IFBA recebeu Mackenzie, Politécnico de Milão e USP durante visita técnica à região de Barra e Xique-Xique
No início do mês de fevereiro, o IFBA Campus Barreiras, representado por integrantes do curso de Edificações, participou de uma atividade de mobilidade acadêmica internacional voltada à pesquisa de campo no Vale do Rio São Francisco. A programação reuniu interesses multilaterais de pesquisa envolvendo instituições brasileiras e estrangeira com visita técnica à área de Barra e Xique-Xique, no semiárido baiano.
A iniciativa contou com a presença de pesquisadores vinculados à Universidade Presbiteriana Mackenzie, ao Politecnico di Milano (Itália) e à Universidade de São Paulo (USP), promovendo intercâmbio de experiências, metodologias e perspectivas de análise sobre o território. Ao longo da programação, ocorreram incursões a áreas ribeirinhas, zonas agrícolas de produção familiar e espaços urbanos estratégicos, possibilitando a compreensão das múltiplas dimensões históricas, sociais, ambientais e produtivas que estruturam o Vale do Rio São Francisco. De modo geral, as ações articularam leitura territorial, escuta das comunidades e reflexão crítica acerca dos processos de transformação em curso na região.
O percurso evidenciou a paisagem singular do rio São Francisco e das dunas situadas na margem esquerda, no distrito de Icatu/Ibiraba, município de Barra. Nesse trecho, o grupo visitou uma casa de produção de farinha de mandioca, cuja arquitetura tradicional e modos de fazer preservam saberes ribeirinhos históricos, ainda desprovidos de políticas públicas que assegurem sua continuidade. O distrito foi também locação do filme Abril Despedaçado, dirigido por Walter Salles, ampliando as reflexões sobre a relação entre território, paisagem e representação no campo audiovisual e que será explorada, em breve, através de programação especial com o estudante Mário Lobo, do curso de Audiovisual da USP.
Ademais, a agenda dialogou ainda com a pesquisa desenvolvida por Francesca Ubiali, estudante do Politécnico de Milão em articulação com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Seu estudo investiga a relação entre território, paisagem da Caatinga e cooperativas agrícolas no Vale do Rio São Francisco, analisando como essas organizações articulam práticas produtivas, redes de solidariedade e estratégias de permanência no semiárido. Para a estudante de arquitetura e urbanismo, trata-se de um percurso processual. “Minha pesquisa sobre o bioma semiárido não começou no Brasil, mas anos atrás, quase por acaso, nas salas da universidade em Paris. Foi ali que decidi iniciar um percurso dedicado a esses territórios, motivada pela complexidade de uma paisagem que, desde o início, se revelava difícil de compreender para além de sua superfície.”, relata Francesca. Essa curiosidade a conduziu até São Paulo, onde começou a pesquisar sobre os territórios da caatinga em bibliotecas especializadas, permitindo, assim, a escolha para realizar a pesquisa de campo na região imediata de Barra e Xique-Xique. “(...) O trabalho teórico se ampliou e se aprofundou após minha chegada ao Brasil. A vasta produção de estudos e conhecimentos sobre o tema abriu novas perspectivas, permitindo imaginar realidades que até então pertenciam apenas ao campo da pesquisa. Mas foi a viagem entre Xique-Xique e Barra que transformou definitivamente o meu olhar”, diz.
Sob orientação do Prof. Valter Caldana (FAU-Mackenzie), que destaca o caráter sensível dessa pesquisa e a iniciativa louvável da estudante em se debruçar nessa jornada, as buscas centraram-se em identificar contradições e ambivalências, dado que a área selecionada para pesquisa de campo representa uma força singular da natureza mas, por outro lado, revela fragilidades do processo de ocupação e lacunas sobre a territorialização de políticas públicas. Francesca ainda nos relata que “o tema do meu interesse se insere no quadro mais amplo da organização da sociedade na paisagem antrópica, uma questão central nos desafios contemporâneos ligados à crise ambiental. O Brasil, com suas profundas desigualdades sociais e geográficas, revelou-se um contexto particularmente significativo para observar essas dinâmicas, especialmente nas comunidades que vivem nos biomas quase que desérticos sob condições frágeis. Entre eles, a Caatinga se destacou como território de referência: um ecossistema único, presente exclusivamente no Nordeste do país, caracterizado por condições climáticas extremas, por uma extraordinária capacidade de adaptação e, ao mesmo tempo, por uma forte vulnerabilidade aos processos de desertificação e às pressões antrópicas. Uma paisagem aparentemente extrema, mas na verdade rica, viva e profundamente cultural.”
