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Compromisso coletivo: campus Salvador no enfrentamento ao feminicídio

Ontem, 18 de março, o campus Salvador do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) se uniu ao movimento brasileiro que refletiu sobre a memória e mobilização contra o feminicídio — a forma mais extrema da violência de gênero.
por Henrique Soares — publicado: 19/03/2026 16h14, última modificação: 31/07/2026 09h21

Se toda vida humana tem início no abrigo amoroso e gerador do corpo de uma mulher — esse espaço de cuidado, criação e potência que nenhuma tecnologia jamais foi capaz de reproduzir —, por que justamente aquelas que nos dão a possibilidade de existir e habitar o Planeta Terra seguem sendo alvo de violências, silenciamentos e opressões em nossa sociedade?  

“Não basta repudiar o feminicídio quando ele acontece; é preciso agir antes, no cotidiano, desnaturalizando cada piada, cada controle, cada silenciamento (...) “Que cada um de nós se sinta responsável por construir uma sociedade onde nenhuma mulher precise temer pela própria vida”.

Vanessa Mutti
Cipea - campus Salvador

Ontem, 18 de março, o campus Salvador do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) se uniu ao movimento brasileiro que refletiu sobre a memória e mobilização contra o feminicídio — a forma mais extrema da violência de gênero. Mais do que lembrar as vítimas, essa data também convidou nossa sociedade a refletir sobre as estruturas que sustentam essa violência e, sobretudo, a agir para preveni-la.

Cerca de uma década após a promulgação da Lei nº 13.104/2015, que tipificou o feminicídio como um crime específico, os avanços legais convivem com uma realidade ainda alarmante. Só em 2025, o Brasil registrou 6.904 vítimas de casos consumados e tentados de feminicídio, o que representa um aumento de 34% em relação ao ano de 2024, quando houve 5.150 vítimas. Foram 4.755 tentativas e 2.149 assassinatos, totalizando quase seis (5,89) mulheres mortas por dia no país.

Os dados do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem) da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e divulgados pela Agência Brasil, supera em 38,8% o número de vítimas de feminicídio divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), por meio do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Os dados que constam no sistema são informados pelos estados. Segundo a última atualização, em fevereiro, foram 1.548 mulheres mortas por feminicídio em 2025.

Educação como prevenção

Para além dos dados, o enfrentamento ao feminicídio passa necessariamente pela educação — especialmente nas instituições de ensino como o IFBA, onde valores, comportamentos e visões de mundo são construídos.  

Durante o dia de ontem, foram realizados panfletaços entre os/as estudantes com a participação da diretora-geral Luanda Kívia Rodrigues e dos/as integrantes do Grêmio Estudantil Denílson Vasconcelos e do Diretório Acadêmico de Engenharia Química. Na próxima terça-feira (24), a comunidade acadêmica poderá acompanhar na Praça Vermelha e no Bloco D, às 12h e às 18h, o evento "Papo Aberto Cipea: educação e afeto contra as violências de gênero". Já no dia 31 de março, às 18h, no auditório do Bloco D, vai ocorrer a palestra "Enfrentamento ao feminicídio e à violência de gênero. As ações estão sendo organizadas pela Diretoria Geral e pela Comissão Institucional de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio Moral e Sexual do IFBA (Cipea) do campus. São iniciativas que integram a campanha "18M: IFBA pela educação contra o feminicídio". 

Vanessa MuttiPresidente da Cipea, a professora de sociologia do campus Salvador, Vanessa Mutti, destaca que compreender o feminicídio exige reconhecer suas raízes estruturais: “O feminicídio é o assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher, envolvendo violência doméstica, menosprezo ou discriminação”. Ela ressalta ainda que a violência não surge de forma isolada, mas se constrói no cotidiano: “A violência que leva ao feminicídio não nasce grande e explícita: ela nasce pequena, sutil, em gestos, piadas e silenciamentos que vão desumanizando o outro”.

Nesse sentido, ressalta Vanessa, as escolas têm um papel central na desconstrução de comportamentos que naturalizam a desigualdade de gênero. Comentários sexistas, controle sobre o corpo feminino, desvalorização da fala de meninas e a romantização de relações abusivas são exemplos de práticas que precisam ser enfrentadas desde cedo. 

Comportamentos que merecem atenção no ambiente acadêmico

*Piadas e comentários sexistas, racistas, lgbtfóbicos e capacitistas que humilham, inferiorizam ou objetificam meninas e mulheres em suas múltiplas diferenças;

*A desqualificação da fala e da presença de meninas negras, periféricas, trans ou com deficiência em sala de aula e nos espaços de convivência;

*O controle dos corpos das estudantes, que as responsabiliza por despertar desejo, enquanto comportamentos agressivos e invasivos dos meninos são tolerados ou incentivados.

*A invisibilização e o preconceito contra identidades LGBTQIAP+, que reproduzem a lógica de que existem corpos e afetos "errados" ou "menos válidos";

*Brincadeiras que incentivam a posse, o ciúme e a vigilância como expressões de amor e cuidado, base para relacionamentos abusivos futuros;

*A romantização da violência e da submissão em músicas, séries, discursos e nas interações cotidianas, que ensinam meninos a serem duros e dominadores e meninas a serem dóceis e tolerantes.

Fonte: Cipea do campus Salvador

Como denunciar

A denúncia é uma ferramenta essencial para interromper o ciclo da violência e proteger vidas. No Brasil, existem canais telefônicos gratuitos e acessíveis: 

  • 180 – Central de Atendimento à Mulher (funciona 24h em todo o país); 
  • 197 – Disque Denúncia da Polícia Civil; 
  • 190 – Polícia Militar (em casos de emergência).
  • - Cipea 

Esses serviços oferecem orientação, acolhimento e encaminhamento para redes de proteção. 

Compromisso coletivo com a vida 

Mais do que uma data simbólica, o 18 de março é um chamado à responsabilidade coletiva. Enfrentar o feminicídio exige ação contínua — nas políticas públicas, nas instituições e nas relações cotidianas. 

Como reforça Vanessa Mutti: “Não basta repudiar o feminicídio quando ele acontece; é preciso agir antes, no cotidiano, desnaturalizando cada piada, cada controle, cada silenciamento”. E conclui: “Que cada um de nós se sinta responsável por construir uma sociedade onde nenhuma mulher precise temer pela própria vida”. Por isso, neste 18 de março, a conscientização se transforma em compromisso: proteger a vida das mulheres é dever de todos nós. 

Além de Vanessa, a Cipea também conta com a participação das servidoras e integrantes da comunidade acadêmica Adriana Andrade, Ana Paula Rocha, Anete Otília Cruz, Moema Ferreira e Tícia Viviani de Britto. 

* Henrique Soares é jornalista do campus Salvador

(*) Com informações do  IBDFAM e Estadão

Fotos: Marília Gabriele Bastos, Lêda Xavier e Acervo Pessoal