíada do conhecimento

Duas equipes do Campus Jacobina estão na grande final da ONHB
por Verusa Pinho — publicado: 10/07/2026 13h05, última modificação: 10/07/2026 14h21

Você já se perguntou qual a relação entre história, ciência e mulheres? E quanto à valorização x invisibilidade de cientistas brasileiras e suas interseccionalidades*? Esse foi o desafio proposto a estudantes de todo o país pela 18ª Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB), da qual participaram cerca de 50 discentes do Campus Jacobina do IFBA.

*Interseccionalidades: Conceito que explica como diferentes fatores de identidade social - raça, gênero, classe, sexualidade e deficiência, por exemplo - criam camadas de discriminação e desigualdade, demonstrando que opressões não atuam isoladamente, mas de maneira combinada e estrutural. O termo se desenvolve a partir dos estudos da jurista norte-americana Kimberlé Crenshaw.

Inicialmente, mais de 64 mil equipes de todo o país estavam inscritas. Na quinta e penúltima fase, restaram 9.515 e, dessas, somente 353 garantiram vaga na etapa final. Dos 16 trios inscritos do IFBA-Jacobina, dois (2) se classificaram para a última fase (6), que ocorre presencialmente, no fim do mês de agosto, no estado de São Paulo. A conquista é fruto das medalhas de bronze recebidas na etapa 5 (estadual/semifinal nacional), garantindo a representação nacional.

E/D: Equipe Três sob o Estandarte; profa. Alline ao centro; equipe Vozes dos Brasis

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas, até chegar ao último passo, o caminho percorrido esteve repleto de questões, que, associadas a tarefas, estimulavam os jovens ao aprendizado criativo da disciplina, sob orientação das docentes Alline Pimentel, mestra em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo, e Carla Côrte, mestra em História Social.

profa. Alline

“A ONHB dialoga profundamente com a forma como entendemos o ensino de História. Ao longo das fases [on-line], os estudantes não apenas respondem questões, mas são convidados a interpretar fotografias, mapas, obras de arte, reportagens, documentos oficiais, produções acadêmicas e outros vestígios do passado. Assim a História deixa de ser vista como um conjunto de informações prontas e passa a ser compreendida como uma construção permanente do conhecimento”, explica a docente Alline Pimentel. 

A orientação aconteceu de forma dinâmica e colaborativa. Encontros semanais e presenciais reuniam as equipes para discutir as questões da fase, compartilhando interpretações através da análise de documentos. Mas o trabalho não se limitava a esses encontros. Ao longo de toda a semana, uma rotina intensa de debates e pesquisas acontecia remotamente, possibilitando a troca de referências, artigos e materiais de apoio, com o intuito de fundamentar as respostas a partir de evidências e argumentos consistentes.

Rian, Alice e Ryhanna

Nossos Finalistas

Para Alice Gabrielle Pinheiro, 2º ano de informática, que representa o Três Sob o Estandarte, o maior aprendizado foi reconhecer a importância de diferentes perspectivas na construção da História. Dentre as mulheres referenciadas nas tarefas, a jovem menciona Nise da Silveira [psiquiatra] e Silvia Lara [historiadora]: "Escolhemos a Nise porque ela revolucionou a forma de tratar pessoas com transtornos mentais, mostrando que a ciência também precisa de humanidade e respeito. Já a Silvia Lara nos chamou atenção por mostrar como a pesquisa histórica ajuda a entender questões sociais e como a História é construída a partir da análise crítica das fontes. Essas escolhas representam muito do que vivemos no IFBA. Nas aulas de História, somos incentivados a questionar, pesquisar e interpretar os documentos, em vez de apenas decorar conteúdos. A ONHB reforçou isso e também nos fez perceber a importância de conhecer e valorizar mulheres que fizeram diferença na ciência, mas que muitas vezes não recebem o reconhecimento que merecem", pontua. Alice participa da olimpíada pelo 2º ano consecutivo, mas celebra a chegada à fase final  pela 1ª vez.

Sua equipe se completa com a colega de turma Ryhanna Vitória de Oliveira e Rian Vitor Motta (2º ano de eletromecânica). "Entendemos que as conquistas das mulheres na ciência não aconteceram de forma natural, mas foram resultado da persistência das mulheres que buscavam transformar a sociedade", afirma Ryanna, ao que Rian acrescenta: "Percebemos que o problema não era competência das mulheres, mas a dificuldade da sociedade em reconhecer seu protagonismo".

Yago, Vinícius e João

O outro grupo classificado é o Vozes dos Brasis, composto por estudantes do 1º e 2º ano de mineração: João Luiz Oliveira S. Ribeiro, Yago Maurício Santana, Vinícius Almeida de Jesus.

Segundo Yago, a ONHB não é uma prova simples: “É uma experiência que exige discussão, pesquisa e reflexão”. Durante toda a Olimpíada, ele conta que sua equipe debatia entre si e com os outros trios participantes. “Nosso foco nunca foi apenas conquistar uma medalha, mas principalmente adquirir conhecimento. Esse processo dialogou diretamente com o estudo regular da disciplina de História no IFBA. Os conteúdos vistos em sala de aula ganharam um novo significado, porque passamos a analisá-los de forma mais crítica, por meio da interpretação de documentos, da pesquisa histórica e de diferentes pontos de vista. Com a orientação das professoras, conseguimos unir o conhecimento construído nas aulas com os desafios propostos pela ONHB”, explica.