Já para o professor Haniel Israel, docente da área de arquitetura e urbanismo do IFBA no Campus Barreiras, pesquisador associado do Laboratório de Projetos e Políticas Públicas da FAU Mackenzie e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Geopolítica, Ambiente e Humanidades do IFBA, a consagrada imagem do Velho Chico como “rio da integração nacional” demanda problematização, pois a narrativa integradora que a sustenta contrasta com as históricas práticas estatais autoritárias e verticalizadas que vêm tensionando — e, não raro, comprometendo — as relações entre as cidades ribeirinhas e o sistema natural que amparou sua constituição material e simbólica. Situadas distantes dos principais centros de decisão, essas localidades têm sido alvo de políticas concebidas de forma a priorizar interesses externos e pouco atentas às dinâmicas socioambientais e culturais que estruturam seus modos de vida; tais intervenções integram um circuito mais amplo de poder que restringe a autonomia econômica regional.
Ele também nos explica que “estamos diante de um patrimônio ribeirinho que não pode ser analisado a partir de categorias isoladas e estanques de bem material e imaterial, se quisermos compreender as dinâmicas de interdependência que o configuram em sua totalidade. Trata-se de um território no qual a paisagem natural, as práticas produtivas, as memórias sociais, a cultura fluvial e as formas construídas resultantes desse processo civilizatório se articulam e produzem serviços ecossistêmicos fundamentais às comunidades locais”.
Além disso, o professor Haniel reitera que o rio é, em si, contraditório, uma vez que revela a resiliência de comunidades ribeirinhas situadas em contextos remotos e, ao mesmo tempo, evoca o mito do rio Lete, associado ao esquecimento. Nessa analogia, o professor afirma que “esse esquecimento não é espontâneo, mas construído por interesses exógenos que implementaram modernidades à luz do desenvolvimentismo e que se sobrepuseram às riquezas histórico-culturais das paisagens, cidades e comunidades, produzindo apagamentos e, em certos casos, verdadeiras razias territoriais. O São Francisco já foi brutalmente drenado por políticas de produção de energia que geraram profundos desequilíbrios territoriais. Hoje, novas territorializações vinculadas à transição energética, aparentemente inofensivas a um primeiro contato, exigem atenção crítica, especialmente onde o IBGE entende por região imediata de Barra e Xique-Xique, que inclui o município de Gentio do Ouro e que, por sua vez, integra o ecossistema do Médio São Francisco. Estudar essa parcela do espaço ribeirinho e seus ecossistemas é, portanto, um ato de memória e responsabilidade, para que a lógica produtiva, seja pela expansão das fronteiras agrícolas ou pelas novas frentes de produção energética não oblitere a complexidade socioambiental que sustenta esse patrimônio.”
Para Nelmir Filho, estudante do Curso Técnico em Edificações do IFBA e natural de Xique-Xique (BA), a experiência representou uma redescoberta do próprio lugar. Em meio à recente visibilidade da cidade nas redes sociais, marcada por memes produzidos por inteligência artificial — como o viral “ninguém me entende em Xique-Xique, Bahia” —, o estudante destaca que a investigação permite deslocar o olhar para além das caricaturas digitais e reconhecer a complexidade histórica, ambiental e social que organiza o espaço ribeirinho. “Nasci e cresci em Xique-Xique, mas não conhecia com profundidade o território ribeirinho que envolve a área de Barra e Xique-Xique. Na verdade, estamos falando de um único espaço, berço da formação urbana e de suas redes de apoio, que superam as divisas municipais representadas nos mapas. A visita in loco, agora com um olhar mais atento e maduro sobre minha própria cidade, assim como a ida às dunas e à comunidade de Icatu, possibilitou vivências que suscitaram reflexões. A pesquisa e o contato com os pesquisadores me permitiram reconhecer a riqueza desse lugar, mas também os processos de degradação, muitas vezes provocados por nós mesmos, e os problemas que demandam maior atenção do poder público.”
