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Representantes do movimento negro participam de evento em Seabra

publicado: 10/12/2015 10h10 última modificação: 06/01/2016 18h10

Com o tema “Corpo, ritmo e ancestralidade”, a mesa de abertura da III Semana Preta do campus Seabra, que aconteceu de 2 a 4 de dezembro, trouxe Danielle de Almeida, mestranda pela Universidade de Monterey (México), com trabalho acerca das cantoras negras da América Latina; Luiz Alberto, representante da Bahia na Câmara dos Deputados e criador do Núcleo de Parlamentares Negros do Partido dos Trabalhadores (PT), ao lado do ensaísta, escritor e poeta, formado em letras pela Universidade de São Paulo (USP) e doutor em literatura brasileira pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luiz Silva, mais conhecido como Cuti.

Ao citar livros, artigos e poesias, o autor interagiu com o público com base na discussão sobre racismo, preconceito e discriminação, explicando o conceito de cada palavra: “O racismo é a teoria, o preconceito é a ideia que se forma internamente em nossa cabeça e a discriminação é a prática, as atitudes cotidianas”, esclareceu. Cuti aproveitou a oportunidade para fazer uma retrospectiva sobre a origem do racismo, citando a mudança no fenótipo dos seres humanos que tiveram de se adaptar ao clima frio do continente europeu e precisaram sintetizar toda a melanina, em uma região onde a intensidade do sol é baixa. “Quando as pessoas de pele escura se encontraram com as de pele clara, houve conflitos e o racismo começou a se desenvolver. O grande exemplo foi a escravidão. Hoje, no Brasil, o que há é uma ‘hipocrisia refinada’. Achamos que racismo não existe? Então temos um fantasma! Daí a grande dificuldade de combatê-lo”, desabafou. Segundo o autor, as pessoas que sofrem discriminação acabam se adaptando, especialmente no mercado de trabalho, ao aceitar condutas interpretadas como ‘brincadeira’, chegando a mudar sua aparência e até identidade. “O número de negros e pardos no Brasil é maior que 50%, mas o reconhecimento da população negra não corresponde a esse número. Não podemos assumir a doença do outro, essa insanidade social que é o racismo!”, disse.

 No turno vespertino, foi a vez da religiosidade, com Ronaldo Senna, doutor em história pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), que falou sobre o Jarê, religião exclusiva da Chapada Diamantina, ligada ao período da mineração, que mescla aspectos do catolicismo, da umbanda e do espiritismo kardecista. Para contribuir com o debate, Herliton Nunes, do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), apresentou as religiões de matriz africana do seu Estado, enquanto Lindinalva Barbosa, mestra em letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), discorreu a respeito do candomblé.

 As apresentações culturais do primeiro dia ficaram por conta do Reisado da comunidade quilombola Agreste, além de solo de dança afro com Toni Silva. Formado pela UFBA, integrante do Coletivo “Dançando Nossas Matrizes” (DNM), grupo de pesquisadores negros da referida universidade, e dançarino da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), Toni é colaborador do Ponto de Cultura de Lençóis Grãos de Luz e Griô, através do projeto “Enegrecer”, que conta com o espetáculo “Guerreiros e Guerreiras”, apresentado durante a III Semana Preta. No Vale do Capão, onde mora há mais de dez anos, desenvolve atividades com mulheres. Desde a primeira edição, ele acompanha o evento do IFBA. 

“Ano passado ministrei uma oficina sobre danças de terreiro como processo histórico na autoestima do povo negro, além de aula-espetáculo. Foi muito bom! A plateia prestigiou e se emocionou junto comigo. Percebo que o encontro está amadurecendo a cada ano, ganhando respaldo. Sinto que o público está interagindo mais. Neste ano, estreei o espetáculo ‘Agoiá’, apresentado no primeiro dia do evento. Acho que o nosso maior desafio é sair da zona de conforto e ir até as comunidades, mostrar as potencialidades do nosso corpo e da dança, que é visceral, vem de dentro. Enquanto brasileiros, todos temos sangue mestiço: do negro, do índio e do branco/europeu. Nesse sentido, compreendo o trabalho da Semana Preta como a culminância de algo que ultrapassa um evento. Convidados como Cuti e Fábio Santana (Olodum), ao lado dos professores, também militantes, como Ana Carla, Maria de Lourdes (Malu), Azamor e Henrique, contribuem para a formação dos nossos jovens, que daqui do IFBA, de Seabra e da Chapada Diamantina vão para o mundo e levarão essa mensagem”, contou. 

A partir do segundo dia, 3, as oficinas dinamizaram a Semana. Percussão, estética negra, hip hop, grafite e teatro estavam entre os temas, este último, conduzido por Fábio Santana, do Bando de Teatro Olodum. As mesas-redondas aconteceram no turno vespertino e trouxeram para o debate a situação da juventude negra, com base nos quilombos urbanos, as conhecidas periferias, e os rurais, com a presença de integrantes de comunidade quilombola de Iraquara. Integrantes do Grãos de Luz e Griô agitaram o público com apresentações culturais repletas de música e dança, bem como a turma do “Curso de Canto Coletivo”, do campus Seabra, coordenada pelo professor Eric Barreto, que fez sua primeira apresentação pública. 

