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Curso Ialodê em Casa: uma discussão sobre comunicação inclusiva

Em entrevista, a jornalista Cleidiana Ramos aborda a importância da discussão sobre inclusão em gênero, raça, etnia e diversidade sexual na comunicação
publicado: 15/06/2020 21h00, última modificação: 15/06/2020 21h52
Cleidiana Ramos (Foto: Arquivo pessoal)

Cleidiana Ramos (Foto: Arquivo pessoal)

Começa nesta terça-feira (16), o curso de extensão institucional online intitulado “Ialodê em Casa: Comunicação sobre o direito à informação em gênero, raça, etnia e diversidade sexual". As aulas acontecerão no ambiente do Google Meet e plataforma Moodle.

O curso, que tem carga horária de 45 horas, é uma iniciativa da Diretoria de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis (DPAAE) em parceria com a Universidade Aberta do Brasil (UAB) e a Diretoria Sistêmica de Gestão da Comunicação Institucional (DGCOM) do IFBA. O objetivo é oferecer a comunicadores(as), internos e externos ao IFBA, uma experiência importante na construção profissional por meio do estudo da interlocução inclusiva.

Conversamos com a jornalista Cleidiana Ramos, mestra em Estudos Africanos, doutora em Antropologia pela Ufba, que integra a equipe que concebeu o curso. Confira:

Cleidiana Ramos (Foto: Arquivo pessoal)

Portal IFBA: Qual é a proposta do curso?
Cleidiana Ramos: A proposta é debater aspectos da comunicação social no Brasil do ponto de vista dos modelos de como as plataformas de mídia comercial estão sendo estruturadas, o surgimento (das plataformas de mídia) e desafios do jornalismo independente (...). Isso porque estamos falando de “comunicação social”, ou seja, aquela que é feita para grandes grupos, com difusão ampla, e que demanda algum tipo de especialização – afinal, é historicamente feita com mediação da tecnologia. Isso envolve a necessidade de debater questões tão complexas como gênero, raça, etnia e diversidade sexual. Sempre foi difícil fazer isso em comunicação social, mas devido especialmente às transformações na revolução digital, não é mais possível que um veículo de mídia comercial e comunicação institucional ignore estes temas. Eles (os temas) sempre estiveram em pauta, mas eram invisibilizados - agora seus muitos agentes têm condições de cobrar.

Portal IFBA: Qual é a importância de as Instituições investirem na qualificação dos profissionais de comunicação sobre questões relativas ao direito à informação em gênero, raça, etnia e diversidade sexual?
Cleidiana Ramos: São assuntos complexos e que não estão nos currículos da maioria dos cursos de educação formal, incluindo os de nível superior, embora a legislação aponte para isto (...). A gente discute muito pouco, ou nada, o que envolve por exemplo o movimento da Independência da Bahia e o 2 de Julho - que estão cheios de nuances étnicas que estão na base da nossa formação cultural como povo. O mesmo ocorre sobre gênero e diversidade sexual. No curso a gente discute como informações defasadas veiculadas na comunicação reforçam estereótipos tão antigos como a nossa configuração de território colonizado e de país formado com várias marcas.

Portal IFBA: Quais os principais cuidados que profissionais e instituições precisam ter ao comunicar fatos e temas, no que diz respeito à diversidade?
Cleidiana Ramos: Atentar e refletir sobre as palavras empregadas – especialmente em um país multiétnico; ter um cuidado enorme ao usar conceitos como racismo, lesbofobia ou feminismo, não os utilizando de forma apressada ou que reduza décadas de reflexão abalizada sobre estas questões; dar voz e exercer a escuta sobre quem apontou algum problema em peças publicadas, pois se houve incômodo há também uma chance de aprender e refletir. O humor, a exemplo dos memes – que são uma marca das redes sociais - , pode ferir a um determinado grupo e, apesar de parecer uma bobagem, é sempre bom pensar a respeito antes de compartilhar, pois estamos no terreno da comunicação difusa sobre a qual não temos controle. Portanto é importante refletir, dar um tempo e, se for preciso, se desculpar ou defender sua criação. É assim que se aprende e se educa. É dolorido, requer paciência, trabalho dobrado, mas todos e todas saem melhor destes processos. Recomendo! (Risos)

Portal IFBA: Ao tratar de forma adequada questões relativas ao direito à informação em gênero, raça, etnia e diversidade sexual, como as instituições contribuem para a inclusão social e o combate ao preconceito?
Cleidiana Ramos: De uma forma decisiva. Especialmente as que estão na esfera educacional. As instituições como um todo são aparatos muito poderosos para chancelar comportamentos. A gente, como nação, tem uma longa história com o racismo científico, ou seja, as teorias racialistas que alicerçaram tragédias como a escravidão (...). Quando um “cientista” dizia coisas como “uma raça é, sim, superior à outra” e argumentava do alto de seu “saber”, isto é uma arma para aquilo ser perpetuado e internalizado pelas pessoas. A biologia está aí o tempo inteiro avisando que este pensamento é ultrapassado, mas um supremacista branco americano não consulta compêndios biológicos para comparar com a ideia que tem de superioridade de seu grupo racial. Infelizmente o pensamento mágico não funciona para estas questões de racismo, homofobia, lesbofobia e ódio a grupos étnicos diversos – ou seja, não basta repetir “somos todos humanos”, “o dia tem que ser da consciência humana”, pois o ódio vai estar ali, latejando e alimentando uma máquina destruidora, inclusive da vida no sentido biológico.

Além de Cleidiana, integram a equipe de desenvolvimento do curso a jornalista e pós-graduanda em Comunicação Organizacional Susana Rebouças, Ludmilla Cunha, graduada em Design Gráfico e fotógrafa, a jornalista e Mestre em Estudos Étnicos e Africanos Valéria Lima e Meire Oliveira, graduada em Comunicação Social com especialização em jornalismo contemporâneo.

 

Por Isadora Melo e Bárbara Souza