Por fim, a pesquisa de campo no Médio São Francisco evidenciou, em síntese, que as fragilidades das políticas públicas não são abstrações institucionais, mas marcas concretas inscritas na própria paisagem. Essas fragilidades configuram cicatrizes dos processos histórico-políticos por um lado e, por outro, elencam ações territorializadas que protagonizam feridas abertas, principalmente no que diz respeito à vitalidade do Velho Chico. Nesse sentido, a leitura crítica do território é relevante para o campo da arquitetura e do urbanismo, tanto na discussão teórica quanto nas verificações empíricas dessas através do exercício projetual, uma das bases intrínsecas à formação do técnico em edificações e do arquiteto e urbanista. Por isso a reflexão sobre governança territorial se faz necessária para estabelecer articulações com a prática projetual, tal como exercício atento às condições ecológicas, às estruturas sociais e às experiências acumuladas pelas comunidades que ali vivem.
Francesca, após imersão e vivências nesse pequeno recorte geográfico do Brasil, conclui que “estudar a paisagem significa, antes de tudo, compreender como uma sociedade vive em seu território. E talvez seja justamente essa a essência da arquitetura: não apenas projetar formas, mas ler, interpretar e acompanhar as relações entre comunidades, ambiente e recursos. Nesse sentido, a Caatinga representa um laboratório extraordinário. Um lugar onde a fragilidade ambiental torna visíveis, em forma extrema, questões que hoje dizem respeito a todo o planeta. Mas também um contexto no qual emergem práticas de resiliência, conhecimentos locais e formas de adaptação que podem orientar uma reflexão mais ampla sobre o papel do projeto. Essa viagem não trouxe respostas definitivas, mas transformou as perguntas. E, sobretudo, tornou evidente que qualquer estratégia projetual, em territórios frágeis como esses, deve nascer da escuta: dos lugares, das condições ecológicas e, principalmente, das pessoas que os habitam.”
Enfim, quanto ao acolhimento e articulação dessa experiência acadêmica no Médio São Francisco, o IFBA Campus Barreiras reafirma sua condição de instituição pública que compreende o território como matéria estruturante de suas práticas de ensino, pesquisa e extensão. Nesse sentido, a região imediata de Barra e Xique-Xique, que integra à a rede de cidades do oeste baiano e detém circuitos e fluxos vinculados a Barreiras, ressalta a posição estratégica deste campus para a leitura das dinâmicas históricas, ambientais e produtivas que conformam essa parte do país. Essa localização também permite que a instituição atue como ponto de convergência entre saber técnico, investigação científica e realidade regional, em especial no estabelecimento de interesses multilaterais de pesquisa entre instituições nacionais e estrangeiras. No caso da paisagem ribeirinha e de suas complexidades, o IFBA demonstra capacidade de mediação qualificada entre diferentes escalas de análise, conectando o local ao debate internacional e situando o Oeste baiano.
Mais do que sediar uma visita técnica, a iniciativa consolida uma prática formativa que entende o ensino técnico como campo ampliado de formação crítica. Ao inserir estudantes do Curso Técnico em Edificações em uma agenda internacional de pesquisa de campo, o IFBA amplia repertórios e reafirma seu compromisso com uma formação que vai além do domínio instrumental, orientando-se pela compreensão histórica, ambiental e social do espaço construído. Além disso, a experiência evidencia que a educação profissional, quando articulada à pesquisa e à escuta das comunidades, torna-se instrumento de qualificação do olhar e de responsabilidade territorial. Nesse movimento, o campus Barreiras fortalece sua missão pública ao produzir conhecimento enraizado na realidade regional e, ao mesmo tempo, aberto ao diálogo com redes acadêmicas nacionais e internacionais, projetando o Oeste da Bahia e o Vale do São Francisco como referências incontornáveis para pensar os desafios contemporâneos do Brasil.