Facilitador da oficina de percussão, Sidney Argolo é coordenador de projeto social no bairro da Paz, em Salvador, que abrange o Grupo Étnico-Cultural da Bahia e o Coral da Paz Etnia, formado por crianças. “Toda a comunidade tem acesso a aulas de capoeira, oficina de canto, violão, berimbau, artesanato e construção de instrumentos musicais. Agora estamos criando uma orquestra de xequerê [instrumento de percussão africano feito com uma cabaça]. O que trouxe para o IFBA foi um pouco da oficina de instrumentos, incluindo xequerê e baquetas, estas últimas feitas com produtos reaproveitados, como espuma e cabos de vassoura”, descreveu. 

Na ocasião, Sidney falou sobre a história dos instrumentos e sua relação com as tradições africanas, especialmente durante os rituais, essenciais na relação do ser humano com a natureza. “É a primeira vez que participo da Semana e percebi o empenho da equipe organizadora. Como integrante do Conselho Estadual da Juventude, sei que o IFBA tem avançado nas políticas sociais, o que me deixa muito feliz”, acrescentou. No público da oficina, estavam estudantes e servidores do campus. Todos destacaram os aspectos positivos da experiência, como o relaxamento e a possibilidade de interagir com os colegas, ao trabalhar de modo coletivo. 

Na sexta-feira, 4, os contos e mitos afro-brasileiros, ao lado do artesanato, movimentaram os participantes em torno das oficinas. De Palmeiras, estiveram o grupo Dance Teens e representantes da Comunidade Quilombola do Corcovado, parceira do IFBA, através de projetos de pesquisa e extensão. Vilma Novais, presidente da associação, veio ao Instituto com dois irmãos compartilhar a arte de fazer cestos de cipó e flores de palha de licuri. Além desses materiais, a comunidade também cria peças com fibra da bananeira e PET, como jogo americano, bolsas e luminárias. “Aprendi o artesanato com minha irmã, que aprendeu com minha mãe. Era uma tradição da família que estava esquecida. Através de aprovação de projeto em edital, conseguimos resgatar nossas crenças e raízes. Hoje comercializamos peças artesanais e sustentáveis na sede do Corcovado e pela internet também. É uma maneira de complementar a nossa renda, ao lado da agricultura”, explicou. Seu irmão, Vanildo, agradeceu pelo interesse dos jovens e se sentiu satisfeito com a recepção dos alunos. 

À tarde, a mesa-redonda “Racismo Epistemológico: a neutralidade veste branco” acendeu a discussão sobre a participação dos negros na ciência, tecnologia e inovação, com o articulista, palestrante e mestre em história da Universidade de São Paulo (USP), Carlos Eduardo Machado, acompanhado pelo pesquisador Erivelton Thomas, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Ao fazer uma retrospectiva sobre cientistas negros que contribuíram com inventos famosos, como a luz elétrica, e fizeram história, sendo reconhecidos em diversas áreas, como literatura e economia, Carlos Eduardo chamou a atenção para a diversidade, incentivando a quebra das visões hegemônicas e o entendimento do universo negro além da perspectiva cultural. Nesse último dia de evento, nove integrantes do Bloco Ilê Aiyê, entre dançarinas, cantoras e percussionistas, agraciaram o público com três oficinas e um show completo, para finalizar a Semana em grande estilo. “Trabalhar com jovens, pra gente, é uma experiência sempre positiva. Foi muito legal participar da III Semana Preta do IFBA”, comentou Valéria Lima, produtora do grupo. 

Para Noilson Oliveira, estudante da formação técnica de informática e monitor do evento, a Semana Preta é uma forma de valorizar a cultura negra e enriquecer a vida acadêmica e social. “Participei da oficina de percussão com a equipe do Ilê e da atividade do grupo ‘Entre Khalos Aladas: Núcleo Esmeralda do Carmo’, do qual sou integrante”. Já a colega de curso e grupo, Maria Júlia Vieira, que esteve na oficina “Estética negra como ato político”, questionou o discurso midiático sobre o tema. “Os meios de comunicação transformam o assunto em moda. Mas a moda passa e, então, vamos nos ‘embranquecer’ novamente? As mulheres negras têm a autoestima baixa. Precisamos falar sobre nós mesmas e aprender a lidar com nossa beleza. Ao longo da vida, sofri muito preconceito, por meio da violência simbólica, por isso, desde cedo, estou no movimento negro. Como futura profissional da área de informática, ambiente de dominância masculina, pretendo continuar na militância e utilizar a estética negra, de fato, como um ato político!”, sinalizou a jovem.

 

Coordenação de Comunicação – campus Seabra 

 

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