   

No decorrer das fases, o jovem viveu um misto de ansiedade e aprendizado: “Principalmente nas etapas finais, que eram mais intensas e extensas. Muitas vezes, tivemos que abrir mão de parte do nosso tempo para nos dedicarmos às tarefas da Olimpíada, o que exigiu organização, compromisso e trabalho em equipe. Como aprendizado, levamos o aprofundamento no tema desta edição, especialmente sobre a participação e a importância das mulheres na ciência, além do desenvolvimento da capacidade de dialogar, argumentar, pesquisar e construir respostas de forma coletiva.Participar da ONHB ampliou nosso conhecimento histórico porque nos mostrou que a História não se resume à memorização de fatos, mas é construída pela análise crítica das fontes e capacidade de reflexão”, declara.

“Esta foi minha primeira experiência como professora orientadora na Olimpíada Nacional em História do Brasil, embora a ONHB já faça parte da tradição do Campus Jacobina. Neste ano, foram os próprios estudantes que me procuraram para orientá-los, o que tornou essa experiência ainda mais significativa. Aceitei o convite com entusiasmo, sabendo que a olimpíada representa muito mais do que uma competição: é um espaço de formação, pesquisa e construção coletiva do conhecimento histórico”. profa. Alline Pimentel

Trilha Pedagógica

De acordo com a professora Alline, o tema desta edição Mulheres cientistas, mulheres na ciência proporcionou discussões extremamente ricas durante os encontros. “Refletimos sobre como a produção científica das mulheres foi historicamente invisibilizada e sobre as desigualdades de gênero, raça e classe que marcaram, e ainda marcam, o acesso à educação, à pesquisa e aos espaços de produção do conhecimento. Ao longo da olimpíada, tivemos contato com trajetórias de mulheres como Enedina Alves Marques, primeira engenheira negra do Brasil; Maria Firmina dos Reis, pioneira da literatura abolicionista brasileira; Bertha Lutz, e tantas outras mulheres que desafiaram as barreiras impostas por uma sociedade marcada por desigualdades de gênero. As questões permitiram compreender que a invisibilização dessas mulheres não decorre da ausência de contribuições, mas dos processos históricos que definiram quais sujeitos seriam lembrados e quais permaneceriam à margem das narrativas tradicionais”, destaca. 

“Mais do que chegar à final, o maior legado da olimpíada é a aprendizagem construída durante o percurso. Os estudantes ampliam seu repertório histórico, desenvolvem autonomia intelectual, aprendem a pesquisar em fontes confiáveis e trabalhar em equipe. As reflexões sobre as mulheres cientistas também evidenciaram que as desigualdades de gênero não são naturais, mas historicamente construídas e, por isso mesmo, podem ser questionadas e transformadas. São aprendizagens que permanecem muito além da competição e que contribuem para formar cidadãos críticos, sensíveis às desigualdades e comprometidos com a sociedade em que vivem. Ver duas equipes do Campus Jacobina alcançando a fase final neste ano é motivo de enorme alegria, porque esse resultado representa o compromisso dos nossos estudantes com o estudo, a pesquisa e uma forma de aprender História que valoriza a investigação, a reflexão crítica e a construção coletiva do conhecimento", ressalta a docente.

Estamos entre as 53 equipes que representarão a Bahia na olimpíada, evidenciando Jacobina nacionalmente 

Uma volta pelo passado

Em 2023, cinco (5) trios do Campus Jacobina chegaram à grande final. Também estivemos entre as melhores equipes do Nordeste e a 1ª colocada no estado da Bahia, recebendo medalha de cristal (menção honrosa). 

“Participar de um projeto inovador e inclusivo, que une ensino de história e divulgação científica, é uma experiência importante para o IFBA - Jacobina, fortalecendo processos educativos que abrem outras possibilidades de estudar História, ampliando o conhecimento sobre os mais diversos temas do passado e da atualidade”, compartilha a professora Carla Côrte, que, ao lado do docente Jorge Luz, acompanhou nossas equipes naquele momento.

Em 2019, a ONHB desafiou os jovens que chegaram à 5ª fase a produzirem, a partir de um template padrão, quatro páginas de um livro didático imaginário acerca de personagem excluído ou invisibilizado das narrativas históricas. Segundo a comissão organizadora da olimpíada, “os resultados foram tão interessantes que se decidiu permitir o amplo e livre acesso aos conteúdos”. Cerca de 20 estudantes do Campus Jacobina fizeram parte do grupo de todo o Brasil responsável pela criação do dicionário biográfico Excluídos da História, composto por mais de dois mil verbetes sobre personagens raramente estudados na historiografia tradicional.

Nos últimos anos, diversas universidades passaram a utilizar as medalhas e o desempenho dos estudantes em olimpíadas do conhecimento como forma de acesso ao ensino superior. Realizada pela Unicamp com apoio da Associação Nacional de História, a ONHB já é utilizada em mais de 60 graduações de diferentes estados.